Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Mimos de ouro

Saiu de um, ainda com os sons desvairados na cabeça, para correr para outro espectáculo. Que o primeiro tinha sido uma experiência absolutamente arrebatadora, que começava devagar para crescer, imparável, preso numa espiral sufocante, sempre redonda, sempre em círculo…

Assim, correu para a outra sala a pouca distância da primeira. Comprou o bilhete e correu, uma vez mais, para engolir o pão que lhe adormeceria a fome e lhe permitiria concentrar-se noutro som e noutras imagens, bem diversas das que enchiam a primeira sala rendida àquele som religiosamente alucinado.

Sentou-se e esperou. Sentou-se e apurou os sentidos. Sentou-se e deixou-se invadir pela voz de veludo que a abraçava, que tudo e todos envolvia, remexendo velhas músicas desta vez maquilhadas por uma orquestração que só lhes dava nova morada para o sentimento de sempre. Dá gosto, pensou. E pensou mais ainda. Pensou que estava perante a versão masculina da Diva, da Senhora do fado. Pensou também que, de certo modo, ela perpetuava-se não através de uma mulher, como esperado, mas sim pelo timbre grave e sério e seguro desta voz de homem que, timidamente, se apresentava perante a plateia que o aplaudia de pé, uma e outra vez.

Saiu para a noite quente, reconfortada. Saiu com um sorriso na boca e um som de qualidade na alma. Saiu para o abraço apertado que coroava esta noite quente cheia de música. Saiu…

(Outros comentários a este concerto em “Carta Branca a Camané”…)

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

A reinvenção do circo

De animação de rua ao estrelato das tournées internacionais. Vinte e cinco anos a crescer e a amadurecer a ideia de reinvenção do circo. Magia pura, transposta em cor, música e, sobretudo, alegoria. Uma espécie de viagem ao nosso imaginário, uma viagem executada na perfeição dos cenários e da performance. Imperdível, sem dúvida.

Aqui fica uma pálida ideia do Varekai, último espectáculo do Cirque du Soleil, que me deliciou durante uma bela tarde de domingo e que conta a história do renascimento de um anjo depois de ter caído numa floresta mágica localizada no topo de um vulcão.

Palavras para quê? São artistas… de todo o mundo!



Sábado, 6 de Junho de 2009

Educação para a felicidade

(imagem da net)


Pressinto por aí um levantar de sobrolho, desconfiado e incrédulo: o título parece pomposo, descabido e piroso. Não, não tenciono dedicar-me à escrita de folhetins, nem de guiões de novela.

Ele surge porque há dias tive conhecimento de um programa de tempos livres para crianças, organizado por uma pequena empresa que se dedica a estas artes, e que me pareceu marcar pela diferença. A sua proposta vai no sentido de chamar a atenção das crianças para os pequenos nadas do dia-a-dia, para as coisas positivas que vivem na sombra, pois estamos demasiado amestrados para valorizarmos os tons negros em vez de outros mais luminosos. Desta forma, a proposta de ocupação do tempo de férias das crianças e jovens contempla a promoção de algumas actividades, na sua maioria muito simples, mas que ajudem a reconhecer os aspectos positivos da vida, já que para os outros existem demasiados treinadores, desde os media a cada um de nós. Assim, intercalam as actividades tradicionais, as desportivas e as idas à praia, com outras, em que lhes pedem para descreverem o que vêem de bonito, ou de bem feito no seu caminho de casa para a escola, por exemplo; organizam jogos em que o objectivo seja enumerar características positivas dos colegas de grupo, de modo a que no final do jogo cada um tenha sido presenteado com uma lista de qualidades que os outros lhes atribuem.

Aprender a valorizar o que de bom nos rodeia em vez de nos focarmos eternamente nas contrariedades, é a pedra de toque para a construção da felicidade. Apetecia inseri-la nos programas curriculares: educação para a felicidade, que podia englobar também temas de educação cívica e outros. A ideia, apesar de não ser minha, perfilho-a. Fundamental e urgente.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Lamento ou confissão?...

