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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência…



Imagem tirada daqui

Chico esperava pacientemente à porta do colégio. Já passava das cinco da tarde, a chuva caía teimosa e mole há horas e começava a fazer frio. Mirou o relógio que vislumbrava da entrada da escola, a porta abria e fechava sempre que saía um miúdo e era colhido com um beijo na bochecha, um afago, uma festa na cabeça. A porta de um carro fechava-se invariavelmente atrás dessa imagem, repetida tantas vezes quantos os colegas que abandonavam o local onde passavam os dias.

O som e as imagens foram sendo cada vez mais raros, mais espaçados. Esgueirou os olhos uma vez mais pela porta que agora tinha ficado entreaberta e colou-os ao relógio. Tinha passado uma hora a mais do que a devida e nenhum sinal da mãe. Chegou, por fim, com a irmã pela mão, que entupia de chocolates.

- Chico, anda, que estás tu a fazer aí parado?! Mexe-te! A Teresinha tem de ir já para o banho.

E lá seguiu Chico, quatro passos atrás das duas. Chegados a casa, o serão desfilou igual ao da véspera, com a mãe a praguejar contra a má sorte e contra a vida – que triste era! -, os mimos e sorrisos engolidos pela Teresinha, todos para a Teresinha, e Chico, quatro passos atrás, enfiando-se no sofá, escondido atrás dos quadradinhos das páginas dos bonecos, fingia não dar por nada e desejava crescer depressa.

E o tempo fez-lhe a vontade. Chegou a puberdade, os primeiros olhares trocados timidamente com as raparigas do liceu. Os regressos a casa, onde a mãe continuava a barafustar contra a triste sorte, o pai de corpo presente e espírito alheado, sempre ausente,

- não serves para nada!

sentenciava a mãe. Chico virava as costas, voltava a enfiar-se no sofá, pregava os olhos na televisão, fingia viajar.

- Ainda há chocolate, mãe?

- Há uma tableta, mas é para a Teresinha, já sabes que ela aprecia.

O tempo cumpria a sua função, umas vezes mais devagar do que outras. O corpo robusteceu-se, ganhou forma de homem feito. Tinha passado por menino, mais ou menos silencioso, ouvindo as lamúrias da mãe que embriagava no próprio eco e no pai, que de pai gastava só o nome, pois o seu tempo era feito de outros caminhos. E sempre a voz daquela mulher, carregando os mesmos lamentos, carinhosamente cultivados e regados para que não murchassem. Chico enfiava-se no sofá, ansiando pela atenção há muito esperada, que não chegava.

E desistiu. Um dia chegou, bateu com a porta e partiu.

Abriu os olhos e afiou as garras. Cresceu de Chico a Francisco. Fez coisas. Ganhou, perdeu. E esperou. Casou, sonhou, esperou. Descasou. Vagueou por muito lado, carregou o sonho e a mágoa. Procurou o ontem nos dias de hoje,

- talvez amanhã seja diferente,

olhou o presente com a mágoa do passado. Tinha uma sede antiga que não passava. Em todas procurava essa água, um copo cheio, mas era sempre pouco. Desconfiava, irritava-se, enciumava. Cobrava as atenções a qualquer um, exigia respeito. Precisava de si, precisava urgentemente de si, precisava que o ouvissem e o seguissem. Abandonara o sofá onde os seus olhos belos e grandes observavam o vazio da casa cheia de ais, mas seguia às cegas, de grandes olhos abertos. E era sempre o mesmo sonho, a mesma ausência…

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Memórias de infância

Foto de José Neves

Maria olhou a miniatura de lata amarela. A tampa da arca aberta e ao lado o saco cheio de outras miudezas, prontas a seguirem viagem até ao contentor do lixo mais próximo. Agarrou o pequeno brinquedo, mexeu, mirou e remirou. Sorriu um sorriso calmo e morno e viajou numa memória perdida. Aquela miniatura lembrou-lhe as vezes em que, puxada pela mão da mãe, caminhava apressada, passos atabalhoados, pernas curtas de criança, aos tropeções, “depressa”, diziam-lhe, “não podemos perdê-lo”, e dava por si quase atirada para dentro, entalada entre um sobretudo e um vestido de lã. Sentia o carro deslizar a uma velocidade estonteante, e ia experimentando o prazer dessa pequena vertigem, deliciada. Mais tarde, a sensação amadureceu, a vida encheu-se de outros afazeres e o tempo corria veloz demais para a velocidade deste carro. Agora o prazer já era outro, ditado pelo charme da pequena carruagem. Deixou de ser escolha para pressas e foi usada para momentos em que o relógio vivia devagar. Mais tarde, ainda, abandonou por completo estes passeios, embarcou noutros, até ao momento presente, em que a viagem se fez de novo, através dos carris da memória. E quase jurava que voltou a sentir o aconchego do sobretudo e do vestido de lã.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Inquérito

Imagem tirada daqui

Cristina e Margarida prepararam-se para mais um inquérito a uma família dita “tipo”. Das suas famílias, aspectos havia que teoricamente se distanciavam do modelo tipificado como ideal, se bem que cada vez mais comum nos tempos que correm. Prepararam-se para entrevistar uma mulher que lhes falaria da sua vida, da sua família e dos seus hábitos de consumo. Só não se tinham preparado para ouvir um relato na primeira pessoa de alguém que se dizia feliz, apesar das apertadas condições económicas em que vivia.

Carla e Carlos tinham nascido um para o outro. Seres iguais, nos afectos e esperanças, alinhavavam a vida de ambos como se de uma única se tratasse. E, realmente, tratava-se de uma só. Nela cabiam muitos outros seres, a começar pelos três filhos adolescentes e uma rede de parentes e amigos, todos eles muito próximos entre si - e de Carla e Carlos. Também. Nessa rede viviam e dela se abasteciam, de afectos e proximidade. A ela recorriam todos, sempre que necessitavam de alguma coisa. Entreajudavam-se.

Carla é jardineira e Carlos serralheiro. Carla ganha uns magros 400 euros mensais e Carlos vai-se safando no ofício o melhor que pode. Carla ajusta as despesas do mês ao parco rendimento, tira partido de todos os talões de desconto que lhe chegam às mãos; contabiliza ao cêntimo as necessidades indispensáveis e dispensa todas as outras. No início de cada ano, perspectivam em conjunto as férias e os principais acontecimentos; no início das semanas, perspectivam as refeições de família e cozinham-nas, à vez. Partilham tudo o que tem a ver com a vida de família e, a bem dizer, nada mais resta para além dela. Centram a sua existência neste núcleo e ele lhes basta.

