quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência…
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Memórias de infância
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Inquérito
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Doces da época e outros amargos de boca

O Natal não é uma data, é um estado de espírito. Leu. Dobrou o jornal em dois e ocorreu-lhe que gostaria de lhe dar mais corpo, a esse Natal que, pelos vistos, vive mais em espírito. Materializá-lo. Poder tocar-lhe, desvendar-lhe as formas, agarrá-lo e chamá-lo a si. Há já tantos anos que apenas o sonhava, que dele tinha saudades. Saudades de uma casa cheia, cheia de gente e de vozes, de risos e algum calor. Semicerrou os olhos para logo de seguida os abrir e fixar o tipo careca que aparentava apenas uns trinta de idade e mexia nervosamente o café. Um tipo muito vulgar, pensou, e talvez por isso desviou o olhar que percorreu um círculo em direcção ao jornal, dobrado ao meio, que repousava na mesa ao lado do prato com os restos do folhado. Seco, por sinal. Ainda com o Natal na cabeça, lembrou-se que gostava muito de azevias, principalmente das de grão, e que só costumava comer duas ou três em cada Dezembro. Apesar de gostar, o certo é que as enjoava facilmente e perdia a vontade até ao ano seguinte. Luísa tinha mão, fazia-as bem, mas desde que saiu comprava-as na pastelaria e não era a mesma coisa.
Saiu, com o jornal que continuava convenientemente dobrado debaixo do braço. Caminhou ao longo da rua, dobrou a esquina, atravessou outra rua e mais outra. Parou no semáforo para atravessar uma terceira e observou um casal com dois miúdos, um ainda criança, outro nem tanto, já adolescente, espigadote. Sorriu para dentro um sorriso pálido e novamente a ideia do Natal e do seu corpo entrou no seu pensamento, ou diria antes, no seu espírito. Não teve filhos e esse desejo esteve ausente durante muito tempo. Só chegou agora, sob a forma de vazio, um vazio acentuado a cada Dezembro, um maldito mês que no seu final se despedia sempre em tons carregados. Luísa, essa sim, sentira essa falta e talvez por isso as coisas azedaram entre eles, devagarinho, e mais tarde resolveu arejar e procurar preencher vazios, vários, noutros registos de vida.
O bolso do casaco vibrou com o toque do telefone. Atendeu. Falou uma conversa curta com o irmão. Desligou. Mais um problema resolvido - comeria as azevias em casa dele, com a cunhada e os miúdos, os sogros do irmão e uns primos do Algarve, que rondavam a mesa e o espaço em cada Dezembro e compunham a cena e aqueciam as conversas. Não seria o cenário idealizado, mas era o possível e, pensando bem, era de dar graças por ainda existir esta possibilidade, este aconchego. Agora devia ocupar-se com outros afazeres, como o que dar aos dois sobrinhos, cheios de tudo e falhos de coisa nenhuma, que agora os miúdos já nem espaço têm para desejar, de tão atafulhados que ficam nestas ocasiões. E noutras, também. Lembra-se que em criança desejou muito uma mota que demorou alguns anos a conquistar, mas hoje já não é assim. Resta saber como será amanhã, mais tarde, se já for difícil encher embrulhos bonitos, o que será das crianças, já grandes por fora, mas teimosamente pequenas por dentro… Enfim, pelo menos ele não sentiria na pele esse problema, uma vez que não tinha filhos.
Olhou para o relógio e sobressaltou-se com as horas, que o fizeram despertar para o presente. Continuou a andar pela avenida até que se deteve numa montra e o presente recuou, muitos anos. Sorriu um sorriso cúmplice, e resolveu-se a comprar uma mota que animava aquela pequena montra. Pronto, pensou, já tenho mais um problema resolvido.