Que prenunciava esta voz de Cigala, que assim entrava por ali dentro, rasgando um Eu sei que vou te amar anteriormente de Vinicius?...
Lamento ou confissão. Ou ambos. Fechem os olhos e embalem-se…

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Ouçam como eu respiro...

(imagem retirada de aqui)

Respirava às vezes, por entre conversas cheias de cor com gente ao vivo. Respirava, também, entre palavras trocadas à distância de alguns cliques, sempre com gente cheia de cor para trocar com ela.

Nem sempre tinha essa sorte. Por vezes, sustinha a respiração, e exibia o sorriso número zero, o tal que tinha o condão de passar despercebido, antes que…

Naquele dia, teve a sorte de trocar umas garfadas por entre uma conversa animada que lhe encheu os pulmões. Respirava.

Esperava respirar mais vezes e descobriu que adorava charadas! Para bom entendedor… ;)

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Feira do Livro

O mais importante acontecimento em torno do livro em Lisboa chega este ano com algumas novidades. A começar pela proposta de um novo modelo dos expositores dos livreiros e editores, e passando pela nova data para o arranque do evento que este ano começa mais cedo, a 30 de Abril. O Brasil é o país convidado, estando previsto um conjunto de actividades culturais – colóquios, encontros, animações, etc. – consignadas à literatura do país irmão. O Parque Eduardo VII continua a ser o lugar de passagem obrigatório para quem gosta de ler. (in: Agenda Cultural de Lisboa, Maio 2009)

Tudo isto é verdade. Mas, e uma vez mais, para quando um novo formato de Feira do Livro? É que a Feira, tal como ela acontece, é uma realidade já bastante antiga, com um formato que servia as necessidades de outros tempos, quando ainda não existia a FNAC nem as grandes superfícies, nem outras pequenas feiras do livro cresciam que nem cogumelos um pouco por todos o país. Nessa época, este evento era aguardado com ansiedade e constava das nossas agendas como uma altura onde, finalmente, se iriam comprar mais barato aqueles livros tão desejados e onde haveria oportunidade de ter uma visão de conjunto do que se tinha editado.

Hoje em dia este modelo peca por defeito. Peca por ser curto e coxo, pois as motivações de ontem já não são suficientes, dada uma maior oferta neste campo. Há que tornar a Feira do Livro num evento cultural mais alargado, onde o protagonismo continue a ser dos livros, obviamente, mas onde se possa também assistir a actuações várias, como teatro, música, dança, etc. É caro? Depende. Porque não convidar escolas de dança, ou de outras actividades, a darem pequenos espectáculos? E que tal transformar também este recinto numa opotunidade para novos talentos, novos músicos, ou outros? E porque não promover mostras de produtos portugueses? Reduzir a programação cultural a sessões de autógrafos, à Hora do Conto, a palestras e pouco mais, por muito interessante e pertinente que isso possa ser, parece-me escasso e, além disso, pouco assertivo.

Enfim, aqui fica o desabafo. O livro não tem de ser mostrado isoladamente, como se ao misturá-lo com outros produtos culturais o estivessemos a menosprezar. Nada de mais errado, a meu ver. Ele respira muito melhor se estiver acompanhado e, desde que haja um critério de qualidade na escolha dos eventos a realizar, transformar esta Feira num verdadeiro acontecimento cultural é um favor que lhe fazem. Se a quiserem salvar... claro!

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

E viva o Pedro! Hoje e sempre






Pedro – São rapazes simples e extremamente disciplinados que procuram uma realização intelectual. Têm tendência para monopolizar as atenções. É um nome que deriva do latim e significa “que é firme como uma rocha” ou "pedra".