De vez em quando, conseguem tirar uns dias de férias só para os dois, já que um casamento precisa de respirar também através destes momentos. "Os filhos compreendem", diz Carla, "e apoiam-nos. Já realizei a viagem da minha vida: fui a Veneza com o meu marido, uma semana, e adorei!"

Carla veste sem luxo mas tem uma aparência digna. Aqui e ali um ou outro acessório, como que a atestar a contemporaneidade: um relógio Swatch, umas pulseiras da moda… A espaços, Margarida olha a colega de soslaio como que mal refeita ainda da surpresa desta entrevista. Ocorre-lhe por vezes ficar a ouvir Carla como que em voz off, ao longe, e perder-se em pensamentos menos felizes. Ocorre-lhe lembrar-se que há vinte anos que o seu marido se alheia das responsabilidades domésticas; ocorre-lhe ainda que o seu dia-a-dia é preenchido com inúmeras tarefas, todas sempre tão carregadas de responsabilidade, que mal tem tempo para si própria. Ocorre-lhe, por fim, que não se lembra de ter tido a viagem da sua vida, fosse esta qual fosse, e que ouviu e registou com indisfarçável espanto que Carla, a jardineira, mal paga, já a tinha realizado e – pasme-se! – com o marido!...

Passada hora e meia, Cristina e Margarida abandonaram aquela casa. Um silêncio perturbador pesou sobre ambas, distraídas em rebobinar rapidamente as suas vidas, como se fosse possível fazer uma síntese de quarenta e poucos anos de existência naqueles escassos minutos e, ainda por cima, daí conseguir retirar uma conclusão que lhes servisse de guia. Cristina foi a primeira a quebrar o silêncio opressivo. Talvez por defeito de formação, a referência que surgiu em primeiro lugar foi uma obra que tinha acabado de ler e para a qual estabeleceu uma ponte. “Trata-se de um livro sobre o Estado Novo”, comentou em voz alta. “É muito interessante verificar que Salazar fazia assentar o seu modelo social na família, em detrimento do cidadão, do indivíduo. Defendia ele que a família deveria ser o primeiro dos elementos políticos do Estado, e daí a figura do chefe de família como porta-voz da mesma, o chefe de família como eleitor das instituições do Estado, e por aí fora. É claro que as consequências disto são por demais conhecidas, mas poderíamos sempre filosofar sobre se deverá a sociedade eleger a família como seu núcleo central ou, pelo contrário, libertar o indivíduo dessa carga e responsabilizá-lo, tornando-o num cidadão de pleno direito!”

Margarida sorriu e preparou-se para traduzir a reflexão da colega por um discurso menos académico. “O que eu sei é que a Carla que acabámos de entrevistar não tem grandes ambições, para além de construir uma família. O que já não é pouco! Mas basta-lhe isso, não procura outros caminhos, outras realizações. E, apesar das dificuldades económicas, consegue encontrar-se, graças a um estilo de vida comunitário, ao suporte de uma rede familiar e de amigos próximos, e isso é formidável! Ela conseguiu uma estabilidade emocional que lhe permite seguir em frente.”

Cristina concordou e sorriu. Pensou na dificuldade que sentia em eleger algum homem da sua família chegada que servisse de modelo masculino capaz para o seu filho adolescente… Pensou ainda em como deve ser confortável ter uma rede de apoios como a que lhe tinham relatado. Mas sabia também quanto valorizava a sua individualidade e como não se reconheceria facilmente dentro de um círculo fechado. Valorizava sobretudo o equilíbrio e, perante uma escolha entre segurança ou liberdade, decidia-se pelas duas. Quanto baste, reconhecia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Doces da época e outros amargos de boca


O Natal não é uma data, é um estado de espírito. Leu. Dobrou o jornal em dois e ocorreu-lhe que gostaria de lhe dar mais corpo, a esse Natal que, pelos vistos, vive mais em espírito. Materializá-lo. Poder tocar-lhe, desvendar-lhe as formas, agarrá-lo e chamá-lo a si. Há já tantos anos que apenas o sonhava, que dele tinha saudades. Saudades de uma casa cheia, cheia de gente e de vozes, de risos e algum calor. Semicerrou os olhos para logo de seguida os abrir e fixar o tipo careca que aparentava apenas uns trinta de idade e mexia nervosamente o café. Um tipo muito vulgar, pensou, e talvez por isso desviou o olhar que percorreu um círculo em direcção ao jornal, dobrado ao meio, que repousava na mesa ao lado do prato com os restos do folhado. Seco, por sinal. Ainda com o Natal na cabeça, lembrou-se que gostava muito de azevias, principalmente das de grão, e que só costumava comer duas ou três em cada Dezembro. Apesar de gostar, o certo é que as enjoava facilmente e perdia a vontade até ao ano seguinte. Luísa tinha mão, fazia-as bem, mas desde que saiu comprava-as na pastelaria e não era a mesma coisa.

Saiu, com o jornal que continuava convenientemente dobrado debaixo do braço. Caminhou ao longo da rua, dobrou a esquina, atravessou outra rua e mais outra. Parou no semáforo para atravessar uma terceira e observou um casal com dois miúdos, um ainda criança, outro nem tanto, já adolescente, espigadote. Sorriu para dentro um sorriso pálido e novamente a ideia do Natal e do seu corpo entrou no seu pensamento, ou diria antes, no seu espírito. Não teve filhos e esse desejo esteve ausente durante muito tempo. Só chegou agora, sob a forma de vazio, um vazio acentuado a cada Dezembro, um maldito mês que no seu final se despedia sempre em tons carregados. Luísa, essa sim, sentira essa falta e talvez por isso as coisas azedaram entre eles, devagarinho, e mais tarde resolveu arejar e procurar preencher vazios, vários, noutros registos de vida.