domingo, 7 de novembro de 2010
O senhor João
Afastou com a ponta dos dedos a cortina branca da janela e espreitou pela vidraça. Ao fim da tarde, já pouca luz restava, já a sombra vinha comendo aquela rua estreita, o passeio, o prédio da dona Deolinda que morara mesmo em frente, no primeiro andar, mas João nem notava, de tal forma conhecia de olhos fechados a sua rua. Passava pouca gente àquela hora, quem regressava do emprego já tinha chegado e o frio não chamava para fora de casa, pelo contrário, percebia-se a luz das televisões por algumas das janelas que ainda permaneciam acordadas, antes do correr dos estores que anunciavam o sono dos seus donos.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Validação

Estava mesmo em cima da hora. Estacionou o carro na praceta, debaixo de uma chuva miudinha, abriu com dificuldade o guarda-chuva que já contava com duas varetas desamparadas, segurou como pôde a mala sempre aberta e saiu. Ultrapassou a esquina e entrou por aquela porta de alumínio, baixa, subindo as escadas e sentou-se à espera. Poucos minutos depois, ele abriu a porta, sorriu-lhe o sorriso habitual e, amavelmente, convidou-a a sentar-se. Então, como se sente?
Sentou-se.
Tentou passar rapidamente em revista a sua semana, na esperança de eleger acontecimentos dignos de registo. Na verdade, não lhe ocorria nada a que pudesse reconhecer relevância; a não ser que se sobressaltava ao mais leve movimento inesperado ou ao ouvir um som brusco; que se sobressaltava no desconforto dos seus dias, no desconforto de se saber a falar para o vazio e sem eco. Bom, mas isso não significava que alguma coisa tivesse acontecido, antes pelo contrário, já que não registava nenhum acontecimento digno de nota. A não ser que reflectisse sobre o facto de ao fim de todos estes anos continuar a falar para o vazio. Talvez isso fosse um problema geracional, era-o com toda a certeza, concluiu facilmente, já dentro da conversa com ele. Ele olhava-a e aguardava pacientemente que mais ideias surgissem e, quando surgiam, perguntava com uma certa cadência Quer ajudar-me a entender isso? Queria, seguramente. E avançava confiante pela teoria do conflito de gerações, discorrendo sobre o diferente valor dado às coisas e de como os conceitos abstractos tinham um entendimento diferente do dos conceitos mais materiais. De como, na outra geração, o respeito pelo outro ou a liberdade individual perdiam terreno para as questões mais concretas, como o custo das coisas e a segurança material, por exemplo.
Deixou sair um breve olhar pela janela, de soslaio, e voltou a vasculhar na memória recente a ver se descobria dias relevantes. Novamente de soslaio, o olhar virou-se para ele, que aguardava, pacientemente. Não sei que mais lhe possa contar, confessou timidamente. Ele sorriu, também um sorriso contido, e largou, a título de achega, Costuma dizer-se que quem está mal, muda-se...
Desceu as escadas, fez o caminho de volta e deixou-se envolver pela chuva miudinha que ainda marcava o final do dia. Saiu, com a sensação de ter levado um carimbo de validação em todas as reflexões que, habitualmente, nem achava que fossem suas mas apenas do senso comum. Ligou o rádio do carro e ouviu-o cantar a velha metáfora: Estava eu quase morto no deserto, e o Porto aqui tão perto!...
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Legenda de um olhar...
Cada ruga, cada traço, carregava anos de dias pesados, duros de trabalho.
Levantou-se cedo desde o berço, um caixotinho de tábuas perto da braseira. Cresceu e viveu acartando lenha, tratando da criação. Criou outra também, um rancho de seis filhos, quase todos ausentes agora, tirando a Laurinda que tinha ficado por perto e que agora ganhava a vida atrás do balcão, desfiando tecido a metro para uma freguesia pouco exigente e ainda menos compradora. Para além disso cuidava dela. Todos os dias lhe levava o almoço, lhe fazia a cama, lhe arrumava a casa, que Bárbara já não se endireitava como antes.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Baços brilhos...
(imagem tirada da net)"Vamos dançar?", pergunta. Ele. Baixo e atarracado, como que carregando sempre um peso sobre a sua cabeça. Vestido de preto, com ar um tudo nada fora de época, há muito que se tinha habituado a ver os outros de costas, rumando em direcção contrária à sua, desprezando-o e ignorando a sua presença. Ou, noutros dias e noutras horas, chamando-o para tarefas que não eram as suas, confundindo-o com outros parceiros, subalternizando-o.