Pois...
Estas "classificações" valem o que valem, ou seja, nada. Apenas nos divertem, como num puzzle em que tentamos encaixar as peças. E que às vezes sobram! Como se pode ver, aqui anda o rapaz à procura da realização intelectual... ;)
Para ti, meu Amor, um grande beijo de parabéns, hoje, nesta primavera em que ainda só contas dezasseis...
E, como para terminar, aqui ficam estes dizeres de Vinícius de Moraes, alguém que melhor do que eu conseguiu fazer um hino aos filhos:

Poema Enjoadinho

Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Vinicius de Moraes

Domingo, 3 de Maio de 2009

A morte de Corín Tellado… ou o meu mundo não é deste reino

(imagem da net)


O meu mundo não é deste reino, é uma espécie de mote recorrente, que lhe visitava o pensamento a propósito de muitas situações: de um reino de cálculo ou de conta, daquela que faz, especificou, uma vez mais de si para si.

Na sua frente uma mancha de pequenas teclas pretas, que podiam dizer muito ou mesmo tudo do que se passava neste momento no seu mundo. O tal que vivia obstinadamente do lado de fora do reino, talvez porque a portagem fosse demasiado cara ou talvez porque o caminho para entrar no reino não se lhe apresentasse como o mais interessante. Demasiado poeirento, pensava.

Nunca pensou que esse seu mundo fosse cor-de-rosa. Antes pelo contrário, já que essa cor a incomodava e não lhe reconhecia grande interesse. Antes pensava que esse seu mundo fosse assim mais para os tons terra, aqueles que nos agarram ao chão e nos deixam criar raízes. Os tais que pensamos ser de Outono, mas que nem tanto, já que este prefere outros matizes, mais variados, como variegadas são as suas folhas.

Mas voltando ao cor-de-rosa. Lembrou de alguém que há pouco, muito pouco, lhe tinha dito que a Corín Tellado já tinha morrido. Ah… sim?!... Pois… respondeu ao trocadilho com um meio sorriso em tons cinza. Que a Corín Tellado nunca tinha existido realmente a não ser na utopia do sonho e do querer. Esse querer que tantas vezes nos afasta dos tons terra e teima em dizer que o cor-de-rosa ainda está na moda…

Concentrou-se na mancha de teclas negras que se comprimiam rapidamente sob os seus dedos, à velocidade em que o seu mundo ia descolorando, e vagueava perdido entre os tons terra e o cor-de-rosa, cada vez mais descorado…

Continuou percorrendo as teclas até que o relógio a trouxe de volta à realidade. Desligou tudo, levantou-se e preparou-se para abandonar o seu mundo a outros cuidados, talvez aos deste reino... Bocejou, programou o despertador que também não pertencia ao seu mundo mas a este reino e decidiu-se, sorrindo com o fim da metáfora: vou ter de mudar de tinteiro.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

O valor das ideias


O valor das ideias é um blog de Carlos Santos, Professor de Economia, e que aqui ajudo a divulgar. Em especial, o seu post contra a tortura, ou melhor, contra quem, hoje em dia, ainda defende esta prática como um meio eficaz e necessário nas sociedades modernas:Houve ontem quem louvasse o regresso da tortura a Portugal

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

É uma casa portuguesa... de certeza?!...

Palacete de D. Chica, Palmeira, Braga, Portugal
Foto: Júlio de Matos


São os lares dos torna-viagem de outros tempos. Idos, longínquos. São casas de quem saiu cheio de esperança, cheio de vontade de regressar endinheirado. E assim foi. Na transição do século XIX para o século XX, mais concretamente entre 1860-1930, portugueses nortenhos, de uma classe média rural, rumaram ao Brasil e regressaram com fortuna feita, passando a fazer parte da classe possidente local, daquela pequena franja que ditava as regras ou pelo menos influenciava a vida pública. Construíram casas apalaçadas que ostentavam o produto do seu esforço e o sorriso da sorte que lhes batera à porta. Estas "casas de brasileiro" mostravam as marcas não só da riqueza dos donos como também de gostos alheios aos nossos e quase sempre misturados, num resultado eclético que veio transformar o panorama da arquitectura nacional, a paisagem do Alto Minho e marcar definitivamente uma época.