O bolso do casaco vibrou com o toque do telefone. Atendeu. Falou uma conversa curta com o irmão. Desligou. Mais um problema resolvido - comeria as azevias em casa dele, com a cunhada e os miúdos, os sogros do irmão e uns primos do Algarve, que rondavam a mesa e o espaço em cada Dezembro e compunham a cena e aqueciam as conversas. Não seria o cenário idealizado, mas era o possível e, pensando bem, era de dar graças por ainda existir esta possibilidade, este aconchego. Agora devia ocupar-se com outros afazeres, como o que dar aos dois sobrinhos, cheios de tudo e falhos de coisa nenhuma, que agora os miúdos já nem espaço têm para desejar, de tão atafulhados que ficam nestas ocasiões. E noutras, também. Lembra-se que em criança desejou muito uma mota que demorou alguns anos a conquistar, mas hoje já não é assim. Resta saber como será amanhã, mais tarde, se já for difícil encher embrulhos bonitos, o que será das crianças, já grandes por fora, mas teimosamente pequenas por dentro… Enfim, pelo menos ele não sentiria na pele esse problema, uma vez que não tinha filhos.

Olhou para o relógio e sobressaltou-se com as horas, que o fizeram despertar para o presente. Continuou a andar pela avenida até que se deteve numa montra e o presente recuou, muitos anos. Sorriu um sorriso cúmplice, e resolveu-se a comprar uma mota que animava aquela pequena montra. Pronto, pensou, já tenho mais um problema resolvido.

domingo, 7 de novembro de 2010

O senhor João

Afastou com a ponta dos dedos a cortina branca da janela e espreitou pela vidraça. Ao fim da tarde, já pouca luz restava, já a sombra vinha comendo aquela rua estreita, o passeio, o prédio da dona Deolinda que morara mesmo em frente, no primeiro andar, mas João nem notava, de tal forma conhecia de olhos fechados a sua rua. Passava pouca gente àquela hora, quem regressava do emprego já tinha chegado e o frio não chamava para fora de casa, pelo contrário, percebia-se a luz das televisões por algumas das janelas que ainda permaneciam acordadas, antes do correr dos estores que anunciavam o sono dos seus donos.

João olhava para fora, com o olhar morno de quem tem tempo para esbanjar. Do terceiro andar do 26 assomou-se à janela uma rapariga, devia ter aí uns 25 anos, mais ou menos, não lhe sabia o nome, apenas que se tinha mudado para aquela casa onde dantes morava a dona Conceição e o senhor Ramiro, coitado, tinha ido desta para melhor faz aí uns cinco anos, à conta do coração que o desacompanhou de vez.

O olhar de João ainda se mantinha preso ao passeio da frente mas já o pensamento descia a rua, para se estancar à esquina onde João vivera anos a fio atrás do balcão da sua mercearia. Reinara sem rival naquela rua estreita e comprida, acompanhado pela Lurdes, sua mulher, que existia dentro de uma bata negra, na parte de trás da loja, encostada a um fogão que fritava rissóis e pastéis que as donas deolindas e outras levavam para os netos. O casal viera do Minho e assentara ali. A pequena mercearia de João e Lurdes era o centro daquele mundo estreito, habitado por adelaides, joaquinas, deolindas, ramiros e antónios. Havia também a dona Isaura, uma mulher da Beira Alta, madura e roliça, e o seu marido Carlos, que guiava a carrinha da Carvalhelhos. Dona Isaura era chamada à loja duas vezes por mês, para atender a chamada que vinha da terra. E lá descia a rua dona Isaura, apressada, com uma pequena angústia a assaltar-lhe o pensamento, sempre pronta para ouvir uma notícia má, a atender o telefone preto encafuado em cima da lista telefónica num nicho junto ao balcão. Será que a minha Aninhas está bem? Ai credo!, Deus me valha!, ouviu-a tantas vezes dizer.

A sua loja era um espaço acanhado, um pequeno mundo atafulhado de sacas de feijão e grão que era servido ao peso em medidas de lata e despejado para dentro dos sacos das freguesas. João inclinou a cabeça para trás e a sua memória trouxe-lhe o cheiro das compotas que a anafada Lurdes, dentro da sua inseparável bata preta e com um sorriso estampado na bochecha transpirada pelo fogão, costumava fazer. O do tomate era o que tinha mais saída, recorda, era o preferido da Isabelinha, que vivia no 72 e tinha duas irmãs, a Teresa e a Cristina. Muito diferentes, por sinal, essas gostavam era de ir lá a meio da tarde buscar iogurte natural da Vigor, em boiões de vidro, claro, que nessa época não havia outros.

Em frente vivia uma família com duas filhas. Destoavam deste mundo, não davam cavaco a ninguém. Muito independestes, dizia-se que ele era engenheiro e a mulher professora numa faculdade e vestiam uma roupas muito coloridas, em especial as raparigas. Mas esses não costumavam ir muito à sua loja, saíam cedo e voltavam tarde e não se davam com a vizinhança. Pois não, remata João, para si.

João espreita agora a rua em sentido contrário e olha até onde ela quase termina. A partir daí já não lhe desperta interesse, ali começava outro mundo que já não era o seu. Do seu, esse sim, tem saudades!... Era assim a vida daquela rua, há uns trinta e muitos anos. Um pequeno mundo fechado onde todos se conheciam. Todos, que tinham saído das suas terras e transplantado a ruralidade para esta rua, em doses mais controladas, é certo, mas ainda assim era uma nova pequena aldeia. Hoje João já não reconhece os passos de todos os que lá moram, nem lhes segue as horas, nem os caminhos. Da rapariga que parece ter 25 anos e que assomou por momentos à janela ele desconhece o nome. A sua mercearia há mais de uma década que deixou de vender enchidos minhotos para albergar brique-à-braque chinês. As donas deolindas foram morrendo; as casas, uma moribundam, outras renovam-se aos poucos para dar abrigo a gente sozinha ou a casalinhos jovens; e uma outra, lá ao fundo, do lado de quem desce, foi transformada em bar que já abriu e fechou vezes sem conta. É a vida!, suspirou João.

Libertou a cortina, presa dos seus dedos, afastou-se da janela e olhou para dentro, para o relógio de parede que lhe mostrava que eram horas de compor o estômago. E eu sem fome, protestou. Sobressaltou-se ao som do telefone e sorriu ao de leve com essa breve angústia, recordando-se da dona Isaura e das suas apoquentações em direcção ao seu telefone preto. Nós éramos assim, concluiu. Sem essas pequenas angústias nem sabíamos respirar: se alguma coisa mexia só podia ser ruim. Sorriu uma vez mais e chegou tarde junto do telefone. Branco, agora. Deixa, antes assim, disse num bocejo. Quem quiser que ligue de novo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Validação


Estava mesmo em cima da hora. Estacionou o carro na praceta, debaixo de uma chuva miudinha, abriu com dificuldade o guarda-chuva que já contava com duas varetas desamparadas, segurou como pôde a mala sempre aberta e saiu. Ultrapassou a esquina e entrou por aquela porta de alumínio, baixa, subindo as escadas e sentou-se à espera. Poucos minutos depois, ele abriu a porta, sorriu-lhe o sorriso habitual e, amavelmente, convidou-a a sentar-se. Então, como se sente?
Sentou-se.