Ela, sempre muito atarefada, sendo constantemente chamada a figurar em qualquer cenário, sempre presente. Ela, olhando-o de baixo para cima – não muito, dada a pouca estatura dele, coitado! – abriu um sorriso estreito e descorado, para deixar através dele escorregar um desinteressante “Não, obrigada…”
“É o costume”, pensou ele. Arrastou-se até ao balcão, pediu um gin e ficou a observar quem entrava. Viu aproximar-se aquele desmiolado do ponto de exclamação. Alto e magro, elegante até, não passava despercebido naquele círculo de acentos e letras desencontradas. Em tempos constou que tinha tido uma infância atribulada, e uma vida com questões mal resolvidas. Mantém sempre aquele ar admirado, espantado mesmo. “Bahh, mais parece um miúdo hiperactivo…”, concluiu o ponto e vírgula, “nunca entendi porque lhe dão tanta importância…”
Olhou na direcção do sofá onde ela permanecia recostada, agora acompanhada por dois pontos. “Sempre iguais, estes dois”, pensou, abanando levemente a cabeça. “Desde que os conheço que andam sempre juntos, inseparáveis, um verdadeiro Dupond e Dupont…"
Viu-a levantar-se e sorrir. Os dois pontos permaneciam no sofá, agora um pouco abandonados à sua sorte. Ela, a vírgula, altaneira, deslizava no seu vestido coleante e cumprimentava, dengosa, o travessão e os parênteses. Desdobravam-se em elogios e sorrisos, trocavam olhares cúmplices e gulosos e ela, olhando ora para um, ora para outro, começava a sentir uma leve tontura na sua cabeleira farta e loura, sem se decidir a qual prestar maior atenção. “São tão parecidos”, coube-lhe agora pensar, “quase se confundem…”
Ao fim de meia-hora de trivialidades, a vírgula voltou para o seu sofá, abriu a bolsinha da maquilhagem e retocou o rosto, onde leves traços se vincavam já. “Há que manter o brilho”, gracejou para si própria.
Ergueu a cabeça e os seus olhos procuraram os outros acentos. Naquela confusão de letras soltas lá os vislumbrou, ao fundo da sala, por entre uma atmosfera já pesada de fumo, aos seus admiradores, que se derretiam agora perante a nova frase da moda, que acabara de entrar. "Novos brilhos", pensou ela…
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Ouçam como eu respiro...
Nem sempre tinha essa sorte. Por vezes, sustinha a respiração, e exibia o sorriso número zero, o tal que tinha o condão de passar despercebido, antes que…
Naquele dia, teve a sorte de trocar umas garfadas por entre uma conversa animada que lhe encheu os pulmões. Respirava.
Esperava respirar mais vezes e descobriu que adorava charadas! Para bom entendedor… ;)
domingo, 3 de maio de 2009
A morte de Corín Tellado… ou o meu mundo não é deste reino
(imagem da net)Na sua frente uma mancha de pequenas teclas pretas, que podiam dizer muito ou mesmo tudo do que se passava neste momento no seu mundo. O tal que vivia obstinadamente do lado de fora do reino, talvez porque a portagem fosse demasiado cara ou talvez porque o caminho para entrar no reino não se lhe apresentasse como o mais interessante. Demasiado poeirento, pensava.
Mas voltando ao cor-de-rosa. Lembrou de alguém que há pouco, muito pouco, lhe tinha dito que a Corín Tellado já tinha morrido. Ah… sim?!... Pois… respondeu ao trocadilho com um meio sorriso em tons cinza. Que a Corín Tellado nunca tinha existido realmente a não ser na utopia do sonho e do querer. Esse querer que tantas vezes nos afasta dos tons terra e teima em dizer que o cor-de-rosa ainda está na moda…
Concentrou-se na mancha de teclas negras que se comprimiam rapidamente sob os seus dedos, à velocidade em que o seu mundo ia descolorando, e vagueava perdido entre os tons terra e o cor-de-rosa, cada vez mais descorado…
Continuou percorrendo as teclas até que o relógio a trouxe de volta à realidade. Desligou tudo, levantou-se e preparou-se para abandonar o seu mundo a outros cuidados, talvez aos deste reino... Bocejou, programou o despertador que também não pertencia ao seu mundo mas a este reino e decidiu-se, sorrindo com o fim da metáfora: vou ter de mudar de tinteiro.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
O infinito pode esperar?
(imagem retirada da net)Veio-lhe à memória uma fidelidade em forma de soneto, com sotaque adocicado, como doce era também a sua letra:
De tudo ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento.
E esta fidelidade continuava o seu canto até que concluía:
E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama / Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.