Algumas destas casas dariam excelentes cenários para filmes, onde viveriam figuras míticas, damas e cavaleiros, monstros e outros seres que povoam o nosso imaginário. Cinquenta delas foram captadas pelo olhar de Júlio de Matos, arquitecto e fotógrafo de Braga, dando origem a uma exposição da iniciativa do Ministério da Cultura de Portugal, no contexto das “Comemorações dos 200 anos da Ida da Família Real Portuguesa para o Brasil” e patente ao público no Brasil (Museu Nacional, do Complexo Cultural da República de Brasília, no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro e no Museu de Arte da Bahia, em Salvador). Estas fotografias encontram-se também editadas em álbum fotográfico, com texto de Jorge P. Sampaio (Casas de Brasileiro, DeMatos, Braga, 2008)

Sábado, 25 de Abril de 2009

35 anos




Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar


Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim


A primeira versao de "tanto mar" tinha sido censurada devido a canção ser uma saudação à Revolução de Abril de 1974 em Portugal. Foi gravada totalmente pela primeira vez num espectáculo ao vivo com a Maria Bethania, que foi passado para disco (em 1975). A segunda versão foi gravada no início de 1976 e refere-se ao Novembro de 1975 em Portugal e ao fim do período mais revolucionário que por cá se vivia.
(in: http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/buarque-tantoMar2.html)

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

O infinito pode esperar?

(imagem retirada da net)


Deu meia-volta na cama e procurou adormecer. Mais meia-volta mas o sono tardava, andava arredio, dando espaço a pensamentos mais densos. Não sabia por onde deveria cortar – ou melhor, isso até sabia, mas não lhe apetecia. Como seguir o impulso e ceder aos sentidos, se a cada esquina novo coelho saía da cartola, sempre negro, num discurso profético em que se anunciava um desfecho doloroso para uma existência já de si sofrida? Como persistir no querer quando outra tentação lhe segredava ao ouvido palavras doces com promessas cheias de sol? Mas como avançar para esse sol, envolto num algodão doce, se o impulso teimava noutra direcção e lhe punha na boca o gosto amargo que não passa, por mais algodão doce que se coma?

Veio-lhe à memória uma fidelidade em forma de soneto, com sotaque adocicado, como doce era também a sua letra:

De tudo ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento.

E esta fidelidade continuava o seu canto até que concluía:

E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama / Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.

Fez marcha a ré nos pensamentos, já que o sono assobiava ao longe de costas voltadas. Infinito não terá sido, pensou, e o olhar quase se embaciava, recordando-se de outra vida vivida. Mas também houve sol nessa outra vida.

As memórias começavam agora a aproximar-se do tempo recente; parecia que vinham a todo o vapor e serviam-lhe de bandeja outras lembranças. O futuro não acaba amanhã, sorriu-lhe esta. Desfilavam como fantasmas elegantes nesta noite sem sono. O tal que teimava em assobiar para o alto, qual miúdo travesso: se ao menos ele fizesse o que lhe competia, pensava, já não tinha que me ocupar com estes pensamentos circulares, abrigos destes fantasmas elegantes…

Ao fim de mais umas voltas o sono resignou-se e entrou, de mansinho, dando-lhe tréguas. Até ao despertar.

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Pertencer

Na senda do post anterior, esta é a música que se impunha e que rima com esse texto. Contra a discriminação. Chamo a atenção para a letra, da qual aqui deixo o refrão:

O meu nome é João e vivo ao teu lado
O meu nome é Yuri do continente gelado
O meu numero é zero nesta democracia
Deixa-me pertencer, eu quero pertencer-te...