Tentou passar rapidamente em revista a sua semana, na esperança de eleger acontecimentos dignos de registo. Na verdade, não lhe ocorria nada a que pudesse reconhecer relevância; a não ser que se sobressaltava ao mais leve movimento inesperado ou ao ouvir um som brusco; que se sobressaltava no desconforto dos seus dias, no desconforto de se saber a falar para o vazio e sem eco. Bom, mas isso não significava que alguma coisa tivesse acontecido, antes pelo contrário, já que não registava nenhum acontecimento digno de nota. A não ser que reflectisse sobre o facto de ao fim de todos estes anos continuar a falar para o vazio. Talvez isso fosse um problema geracional, era-o com toda a certeza, concluiu facilmente, já dentro da conversa com ele. Ele olhava-a e aguardava pacientemente que mais ideias surgissem e, quando surgiam, perguntava com uma certa cadência Quer ajudar-me a entender isso? Queria, seguramente. E avançava confiante pela teoria do conflito de gerações, discorrendo sobre o diferente valor dado às coisas e de como os conceitos abstractos tinham um entendimento diferente do dos conceitos mais materiais. De como, na outra geração, o respeito pelo outro ou a liberdade individual perdiam terreno para as questões mais concretas, como o custo das coisas e a segurança material, por exemplo.

Deixou sair um breve olhar pela janela, de soslaio, e voltou a vasculhar na memória recente a ver se descobria dias relevantes. Novamente de soslaio, o olhar virou-se para ele, que aguardava, pacientemente. Não sei que mais lhe possa contar, confessou timidamente. Ele sorriu, também um sorriso contido, e largou, a título de achega, Costuma dizer-se que quem está mal, muda-se...

Ela pensou ter compreendido. Remexeu-se na cadeira, cruzou e descruzou as pernas que sempre teimavam em não permanecer ambas na mesma posição, e resolveu-se a mudar. Foi a sua vez de sorrir um sorriso, desta vez para si própria. Para começar, iria sair dali, para o mundo real, e largar a muleta de quem nada mais lhe trazia do que ser eco e aplauso das conclusões a que já, por si mesma, tinha chegado.

Desceu as escadas, fez o caminho de volta e deixou-se envolver pela chuva miudinha que ainda marcava o final do dia. Saiu, com a sensação de ter levado um carimbo de validação em todas as reflexões que, habitualmente, nem achava que fossem suas mas apenas do senso comum. Ligou o rádio do carro e ouviu-o cantar a velha metáfora: Estava eu quase morto no deserto, e o Porto aqui tão perto!...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Legenda de um olhar...

O tempo tinha-o de sobra, apesar do pouco que lhe restava.
Cada ruga, cada traço, carregava anos de dias pesados, duros de trabalho.
Levantou-se cedo desde o berço, um caixotinho de tábuas perto da braseira. Cresceu e viveu acartando lenha, tratando da criação. Criou outra também, um rancho de seis filhos, quase todos ausentes agora, tirando a Laurinda que tinha ficado por perto e que agora ganhava a vida atrás do balcão, desfiando tecido a metro para uma freguesia pouco exigente e ainda menos compradora. Para além disso cuidava dela. Todos os dias lhe levava o almoço, lhe fazia a cama, lhe arrumava a casa, que Bárbara já não se endireitava como antes.

E esta ficava a olhá-la, quieta e silenciosa. Olhava-a e reconhecia os velhos gestos, os de sempre, que tinha passado à filha na rotina da lida da casa. Olhava-a num sentimento de missão cumprida, de ciclo fechado. Olhava-a na certeza e com a segurança ganhas pelo tempo. Do passado e do que lhe restava.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Baços brilhos...

(imagem tirada da net)

A vírgula entrou singela, altaneira, no seu vestido coleante. Desliza pela sala, dengosa. Recosta-se num sofá, com ar absorto e distraído.
"Vamos dançar?", pergunta. Ele. Baixo e atarracado, como que carregando sempre um peso sobre a sua cabeça. Vestido de preto, com ar um tudo nada fora de época, há muito que se tinha habituado a ver os outros de costas, rumando em direcção contrária à sua, desprezando-o e ignorando a sua presença. Ou, noutros dias e noutras horas, chamando-o para tarefas que não eram as suas, confundindo-o com outros parceiros, subalternizando-o.

Ela, sempre muito atarefada, sendo constantemente chamada a figurar em qualquer cenário, sempre presente. Ela, olhando-o de baixo para cima – não muito, dada a pouca estatura dele, coitado! – abriu um sorriso estreito e descorado, para deixar através dele escorregar um desinteressante “Não, obrigada…”

“É o costume”, pensou ele. Arrastou-se até ao balcão, pediu um gin e ficou a observar quem entrava. Viu aproximar-se aquele desmiolado do ponto de exclamação. Alto e magro, elegante até, não passava despercebido naquele círculo de acentos e letras desencontradas. Em tempos constou que tinha tido uma infância atribulada, e uma vida com questões mal resolvidas. Mantém sempre aquele ar admirado, espantado mesmo. “Bahh, mais parece um miúdo hiperactivo…”, concluiu o ponto e vírgula, “nunca entendi porque lhe dão tanta importância…”

Olhou na direcção do sofá onde ela permanecia recostada, agora acompanhada por dois pontos. “Sempre iguais, estes dois”, pensou, abanando levemente a cabeça. “Desde que os conheço que andam sempre juntos, inseparáveis, um verdadeiro Dupond e Dupont…"

Viu-a levantar-se e sorrir. Os dois pontos permaneciam no sofá, agora um pouco abandonados à sua sorte. Ela, a vírgula, altaneira, deslizava no seu vestido coleante e cumprimentava, dengosa, o travessão e os parênteses. Desdobravam-se em elogios e sorrisos, trocavam olhares cúmplices e gulosos e ela, olhando ora para um, ora para outro, começava a sentir uma leve tontura na sua cabeleira farta e loura, sem se decidir a qual prestar maior atenção. “São tão parecidos”, coube-lhe agora pensar, “quase se confundem…”

Ao fim de meia-hora de trivialidades, a vírgula voltou para o seu sofá, abriu a bolsinha da maquilhagem e retocou o rosto, onde leves traços se vincavam já. “Há que manter o brilho”, gracejou para si própria.