Fez marcha a ré nos pensamentos, já que o sono assobiava ao longe de costas voltadas. Infinito não terá sido, pensou, e o olhar quase se embaciava, recordando-se de outra vida vivida. Mas também houve sol nessa outra vida.
As memórias começavam agora a aproximar-se do tempo recente; parecia que vinham a todo o vapor e serviam-lhe de bandeja outras lembranças. O futuro não acaba amanhã, sorriu-lhe esta. Desfilavam como fantasmas elegantes nesta noite sem sono. O tal que teimava em assobiar para o alto, qual miúdo travesso: se ao menos ele fizesse o que lhe competia, pensava, já não tinha que me ocupar com estes pensamentos circulares, abrigos destes fantasmas elegantes…
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Entrevista

Ao abrir a porta percebeu imediatamente que era. Na sua frente, uma mulher com cara simpática, afável, cabelo curto e lenço ao pescoço, preso com um alfinete em forma de flor. Formas quase redondas, a tender para o cheio, ar lavado e engomado. Sorriso franco.
Há oito anos que vinha do Leste. Ia e vinha, entre as saudades da terra e dos filhos e a necessidade de trabalho. Caminhava para cá, deixando no pensamento um rasto de saudade e preocupação, presos numa cidade distante de um país gelado, à direita no mapa.
Enrolava as palavras lusas e fazia um esforço por dar forma às ideias e ao que precisava de dizer. Do sorriso aberto espreitava um dente de ouro, fora de moda no lado de cá da Europa, mas que talvez falasse sobre um modo de vida de alguma forma parado no tempo. Ou pelo menos, no nosso tempo…
Limpava, engomava, e lá ia e vinha, num circuito sempre igual, ritmado e seguro, que inspirava confiança. Ia e vinha até um dia, em que anunciou a ida para tratar da mãe, doente e gasta, que esperava em silêncio do lado de lá, à direita no mapa.
Prometeu deixar outra em seu lugar – possivelmente parecida, vinda do mesmo sítio e viajante no mesmo percurso e com o mesmo destino.
Desligou o telefone com outro suspiro. Seria desta?...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Small talk para dias cinzentos...
Tenho que aprender a falar, pensou. Aprender a gastar palavras pequenas, juntá-las em comboios formando frases conhecidas, daquelas que toda a gente reconhece facilmente e sem esforço, daquelas que não obrigam os outros a pensar muito, ou sequer a pensar um pouco, e para as quais toda a gente conhece antecipadamente as respostas. Confortáveis frases, sobre banalidades, queixumes recorrentes e inconsequentes, dos tais que existem apenas para preencher o vazio da falta de palavras com mais sentido, enjeitadas pelas bocas e cabeças de muitos.
Esgotou o tema tempo, estafou-o, falou dele até à exaustão que a chuva e o vento lho permitiam. Deu-lhe uma boa parte da manhã, nos encontros repetidos e rotineiros de todas as manhãs. Trocou as nuvens carregadas pelo desejo do sol ausente, e regressou à neblina do vazio de palavras sem sentido.
Faz pela vida, continuou pensando. Constrói uma vidinha de pequenos nadas, enquanto esperas pelos grandes, desconhecidos, e aprende a falar do tempo, dos gatos, da vizinha da frente ou do lado ou de cima. Sobe e desce no elevador as vezes que forem precisas para ganhar coragem, ou ritmo, ou tema para estas coisas nenhumas que enchem o dia-a-dia. Aprende o interesse dos outros, para que se interessem por ti: um pequeno nada no meio de tanta coisa nenhuma, grande, imensa, sufocante, que tanto os atrai.
Inscreve-te. Faz parte. Corre, corre…
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Palavras sem sentido
Seriam palavras sem sentido mas ainda assim tinha-lhes afeição, vá lá saber-se porquê!, e isto de deixar palavras soltas por aí era coisa que não me agradava… Até porque a sorte dessa mulher que esperava ouvir o seu nome ditado pelo altifalante do consultório médico começava a angustiar-me; essa espera prolongada não me estava nos hábitos e deixar alguém assim entregue à sua sorte afligia-me.