É o que faz estar muito tempo sem escrevinhar: o pensamento retarda-se e teima em pastar na nebulosa da "branca maldita"! :):)

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Entrevista


Desligou o telefone com um suspiro. Seria desta?

Ao abrir a porta percebeu imediatamente que era. Na sua frente, uma mulher com cara simpática, afável, cabelo curto e lenço ao pescoço, preso com um alfinete em forma de flor. Formas quase redondas, a tender para o cheio, ar lavado e engomado. Sorriso franco.

Há oito anos que vinha do Leste. Ia e vinha, entre as saudades da terra e dos filhos e a necessidade de trabalho. Caminhava para cá, deixando no pensamento um rasto de saudade e preocupação, presos numa cidade distante de um país gelado, à direita no mapa.

Enrolava as palavras lusas e fazia um esforço por dar forma às ideias e ao que precisava de dizer. Do sorriso aberto espreitava um dente de ouro, fora de moda no lado de cá da Europa, mas que talvez falasse sobre um modo de vida de alguma forma parado no tempo. Ou pelo menos, no nosso tempo…

Limpava, engomava, e lá ia e vinha, num circuito sempre igual, ritmado e seguro, que inspirava confiança. Ia e vinha até um dia, em que anunciou a ida para tratar da mãe, doente e gasta, que esperava em silêncio do lado de lá, à direita no mapa.

Prometeu deixar outra em seu lugar – possivelmente parecida, vinda do mesmo sítio e viajante no mesmo percurso e com o mesmo destino.

Desligou o telefone com outro suspiro. Seria desta?...

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

O desabafo do i...


Deve de ser da crise: não há quem não se queixe, até o nono filho do alfabeto já apresenta sintomas de depressão e anuncia publicamente que vai mudar de vida. Divirtam-se!

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Um bairro daqui...


Este bairro tem ruas antigas, com passeios de pedrinhas, tortas, e tascas, e trolhas. Muitas tascas, atafulhadas de homens (quase só homens entram e comem nestes lugares esconsos e estreitos). São os restaurantes dos homens de prato cheio e de assador à entrada. Sempre me intrigou a atracção deles por este tipo de lugares. São ruas também povoadas por muitos trolhas, descansando entre o meio-dia e a uma da tarde, de mini na mão e beata no canto da boca. E na boca piropos foleiros, antiquados e desusados, que largam sempre que um par de saltos altos lhes passa diante do queixo. Num dia que passou há pouco houve um, contudo, que me fez sorrir, de naif que era: “Ó menina, passe por aqui mais vezes…”, saiu-lhe.

São ruas do sul, ruas de gentes morenas, ruas com gatos e buracos e pequeninas lojas de linhas e botões. E muito sol. São ruas com peixe assado e tiras de entrecosto. São ruas com roupa estendida à janela, em prédios de três andares e águas-furtadas. São ruas com carris de carros eléctricos, uns que ainda passam, outros que já não… São ruas que não entendem estrangeiro, não acolhem executivos fardados de cinza, nem percebem o porquê da crise financeira. Estas ruas não são de agora mas sim de um qualquer filme neo-realista italiano, sem a atitude padronizada dos dias de hoje, mas com o sentimento de sempre.

Passo por elas e vem-me à memória o fado de Mariza:

(...)
Oh gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi
(...)

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Outras leituras para este Leitor...

The Reader, de Stephen Daldry

Alemanha, anos 50. Pós-guerra e uma Berlim ainda devastada: as ruas apresentam as marcas das armas e os habitantes as marcas da derrota. Pressente-se a crueza dos dias, a dificuldade do recomeço.