Ergueu a cabeça e os seus olhos procuraram os outros acentos. Naquela confusão de letras soltas lá os vislumbrou, ao fundo da sala, por entre uma atmosfera já pesada de fumo, aos seus admiradores, que se derretiam agora perante a nova frase da moda, que acabara de entrar. "Novos brilhos", pensou ela…

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ouçam como eu respiro...

(imagem retirada de aqui)

Respirava às vezes, por entre conversas cheias de cor com gente ao vivo. Respirava, também, entre palavras trocadas à distância de alguns cliques, sempre com gente cheia de cor para trocar com ela.

Nem sempre tinha essa sorte. Por vezes, sustinha a respiração, e exibia o sorriso número zero, o tal que tinha o condão de passar despercebido, antes que…

Naquele dia, teve a sorte de trocar umas garfadas por entre uma conversa animada que lhe encheu os pulmões. Respirava.

Esperava respirar mais vezes e descobriu que adorava charadas! Para bom entendedor… ;)

domingo, 3 de maio de 2009

A morte de Corín Tellado… ou o meu mundo não é deste reino

(imagem da net)


O meu mundo não é deste reino, é uma espécie de mote recorrente, que lhe visitava o pensamento a propósito de muitas situações: de um reino de cálculo ou de conta, daquela que faz, especificou, uma vez mais de si para si.

Na sua frente uma mancha de pequenas teclas pretas, que podiam dizer muito ou mesmo tudo do que se passava neste momento no seu mundo. O tal que vivia obstinadamente do lado de fora do reino, talvez porque a portagem fosse demasiado cara ou talvez porque o caminho para entrar no reino não se lhe apresentasse como o mais interessante. Demasiado poeirento, pensava.

Nunca pensou que esse seu mundo fosse cor-de-rosa. Antes pelo contrário, já que essa cor a incomodava e não lhe reconhecia grande interesse. Antes pensava que esse seu mundo fosse assim mais para os tons terra, aqueles que nos agarram ao chão e nos deixam criar raízes. Os tais que pensamos ser de Outono, mas que nem tanto, já que este prefere outros matizes, mais variados, como variegadas são as suas folhas.

Mas voltando ao cor-de-rosa. Lembrou de alguém que há pouco, muito pouco, lhe tinha dito que a Corín Tellado já tinha morrido. Ah… sim?!... Pois… respondeu ao trocadilho com um meio sorriso em tons cinza. Que a Corín Tellado nunca tinha existido realmente a não ser na utopia do sonho e do querer. Esse querer que tantas vezes nos afasta dos tons terra e teima em dizer que o cor-de-rosa ainda está na moda…

Concentrou-se na mancha de teclas negras que se comprimiam rapidamente sob os seus dedos, à velocidade em que o seu mundo ia descolorando, e vagueava perdido entre os tons terra e o cor-de-rosa, cada vez mais descorado…

Continuou percorrendo as teclas até que o relógio a trouxe de volta à realidade. Desligou tudo, levantou-se e preparou-se para abandonar o seu mundo a outros cuidados, talvez aos deste reino... Bocejou, programou o despertador que também não pertencia ao seu mundo mas a este reino e decidiu-se, sorrindo com o fim da metáfora: vou ter de mudar de tinteiro.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O infinito pode esperar?

(imagem retirada da net)


Deu meia-volta na cama e procurou adormecer. Mais meia-volta mas o sono tardava, andava arredio, dando espaço a pensamentos mais densos. Não sabia por onde deveria cortar – ou melhor, isso até sabia, mas não lhe apetecia. Como seguir o impulso e ceder aos sentidos, se a cada esquina novo coelho saía da cartola, sempre negro, num discurso profético em que se anunciava um desfecho doloroso para uma existência já de si sofrida? Como persistir no querer quando outra tentação lhe segredava ao ouvido palavras doces com promessas cheias de sol? Mas como avançar para esse sol, envolto num algodão doce, se o impulso teimava noutra direcção e lhe punha na boca o gosto amargo que não passa, por mais algodão doce que se coma?

Veio-lhe à memória uma fidelidade em forma de soneto, com sotaque adocicado, como doce era também a sua letra:

De tudo ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento.

E esta fidelidade continuava o seu canto até que concluía:

E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama / Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.

Fez marcha a ré nos pensamentos, já que o sono assobiava ao longe de costas voltadas. Infinito não terá sido, pensou, e o olhar quase se embaciava, recordando-se de outra vida vivida. Mas também houve sol nessa outra vida.

As memórias começavam agora a aproximar-se do tempo recente; parecia que vinham a todo o vapor e serviam-lhe de bandeja outras lembranças. O futuro não acaba amanhã, sorriu-lhe esta. Desfilavam como fantasmas elegantes nesta noite sem sono. O tal que teimava em assobiar para o alto, qual miúdo travesso: se ao menos ele fizesse o que lhe competia, pensava, já não tinha que me ocupar com estes pensamentos circulares, abrigos destes fantasmas elegantes…

Ao fim de mais umas voltas o sono resignou-se e entrou, de mansinho, dando-lhe tréguas. Até ao despertar.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Entrevista


Desligou o telefone com um suspiro. Seria desta?

Ao abrir a porta percebeu imediatamente que era. Na sua frente, uma mulher com cara simpática, afável, cabelo curto e lenço ao pescoço, preso com um alfinete em forma de flor. Formas quase redondas, a tender para o cheio, ar lavado e engomado. Sorriso franco.

Há oito anos que vinha do Leste. Ia e vinha, entre as saudades da terra e dos filhos e a necessidade de trabalho. Caminhava para cá, deixando no pensamento um rasto de saudade e preocupação, presos numa cidade distante de um país gelado, à direita no mapa.