Saltitava entre ideias, enredada em começos de outras histórias, todas elas embrulhadas em inícios estranhos e com fins duvidosos, ao mesmo tempo que uma mulher sentada numa sala de espera de um qualquer consultório permanecia no meu espírito. Preocupava-me. Já a conhecia há algum tempo e pressentia-a ansiosa, de vinco na testa, consultando o relógio a cada trinta segundos e apurando o ouvido na esperança do nome anunciado. Mas nada.
Pensei chamar alguém que viesse em meu auxílio: não um médico ou enfermeiro, que para isso lá continuaria a mulher sentada na sala de espera do consultório, que era para esse fim que tinha encaminhado os passos, mas de outro tipo de auxílio, talvez mais técnico, talvez informático, que uma mulher sozinha, perdida entre bits e bites, angustiava-me.
Cá está ela, sentada. É alta e magra, e leva a mão ao cabelo num tique repetido amiúde, compondo uma madeixa teimosa que lhe descai sobre a testa. Os olhos vagueiam por uma revista fora de prazo que segura sem convicção, voltando as páginas para a frente e para trás.
Um nome surgiu no altifalante. Era agora. Levantou-se, pegou na mala atafulhada de inutilidades diárias, na gabardine e seguiu. Seguiu em frente até virar no corredor à esquerda e desaparecer numa porta estreita com uma maçaneta quebrada.
Voltou passados vinte minutos. Da conversa dentro de portas não adivinhava o rasto, somente o seu ar preocupado deixava antever um resultado menos feliz, ou mais apreensivo. Dirigiu-se ao balcão e recebeu um carimbo num papel, outro noutro e saiu, passando a curta distância de mim que a observava. Olhava-a... Para onde iria ela, que caminho seguiria? Não sabia, mas as ideias surgiam-me calmas, primeiro cinzentas, esfumadas, depois carregando um pouco mais nos tons, ganhando forma. Certamente iria para casa, colher o aconchego de um calor familiar que lhe lamberia as feridas da alma provocadas por uma notícia mais preocupante. Ou certamente, ainda, iria trabalhar, calando a mesma notícia preocupante que procuraria disfarçar num rosto sem expressão, para deixar à porta do gabinete o que lhe martelava o cérebro e lhe dificultaria a concentração. Ou, certamente também, nem uma coisa nem outra, antes encaminharia os passos para uma qualquer rua apinhada de gente, onde se esconderia na multidão e não teria de se preocupar em escolher um rosto diferente para mascarar a preocupante notícia que acabara de ouvir. Ou, com toda a certeza ainda, apressaria o passo em direcção ao laboratório recomendado e anularia as dúvidas numa outra certeza mais desejada.
O altifalante na sala de espera continuava a debitar nomes que ganhavam corpo e se levantavam, em direcção ao corredor com portas estreitas. Já só tinha uma pessoa à minha frente para ser atendida. Deitei uma olhadela à mala, à gabardine bege que tinha pousado na cadeira a meu lado e fiz recolher esta mulher de rosto preocupado para dentro da pasta de documentos, não sem antes ter escrito um ponto final. Desliguei o computador e fechei a tampa. O altifalante debitou então um nome que identifiquei como meu.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Convívios a sépia...

Nunca teve nenhuma predilecção por esta jovem mulher, reconhece. Possivelmente porque ela lhe chegou já datada, fora da sua época… E possivelmente também porque o rótulo que lhe colaram não coubesse na galeria daquilo que tinha por certo admirar. Por isso, a estranheza desta presença agora, tão próxima, partilhando um espaço destinado ao sono e ao sonho. Talvez porque os tons sépia do ambiente em que a jovem mulher retratada, aprisionada nesta moldura, vivia, rimassem com os tons do cortinado que quase lhe sussurrava confidências, de tão próximo que estava. Sim, só pode, confirmou para si própria sem se envergonhar.
Voltou a olhar na direcção da mesma e fixou-se nos caracóis dourados, transformados num indefinido branco luminoso por conta dos tons sépia dominantes no tal ambiente em que vivia a mulher jovem. Eram de algodão, pensou, e quase se sente a macieza do toque. Voltou-se para o outro lado, entreteve-se com outros pormenores que nada tinham a ver com esta história, mas o seu olhar voltou a pousar sobre esta superfície em tons sépia e no jogo de sombras que envolviam esta mulher jovem. Agora era a voz que, por certo, lhe sairia pequena, num sopro. Voltava a olhar em direcção a tudo o que se estava a passar dentro daquela moldura e sentia como se estivesse numa sala de espectáculo, momentos antes do início de um concerto, em que todos os instrumentos falam por si, num diálogo de costas voltadas, numa afinação com um objectivo comum. Também aqui se adivinhava um objectivo comum, um som comum, apesar da algazarra de vozes que, surdas, se escutavam através de um olhar em direcção à moldura grande em tons sépia.