Este é o cenário inicial de O Leitor (The Reader), um filme que, segundo quase todos, nos transporta para os dramas do Holocausto e de uma Alemanha envergonhada e traumatizada pela sua História recente. Verdade mas redutor, a meu ver, já que este filme diz muito mais do que isto. Senão vejamos:

Um adolescente de 15 anos (Michael Berg) conhece por acaso uma mulher, com cerca de 35 (Hanna Schmitz). Apaixona-se por ela e vivem uma relação, naturalmente clandestina. Até aqui nada de novo, não fosse o caso de ela gostar que lhe lessem livros e vivesse essas histórias de forma tão intensa como se assistisse a uma peça de teatro que muito lhe dissesse. A relação entre ambos prossegue, a um ritmo comandado por ela e estimulado pela leitura dos clássicos que ele lhe faz chegar. Um belo dia, ela desaparece sem deixar rasto e, oito anos mais tarde, ele descobre-a como ré num julgamento de um caso de Holocausto, onde ela se lhe revela como tendo sido guarda prisional em Auschwitz e tendo sido co-responsável pela morte de prisioneiras judias.

Esta é a história óbvia do filme, trazendo para a boca de cena uma vez mais os dramas da II Guerra Mundial, tema aliás ressuscitado ultimamente por outros filmes como Resistentes, O Rapaz do Pijama às Riscas ou ainda Valquíria. Contudo, o aspecto mais interessante e talvez mais inovador desta história reside no perfil psicológico da personagem de Hanna, uma mulher que aparenta uma origem talvez rural, analfabeta, e com um quadro mental muito próprio, em que o seu analfabetismo lhe dita as regras de conduta e lhe confere padrões éticos diferentes dos das outras pessoas. O seu ar sofrido leva-nos a pensar que se envergonha do seu passado como guarda prisional. Puro engano. Hanna apenas se limitou a cumprir a sua função o melhor que sabia e este ar sofrido advém antes de uma contenção de carácter, da sua obsessão em esconder o seu analfabetismo, limitação essa que, a seus olhos, a diferenciaria dos outros, qual alien de outro planeta.

A moral, a ética do direito (patente no respeito que a personagem Michael Berg revelou ter por ela, enquanto ré, ao não revelar o segredo de Hanna: a sua incapacidade para ler), o rígido quadro psicológico dela, que até na sua morte se revelou, uma vez mais, coerente (tem de morrer já que foi condenada a prisão perpétua...) são, quanto a mim, as pérolas deste filme que, não sendo arrebatador, promove uma reflexão muito interessante.

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Small talk para dias cinzentos...

Small Talk 11" x 14"Acrylic on canvas panel (retirado de aqui)


Tenho que aprender a falar, pensou. Aprender a gastar palavras pequenas, juntá-las em comboios formando frases conhecidas, daquelas que toda a gente reconhece facilmente e sem esforço, daquelas que não obrigam os outros a pensar muito, ou sequer a pensar um pouco, e para as quais toda a gente conhece antecipadamente as respostas. Confortáveis frases, sobre banalidades, queixumes recorrentes e inconsequentes, dos tais que existem apenas para preencher o vazio da falta de palavras com mais sentido, enjeitadas pelas bocas e cabeças de muitos.

Esgotou o tema tempo, estafou-o, falou dele até à exaustão que a chuva e o vento lho permitiam. Deu-lhe uma boa parte da manhã, nos encontros repetidos e rotineiros de todas as manhãs. Trocou as nuvens carregadas pelo desejo do sol ausente, e regressou à neblina do vazio de palavras sem sentido.

Faz pela vida, continuou pensando. Constrói uma vidinha de pequenos nadas, enquanto esperas pelos grandes, desconhecidos, e aprende a falar do tempo, dos gatos, da vizinha da frente ou do lado ou de cima. Sobe e desce no elevador as vezes que forem precisas para ganhar coragem, ou ritmo, ou tema para estas coisas nenhumas que enchem o dia-a-dia. Aprende o interesse dos outros, para que se interessem por ti: um pequeno nada no meio de tanta coisa nenhuma, grande, imensa, sufocante, que tanto os atrai.