Enrolava as palavras lusas e fazia um esforço por dar forma às ideias e ao que precisava de dizer. Do sorriso aberto espreitava um dente de ouro, fora de moda no lado de cá da Europa, mas que talvez falasse sobre um modo de vida de alguma forma parado no tempo. Ou pelo menos, no nosso tempo…

Limpava, engomava, e lá ia e vinha, num circuito sempre igual, ritmado e seguro, que inspirava confiança. Ia e vinha até um dia, em que anunciou a ida para tratar da mãe, doente e gasta, que esperava em silêncio do lado de lá, à direita no mapa.

Prometeu deixar outra em seu lugar – possivelmente parecida, vinda do mesmo sítio e viajante no mesmo percurso e com o mesmo destino.

Desligou o telefone com outro suspiro. Seria desta?...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Small talk para dias cinzentos...

Small Talk 11" x 14"Acrylic on canvas panel (retirado de aqui)


Tenho que aprender a falar, pensou. Aprender a gastar palavras pequenas, juntá-las em comboios formando frases conhecidas, daquelas que toda a gente reconhece facilmente e sem esforço, daquelas que não obrigam os outros a pensar muito, ou sequer a pensar um pouco, e para as quais toda a gente conhece antecipadamente as respostas. Confortáveis frases, sobre banalidades, queixumes recorrentes e inconsequentes, dos tais que existem apenas para preencher o vazio da falta de palavras com mais sentido, enjeitadas pelas bocas e cabeças de muitos.

Esgotou o tema tempo, estafou-o, falou dele até à exaustão que a chuva e o vento lho permitiam. Deu-lhe uma boa parte da manhã, nos encontros repetidos e rotineiros de todas as manhãs. Trocou as nuvens carregadas pelo desejo do sol ausente, e regressou à neblina do vazio de palavras sem sentido.

Faz pela vida, continuou pensando. Constrói uma vidinha de pequenos nadas, enquanto esperas pelos grandes, desconhecidos, e aprende a falar do tempo, dos gatos, da vizinha da frente ou do lado ou de cima. Sobe e desce no elevador as vezes que forem precisas para ganhar coragem, ou ritmo, ou tema para estas coisas nenhumas que enchem o dia-a-dia. Aprende o interesse dos outros, para que se interessem por ti: um pequeno nada no meio de tanta coisa nenhuma, grande, imensa, sufocante, que tanto os atrai.

Inscreve-te. Faz parte. Corre, corre…

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Palavras sem sentido

Automat (1927), de Edward Hopper

Tinha umas palavras alinhavadas agarradas ao fundo de um outro texto num qualquer documento gravado, mas não as encontrava. Abri e fechei todas as pastas possíveis e nada. Sabia que era uma história de uma mulher que aguardava ser chamada para uma consulta mas a chamada tardava. Assim como já tardava o reencontro com essa pequena história, algures guardada numa qualquer pasta que teimava em não aparecer.

Seriam palavras sem sentido mas ainda assim tinha-lhes afeição, vá lá saber-se porquê!, e isto de deixar palavras soltas por aí era coisa que não me agradava… Até porque a sorte dessa mulher que esperava ouvir o seu nome ditado pelo altifalante do consultório médico começava a angustiar-me; essa espera prolongada não me estava nos hábitos e deixar alguém assim entregue à sua sorte afligia-me.

Saltitava entre ideias, enredada em começos de outras histórias, todas elas embrulhadas em inícios estranhos e com fins duvidosos, ao mesmo tempo que uma mulher sentada numa sala de espera de um qualquer consultório permanecia no meu espírito. Preocupava-me. Já a conhecia há algum tempo e pressentia-a ansiosa, de vinco na testa, consultando o relógio a cada trinta segundos e apurando o ouvido na esperança do nome anunciado. Mas nada.

Pensei chamar alguém que viesse em meu auxílio: não um médico ou enfermeiro, que para isso lá continuaria a mulher sentada na sala de espera do consultório, que era para esse fim que tinha encaminhado os passos, mas de outro tipo de auxílio, talvez mais técnico, talvez informático, que uma mulher sozinha, perdida entre bits e bites, angustiava-me.

Experimentei a velha técnica de desligar e voltar a ligar, que isto nunca se sabe… Aguardei uns minutos, que a máquina já não era nova e cansava-se nestas andanças de cá para lá. Ao virar de uma esquina tecnológica lá apareceu a pobre, cansada, esgotada de tanto esperar um final para a sua história sem sentido nenhum. Alegrou-se-lhe o rosto, o dela e o meu, e tomei-a pela mão. A sua espera segue dentro de momentos, exactamente no ponto onde a tinha abandonado…

Cá está ela, sentada. É alta e magra, e leva a mão ao cabelo num tique repetido amiúde, compondo uma madeixa teimosa que lhe descai sobre a testa. Os olhos vagueiam por uma revista fora de prazo que segura sem convicção, voltando as páginas para a frente e para trás.

Um nome surgiu no altifalante. Era agora. Levantou-se, pegou na mala atafulhada de inutilidades diárias, na gabardine e seguiu. Seguiu em frente até virar no corredor à esquerda e desaparecer numa porta estreita com uma maçaneta quebrada.

Voltou passados vinte minutos. Da conversa dentro de portas não adivinhava o rasto, somente o seu ar preocupado deixava antever um resultado menos feliz, ou mais apreensivo. Dirigiu-se ao balcão e recebeu um carimbo num papel, outro noutro e saiu, passando a curta distância de mim que a observava. Olhava-a... Para onde iria ela, que caminho seguiria? Não sabia, mas as ideias surgiam-me calmas, primeiro cinzentas, esfumadas, depois carregando um pouco mais nos tons, ganhando forma. Certamente iria para casa, colher o aconchego de um calor familiar que lhe lamberia as feridas da alma provocadas por uma notícia mais preocupante. Ou certamente, ainda, iria trabalhar, calando a mesma notícia preocupante que procuraria disfarçar num rosto sem expressão, para deixar à porta do gabinete o que lhe martelava o cérebro e lhe dificultaria a concentração. Ou, certamente também, nem uma coisa nem outra, antes encaminharia os passos para uma qualquer rua apinhada de gente, onde se esconderia na multidão e não teria de se preocupar em escolher um rosto diferente para mascarar a preocupante notícia que acabara de ouvir. Ou, com toda a certeza ainda, apressaria o passo em direcção ao laboratório recomendado e anularia as dúvidas numa outra certeza mais desejada.