Decidiu que era tarde e apagou a luz. Tentou pôr um ponto final ao cobrir de negro os tons sépia onde vivia aquela personagem que sempre lhe fora tão estranha. Apesar do negro, continuou a ouvir as vozes que saíam desta moldura e que contavam histórias. Vozes de um passado, todas em tons sépia...
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A ver navios...

Estás a ver aquele paquete? Já viajei num deles. Fantástico, adorei!, gabava-se justamente um, invocando as suas memórias de dias felizes, a bordo e na companhia dos seus. Aquilo é que é vida!, continuava. Ora, nada melhor do que partir com uma mochila às costas, dizia outra. Virei-me e, involuntariamente, franzi o sobrolho, desacreditado: justamente aquela que nada nem ninguém previa que tivesse esse tipo de memórias, de experiências. A resmungona crónica, sempre sombria, sempre a protestar por tudo e por coisa nenhuma. Quem diria!, pensei. Não era fácil imaginá-la assim, gaiata e ligeira, a carregar uma mochila às costas por um qualquer monte europeu, gozando dos prazeres da descoberta. Sendo feliz, em suma.
E a conversa continuava, livre e leve. E mais isto e mais aquilo e mais outra experiência. Conheces…? Ah sim, já lá estive… E foste…? Por acaso aí não cheguei, mas vi o…e a…
Passados poucos dias outro paquete desfilava no rio e outra conversa surgia, a propósito. As memórias de viagens abrem-nos sempre o sorriso e desenham no nosso espírito pensamentos coloridos, dos tais que pintam os dias de Inverno. Que nós por cá não nos podemos queixar muito, que nesta cidade, cheia da claridade reflectida neste rio lindo, os dias cor de cinza quase se contam pelos dedos. E quando chegam enchem-nos de birra, ficamos sem disposição para nada a não ser suspirar pelo sol e pedir contas a S. Pedro por tamanho castigo. E aí, voltamo-nos para o rio a olhar os navios ou abrimos a agenda grande para percorrer o mapa, que o “vá pelos seus dedos” é a opção mais à mão…
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Dos sonhos aos Reis…

É tempo de Festas, das tais que nos trazem bolos e tradições e memórias. Tempo de arroz doce e filhoses, bolo-rei e sonhos. Vários. Sempre gordos e com muito açúcar e canela, daqueles que nos dá prazer lambuzarmo-nos e carregarmos depois o sentimento de culpa da certeza de mais uns quilos no corpo.
Tinha a mesa posta desde o 24, desde a Noite, a tal, e assim permanecia até ao Dia de Reis. Quem sabe não aparece por aí alguém hoje…, voltava a pensar. E escutava o tiquetaque do relógio de parede, cadenciado nas horas, as completas e as meias, e depenicava uma noz, de quando em vez.
Ela, a outra, cresceu a ouvir o tiquetaque do relógio de parede, que fazia companhia à mesa posta com os sonhos e as filhoses e o arroz doce. Acompanhou, sem grande partilha, uma espera de bocas alegres que tudo comeriam, com gula e satisfação, por entre beijocas repenicadas e o barulho do desembrulhar dos presentes. E os laços no chão. E as fitas.
Por entre os dias, um ou outro alguém ia aparecendo para saborear o doce da época e se regalar com a iguaria servida. Entrava e saía, distribuía sorrisos e prendas, largava uma beijoca e um Até breve! recebido com carinho mas na certeza de um retorno mais largo.
No Dia de Reis é tempo de levantar a mesa e de guardar os sonhos que sobraram; os bons, que os outros já não prestam. Dobrar a toalha e sacudir o açúcar derramado. E não esquecer de acertar o relógio de parede, para que o tempo chegue a horas certas.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Paninhos quentes de paixão...