Inscreve-te. Faz parte. Corre, corre…

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Inconformismos

Revolutionary Road, de Sam Mendes


Estreou há dias o último filme de Sam Mendes, o homem que já tinha realizado Beleza Americana, esse filme espectacular sobre o modo de vida da classe média dos States. Tema recorrente este, já que é também sobre a classe média americana e sobre a vidinha caseira, pacata e ordeira de um casal dos anos 50 que Sam Mendes nos conduz o olhar.

Subúrbios de Connecticut, 1955. A vida do casal Wheeler não corre sobre rodas. Vida organizada, de um casal com dois filhos e um emprego estável, não chega, no entanto, para satisfazer as aspirações desta dupla que se julga de certa forma “especial”. O mote “Paris” surge nas suas conversas como um escape, uma libertação, um ideal de liberdade e uma promessa de uma vida cheia, plena de satisfação pessoal, em contraponto com aquela pacatez e monotonia americana de subúrbio ajardinado e soalheiro, em que os dias se adivinham iguais e sem estremecimentos. Ao terem mudado para Revolutionary Road (a morada da casa que alugaram quando nasceram os filhos e onde resolveram instalar-se), não poderiam imaginar, contudo, em como este nome lhes seria premonitório. Um autêntico caminho revolucionário, que rimava com a ideia de tudo abandonarem e recomeçarem a vida em Paris, onde ela trabalharia e ele teria tempo livre para descobrir o que quereria fazer da sua vida, revolucionando por completo o sistema, o American Dream, que ditava que o homem era o cabeça de casal e, por isso, que a ele cabia sustentar a família; que ditava, também, que uma família com filhos deveria pautar o seu quotidiano por um ramerrão sossegado; que ditava, ainda, que era normal aceitar-se um emprego estável, ainda que completamente desinteressante, e que a fogosidade de outros voos ficava vedada aos casados com responsabilidades familiares.

Sonho e realidade. De que maneira é que o sonho se pode tornar realidade ou, pelo contrário, será que se trata de duas situações antagónicas e inconciliáveis... No caso dos Wheeler, a “revolução” contra o conformismo que pensavam levar a cabo não viu a luz do dia e transformou-se no maior pesadelo das suas vidas.

Adaptado do romance de Richard Yates, os diálogos exprimem, assim, um sabor literário muito interessante. Com uma realização muito bem conseguida, através de planos em que a acção decorre de forma suficientemente explícita mas sem que o óbvio nos seja servido de bandeja, a empanturrar-nos com finais de diálogos desnecessários, e de uma composição de personagens perfeita, em que todas elas têm uma função bem definida, este filme revela-se como um dos melhores dos últimos tempos. De salientar o excelente desempenho de Kate Winslet, no papel da protagonista insatisfeita e sonhadora e de um Leonardo DiCaprio maturo. A personagem do vizinho louco, interpretada por Michael Shannon, faz-nos lembrar um pouco o Coro das tragédias gregas, a voz da consciência, aquele que goza da liberdade para dizer a verdade, sem se intimidar pelo discurso das conveniências sociais.

Um filme que merece as cinco estrelas. Uma reflexão absolutamente imperdível.

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

A Coragem e o poeta fingidor...


O poema que abaixo se transcreve é commumente atribuído a Fernando Pessoa, mas parece que tal não é verdade. Até porque também parece diferente do estilo da escrita de Pessoa. Na forma e no conteúdo, o espírito do poema que nos chega pela rede traz-nos malhas que alguém teceu, possivelmente não esta Pessoa mas outra, que este Fernando, apesar de poeta fingidor confesso (O poeta é um fingidor /Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente), não parece ter vivido assim de forma tão afirmativa. Há quem defenda, portanto, a ideia de falsa autoria, e eu, apesar de não ser entendida em Pessoa, subscrevo. Mas, independentemente da discussão acerca da autoria do poema, o certo é que constitui um lema a seguir. Para quem conseguir...

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...