O altifalante na sala de espera continuava a debitar nomes que ganhavam corpo e se levantavam, em direcção ao corredor com portas estreitas. Já só tinha uma pessoa à minha frente para ser atendida. Deitei uma olhadela à mala, à gabardine bege que tinha pousado na cadeira a meu lado e fiz recolher esta mulher de rosto preocupado para dentro da pasta de documentos, não sem antes ter escrito um ponto final. Desliguei o computador e fechei a tampa. O altifalante debitou então um nome que identifiquei como meu.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Convívios a sépia...


Olhou distraidamente em direcção à moldura grande que se encostava preguiçosamente contra a parede e voltou a olhar, agora com outros olhos, um pouco mais focados na imagem da mulher jovem que habitava a moldura. Habitava-a num ambiente em tons sépia, segurava um Chanel Nº 5 e, numa atitude coquete, sugeria uma sensualidade, ajudada por mil e um pormenores liderados por uma alça descaída. O glamour e a sensualidade andavam de mãos dadas nesta imagem; nesta imagem e em todas as outras, por demais conhecidas e que desde sempre passaram sob os olhos de todos, anunciadas com um rótulo, sempre o mesmo, o do desejo e o da crítica.

Nunca teve nenhuma predilecção por esta jovem mulher, reconhece. Possivelmente porque ela lhe chegou já datada, fora da sua época… E possivelmente também porque o rótulo que lhe colaram não coubesse na galeria daquilo que tinha por certo admirar. Por isso, a estranheza desta presença agora, tão próxima, partilhando um espaço destinado ao sono e ao sonho. Talvez porque os tons sépia do ambiente em que a jovem mulher retratada, aprisionada nesta moldura, vivia, rimassem com os tons do cortinado que quase lhe sussurrava confidências, de tão próximo que estava. Sim, só pode, confirmou para si própria sem se envergonhar.

Voltou a olhar na direcção da mesma e fixou-se nos caracóis dourados, transformados num indefinido branco luminoso por conta dos tons sépia dominantes no tal ambiente em que vivia a mulher jovem. Eram de algodão, pensou, e quase se sente a macieza do toque. Voltou-se para o outro lado, entreteve-se com outros pormenores que nada tinham a ver com esta história, mas o seu olhar voltou a pousar sobre esta superfície em tons sépia e no jogo de sombras que envolviam esta mulher jovem. Agora era a voz que, por certo, lhe sairia pequena, num sopro. Voltava a olhar em direcção a tudo o que se estava a passar dentro daquela moldura e sentia como se estivesse numa sala de espectáculo, momentos antes do início de um concerto, em que todos os instrumentos falam por si, num diálogo de costas voltadas, numa afinação com um objectivo comum. Também aqui se adivinhava um objectivo comum, um som comum, apesar da algazarra de vozes que, surdas, se escutavam através de um olhar em direcção à moldura grande em tons sépia.

Decidiu que era tarde e apagou a luz. Tentou pôr um ponto final ao cobrir de negro os tons sépia onde vivia aquela personagem que sempre lhe fora tão estranha. Apesar do negro, continuou a ouvir as vozes que saíam desta moldura e que contavam histórias. Vozes de um passado, todas em tons sépia...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A ver navios...



No terraço, num tempo dividido entre o café e o cigarro, partilhavam-se saídas. Saídas longas, traduzidas em viagens de Verão, com muito sol, daquelas alimentadas o ano inteiro para se esgotarem numa semana ou duas de glória.


Estás a ver aquele paquete? Já viajei num deles. Fantástico, adorei!, gabava-se justamente um, invocando as suas memórias de dias felizes, a bordo e na companhia dos seus. Aquilo é que é vida!, continuava. Ora, nada melhor do que partir com uma mochila às costas, dizia outra. Virei-me e, involuntariamente, franzi o sobrolho, desacreditado: justamente aquela que nada nem ninguém previa que tivesse esse tipo de memórias, de experiências. A resmungona crónica, sempre sombria, sempre a protestar por tudo e por coisa nenhuma. Quem diria!, pensei. Não era fácil imaginá-la assim, gaiata e ligeira, a carregar uma mochila às costas por um qualquer monte europeu, gozando dos prazeres da descoberta. Sendo feliz, em suma.


E a conversa continuava, livre e leve. E mais isto e mais aquilo e mais outra experiência. Conheces…? Ah sim, já lá estive… E foste…? Por acaso aí não cheguei, mas vi o…e a…


Passados poucos dias outro paquete desfilava no rio e outra conversa surgia, a propósito. As memórias de viagens abrem-nos sempre o sorriso e desenham no nosso espírito pensamentos coloridos, dos tais que pintam os dias de Inverno. Que nós por cá não nos podemos queixar muito, que nesta cidade, cheia da claridade reflectida neste rio lindo, os dias cor de cinza quase se contam pelos dedos. E quando chegam enchem-nos de birra, ficamos sem disposição para nada a não ser suspirar pelo sol e pedir contas a S. Pedro por tamanho castigo. E aí, voltamo-nos para o rio a olhar os navios ou abrimos a agenda grande para percorrer o mapa, que o “vá pelos seus dedos” é a opção mais à mão…

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dos sonhos aos Reis…



Tinha a mesa posta desde a Consoada. A mesa onde raramente comia, reservada para as visitas, raras, mas por quem sempre se ficava à espera que aparecessem, Quem sabe não aparece por aí alguém hoje…, pensava e dizia, de si para si.

É tempo de Festas, das tais que nos trazem bolos e tradições e memórias. Tempo de arroz doce e filhoses, bolo-rei e sonhos. Vários. Sempre gordos e com muito açúcar e canela, daqueles que nos dá prazer lambuzarmo-nos e carregarmos depois o sentimento de culpa da certeza de mais uns quilos no corpo.

Tinha a mesa posta desde o 24, desde a Noite, a tal, e assim permanecia até ao Dia de Reis. Quem sabe não aparece por aí alguém hoje…, voltava a pensar. E escutava o tiquetaque do relógio de parede, cadenciado nas horas, as completas e as meias, e depenicava uma noz, de quando em vez.

Ela, a outra, cresceu a ouvir o tiquetaque do relógio de parede, que fazia companhia à mesa posta com os sonhos e as filhoses e o arroz doce. Acompanhou, sem grande partilha, uma espera de bocas alegres que tudo comeriam, com gula e satisfação, por entre beijocas repenicadas e o barulho do desembrulhar dos presentes. E os laços no chão. E as fitas.