Recostou as costas cansadas e curvas contra a parede fria de pedra e o seu olhar atravessou a vidraça. Lá fora, começava a chover uma água miudinha e mole, adivinhando uma noite ainda mais fria que a anterior. Voltou a olhar para o cesto, pegou e desdobrou o último paninho bordado transformado em lenço e sorriu mansinho. Já lá iam muitos anos desde o primeiro, bordado entre palpitações e rubores pelo seu António, que lho ofereceria na Páscoa. O mesmo António que lhe rondava a janela pela manhã e lhe atirava frases bonitas lá mais pela tardinha, quando voltava do campo, à socapa da Ti Bárbara que se o apanhasse a jeito lhe diria das boas…
Aconchegou o xaile sobre os ombros e vagueou na memória dos dias passados. Dos anos passados e distantes em que, rapariga nova, se juntava às tardes no grupo das casadoiras para bordarem enxovais e tagarelarem sonhos difusos, mal desenhados ainda mas que prometiam dias de sol e fartura numa terra de miséria e cinto apertado. Que a fome nunca lhes bateu à porta, é certo, mas as larguezas na mesa não se faziam notadas. Tempos idos, de privação, a que se lhes seguiram outros tempos de adeus e de promessas de regresso dos homens da terra que partiam para um amanhã melhor. Melhor…
A Maria Júlia não tardaria a chegar. Tinha prometido vir lá pelas sete para apanhar a encomenda e a tempo ainda de preparar o jantar dos netos, que pousaram lá em casa durante uns dias. Amanhã é dia de feira e a cliente queria ver os lencinhos, a ver se gostava… Queria ver os lencinhos típicos da região, disse ela, daqueles com versos, às cores. Daqueles que falam de quem suspira e de corações que morrem de amor. E o teu, por quem morrerá?, pensou. Por ninguém, suspira ela, que alguém se antecipou e morreu primeiro sem se despedir, deixando-a com os lenços para enxugar os olhos tristes. E viver mete muita água, a começar pela do choro, que vem do nascer e nos acompanha, em visitas mais frequentes nuns que noutros.
Ouviu o seu nome chamado da porta. Levantou-se, arrastando-se devagar e foi atender a Maria Júlia.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
A espera...
Não a podia ver mas sabia que lá estava. Sabia também que, passada uma hora, por aí, se cansaria de esperar e sairia irritada pelo tempo gasto em vão. Pressentia que fosse recuperar esse tempo no centro comercial que ficava a 3 km apenas, que começaria pelo café engolido em seco e que afundaria as mágoas na montra daquela loja pequenina entalada entre a florista e a outra dos brinquedos.
Tinha a certeza que voltaria mais tarde, à noite, reatando a espera, encolhendo-se no sofá com o portátil nos joelhos. Conversas interrompidas, meias-palavras, pausas forçadas. De tudo um pouco era composto o seu tempo, esquecido de viver para se alongar neste ritmo morno, de cores pálidas.
Sabia-o ela também, mas teimava em esquecer. Porque esquecer era teimar em viver, esse tempo virtual e de espera mas que lhe alimentava a ilusão.
Observava-a um, por fora; sentia-se ela, por dentro. Um só tempo, duas visões. O mesmo final.
Num momento que não foi o mesmo, desligaram o botão e foram dormir.
sábado, 29 de novembro de 2008
Silêncios...
Ajeita o cabelo, cruza e descruza as pernas que terminam num modelo fashion e não pára. Não pára de verbalizar opiniões sobre tudo e coisa alguma, com a segurança de quem acabou de travar conhecimento com algumas delas e a quem já trata por “tu”, numa descontracção de velhas amigas. Ele sorri para dentro e continua a ouvi-la, escutando-a intermitentemente, vagueando de mansinho por outros destinos que a memória lhe vai servindo em pequenas doses.
“Qualquer dia vou navegar e entro nela”, pensou. Nessa luz com nome que guarda só para si, por não interessar a quem acha muitas coisas que lhe são distantes. Qualquer dia…









Espectáculo Final da Escola de Dança do Conservatório Nacional
Teatro Camões
2 Jul: 21h, 3 Jul: 16h, 21h, 4 Jul: 16h
Curtas 2010 - II Mostra de Teatro de Peças de Curta Duração
Traseiras do Mercado da Ribeira, Lisboa
Até 4 de Julho
XI Grande Noite de Ballet Flamenco
Teatro Tivoli
10 de Julho, 21h30