Por entre os dias, um ou outro alguém ia aparecendo para saborear o doce da época e se regalar com a iguaria servida. Entrava e saía, distribuía sorrisos e prendas, largava uma beijoca e um Até breve! recebido com carinho mas na certeza de um retorno mais largo.

No Dia de Reis é tempo de levantar a mesa e de guardar os sonhos que sobraram; os bons, que os outros já não prestam. Dobrar a toalha e sacudir o açúcar derramado. E não esquecer de acertar o relógio de parede, para que o tempo chegue a horas certas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Paninhos quentes de paixão...

(foto tirada numa montra de Braga - Paula Crespo)


Passou a agulha pelo pano fazendo correr a linha vermelha, rematou e cortou. Pronto, mais um, pensou. Alisou o pequeno pano transformado em lenço, dobrou-o, voltou a dobrar. Pousou-o no cesto de verga que permanecia a seus pés, junto dos outros cinco que já tinha bordado e dobrado e guardou no cesto. Meia-dúzia certinha, como a Maria Júlia me pediu, contou ela para si.

Recostou as costas cansadas e curvas contra a parede fria de pedra e o seu olhar atravessou a vidraça. Lá fora, começava a chover uma água miudinha e mole, adivinhando uma noite ainda mais fria que a anterior. Voltou a olhar para o cesto, pegou e desdobrou o último paninho bordado transformado em lenço e sorriu mansinho. Já lá iam muitos anos desde o primeiro, bordado entre palpitações e rubores pelo seu António, que lho ofereceria na Páscoa. O mesmo António que lhe rondava a janela pela manhã e lhe atirava frases bonitas lá mais pela tardinha, quando voltava do campo, à socapa da Ti Bárbara que se o apanhasse a jeito lhe diria das boas…

Aconchegou o xaile sobre os ombros e vagueou na memória dos dias passados. Dos anos passados e distantes em que, rapariga nova, se juntava às tardes no grupo das casadoiras para bordarem enxovais e tagarelarem sonhos difusos, mal desenhados ainda mas que prometiam dias de sol e fartura numa terra de miséria e cinto apertado. Que a fome nunca lhes bateu à porta, é certo, mas as larguezas na mesa não se faziam notadas. Tempos idos, de privação, a que se lhes seguiram outros tempos de adeus e de promessas de regresso dos homens da terra que partiam para um amanhã melhor. Melhor…

A Maria Júlia não tardaria a chegar. Tinha prometido vir lá pelas sete para apanhar a encomenda e a tempo ainda de preparar o jantar dos netos, que pousaram lá em casa durante uns dias. Amanhã é dia de feira e a cliente queria ver os lencinhos, a ver se gostava… Queria ver os lencinhos típicos da região, disse ela, daqueles com versos, às cores. Daqueles que falam de quem suspira e de corações que morrem de amor. E o teu, por quem morrerá?, pensou. Por ninguém, suspira ela, que alguém se antecipou e morreu primeiro sem se despedir, deixando-a com os lenços para enxugar os olhos tristes. E viver mete muita água, a começar pela do choro, que vem do nascer e nos acompanha, em visitas mais frequentes nuns que noutros.

Ouviu o seu nome chamado da porta. Levantou-se, arrastando-se devagar e foi atender a Maria Júlia.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A espera...

(Imagem da Internet)

Sabia-a nervosa, miudinha nos pequenos gestos que desenhava em torno de si mesma. Adivinhava-a roendo a unha do polegar direito, compondo a saia, balançando o pé. Sentia-a cada vez mais apressada, num compasso curto e pequenino, num tique-taque de relógio Swatch com o barulhinho irritante do tempo sempre igual.

Não a podia ver mas sabia que lá estava. Sabia também que, passada uma hora, por aí, se cansaria de esperar e sairia irritada pelo tempo gasto em vão. Pressentia que fosse recuperar esse tempo no centro comercial que ficava a 3 km apenas, que começaria pelo café engolido em seco e que afundaria as mágoas na montra daquela loja pequenina entalada entre a florista e a outra dos brinquedos.

Tinha a certeza que voltaria mais tarde, à noite, reatando a espera, encolhendo-se no sofá com o portátil nos joelhos. Conversas interrompidas, meias-palavras, pausas forçadas. De tudo um pouco era composto o seu tempo, esquecido de viver para se alongar neste ritmo morno, de cores pálidas.

Sabia-o ela também, mas teimava em esquecer. Porque esquecer era teimar em viver, esse tempo virtual e de espera mas que lhe alimentava a ilusão.

Observava-a um, por fora; sentia-se ela, por dentro. Um só tempo, duas visões. O mesmo final.
Num momento que não foi o mesmo, desligaram o botão e foram dormir.

sábado, 29 de novembro de 2008

Silêncios...

Como diria ela, “não é mandatório”. Pois não. Nem obrigatório, sequer, que isto na língua materna soa mais reduzido, menos rigoroso, com menos… afinco?!, indagaria ele, se coragem tivesse, com um sorriso irónico a bailar-lhe nos olhos. Um sorriso daqueles que traem qualquer tentativa desajeitada de parecer interessado nas suas palavras, de aderir às ideias que lhe saltam da boca num stress de hora de ponta.

Ajeita o cabelo, cruza e descruza as pernas que terminam num modelo fashion e não pára. Não pára de verbalizar opiniões sobre tudo e coisa alguma, com a segurança de quem acabou de travar conhecimento com algumas delas e a quem já trata por “tu”, numa descontracção de velhas amigas. Ele sorri para dentro e continua a ouvi-la, escutando-a intermitentemente, vagueando de mansinho por outros destinos que a memória lhe vai servindo em pequenas doses.

“Não achas?”, ouviu-a. Ao longe, num eco, com arestas nas palavras. “Hum? Sim… acho…”. Não achava. Estava demasiado morno para achar o que quer que fosse, num torpor distante do qual não lhe apetecia sair tão depressa e enfrentar o que ela achava. Voltou-se, serviu-se num copo alto e perdeu o olhar no rio que o chamava ao longe, com aquela luz de fim de tarde por quem se apaixonara.

“Qualquer dia vou navegar e entro nela”, pensou. Nessa luz com nome que guarda só para si, por não interessar a quem acha muitas coisas que lhe são distantes. Qualquer dia…