quinta-feira, 19 de maio de 2011

Inquérito

Imagem tirada daqui

Cristina e Margarida prepararam-se para mais um inquérito a uma família dita “tipo”. Das suas famílias, aspectos havia que teoricamente se distanciavam do modelo tipificado como ideal, se bem que cada vez mais comum nos tempos que correm. Prepararam-se para entrevistar uma mulher que lhes falaria da sua vida, da sua família e dos seus hábitos de consumo. Só não se tinham preparado para ouvir um relato na primeira pessoa de alguém que se dizia feliz, apesar das apertadas condições económicas em que vivia.

Carla e Carlos tinham nascido um para o outro. Seres iguais, nos afectos e esperanças, alinhavavam a vida de ambos como se de uma única se tratasse. E, realmente, tratava-se de uma só. Nela cabiam muitos outros seres, a começar pelos três filhos adolescentes e uma rede de parentes e amigos, todos eles muito próximos entre si - e de Carla e Carlos. Também. Nessa rede viviam e dela se abasteciam, de afectos e proximidade. A ela recorriam todos, sempre que necessitavam de alguma coisa. Entreajudavam-se.

Carla é jardineira e Carlos serralheiro. Carla ganha uns magros 400 euros mensais e Carlos vai-se safando no ofício o melhor que pode. Carla ajusta as despesas do mês ao parco rendimento, tira partido de todos os talões de desconto que lhe chegam às mãos; contabiliza ao cêntimo as necessidades indispensáveis e dispensa todas as outras. No início de cada ano, perspectivam em conjunto as férias e os principais acontecimentos; no início das semanas, perspectivam as refeições de família e cozinham-nas, à vez. Partilham tudo o que tem a ver com a vida de família e, a bem dizer, nada mais resta para além dela. Centram a sua existência neste núcleo e ele lhes basta.

De vez em quando, conseguem tirar uns dias de férias só para os dois, já que um casamento precisa de respirar também através destes momentos. "Os filhos compreendem", diz Carla, "e apoiam-nos. Já realizei a viagem da minha vida: fui a Veneza com o meu marido, uma semana, e adorei!"

Carla veste sem luxo mas tem uma aparência digna. Aqui e ali um ou outro acessório, como que a atestar a contemporaneidade: um relógio Swatch, umas pulseiras da moda… A espaços, Margarida olha a colega de soslaio como que mal refeita ainda da surpresa desta entrevista. Ocorre-lhe por vezes ficar a ouvir Carla como que em voz off, ao longe, e perder-se em pensamentos menos felizes. Ocorre-lhe lembrar-se que há vinte anos que o seu marido se alheia das responsabilidades domésticas; ocorre-lhe ainda que o seu dia-a-dia é preenchido com inúmeras tarefas, todas sempre tão carregadas de responsabilidade, que mal tem tempo para si própria. Ocorre-lhe, por fim, que não se lembra de ter tido a viagem da sua vida, fosse esta qual fosse, e que ouviu e registou com indisfarçável espanto que Carla, a jardineira, mal paga, já a tinha realizado e – pasme-se! – com o marido!...

Passada hora e meia, Cristina e Margarida abandonaram aquela casa. Um silêncio perturbador pesou sobre ambas, distraídas em rebobinar rapidamente as suas vidas, como se fosse possível fazer uma síntese de quarenta e poucos anos de existência naqueles escassos minutos e, ainda por cima, daí conseguir retirar uma conclusão que lhes servisse de guia. Cristina foi a primeira a quebrar o silêncio opressivo. Talvez por defeito de formação, a referência que surgiu em primeiro lugar foi uma obra que tinha acabado de ler e para a qual estabeleceu uma ponte. “Trata-se de um livro sobre o Estado Novo”, comentou em voz alta. “É muito interessante verificar que Salazar fazia assentar o seu modelo social na família, em detrimento do cidadão, do indivíduo. Defendia ele que a família deveria ser o primeiro dos elementos políticos do Estado, e daí a figura do chefe de família como porta-voz da mesma, o chefe de família como eleitor das instituições do Estado, e por aí fora. É claro que as consequências disto são por demais conhecidas, mas poderíamos sempre filosofar sobre se deverá a sociedade eleger a família como seu núcleo central ou, pelo contrário, libertar o indivíduo dessa carga e responsabilizá-lo, tornando-o num cidadão de pleno direito!”

Margarida sorriu e preparou-se para traduzir a reflexão da colega por um discurso menos académico. “O que eu sei é que a Carla que acabámos de entrevistar não tem grandes ambições, para além de construir uma família. O que já não é pouco! Mas basta-lhe isso, não procura outros caminhos, outras realizações. E, apesar das dificuldades económicas, consegue encontrar-se, graças a um estilo de vida comunitário, ao suporte de uma rede familiar e de amigos próximos, e isso é formidável! Ela conseguiu uma estabilidade emocional que lhe permite seguir em frente.”

Cristina concordou e sorriu. Pensou na dificuldade que sentia em eleger algum homem da sua família chegada que servisse de modelo masculino capaz para o seu filho adolescente… Pensou ainda em como deve ser confortável ter uma rede de apoios como a que lhe tinham relatado. Mas sabia também quanto valorizava a sua individualidade e como não se reconheceria facilmente dentro de um círculo fechado. Valorizava sobretudo o equilíbrio e, perante uma escolha entre segurança ou liberdade, decidia-se pelas duas. Quanto baste, reconhecia.

7 comentários:

JHPereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JHPereira disse...

Esta ideia de que se consegue escolher os dois caminhos é uma utopia. Ninguém partilha uma vida com alguém de forma equilibrada e honesta, vivendo em paralelo uma vida só sua e defendendo ou confundindo o individualismo com a dita “liberdade”. Quem acha que se pode apoderar das duas (segurança e liberdade) é idiota. Sê-lo-á até se sentir tão frágil que necessite desesperadamente de apoio. Talvez alguém lá esteja nessa altura. Talvez.

Paula Crespo disse...

JHPereira,
Verdade, mas a questão está no equilíbrio. Deverá haver sempre um "eu", um "tu" e um "nós" (este último necessariamente maior que os dois primeiros). É só isso :))

mariam disse...

Paula,

Excelente texto, b0m retrato social!

(mas parece-me que cada vez há mais 'Cristinas', em versão masculina também!)

Beijinhos :)
mariam

Paula Crespo disse...

Mariam,
Obrigada pelo comentário e pelo elogio :))
Estas questões são independentes do género, acho eu. Simplesmente agora talvez se notem mais no género feminino, porque o masculino sempre as teve.
De qualquer forma, o que pretendi realçar através de Cristina, é que a anulação de uma parte de nós não augura nada de bom. E isto é independente das naturais e necessárias cedências e ajustamentos que devemos fazer num relacionamento.
Bjs

sagitario disse...

olá Paula,
Há muito que acompano a sua escrita e gosto da maneira como expõe as coisas, aliás conheci-a através do blog da Velvet, lembra-se?...

Claro que há pessoas que se acomodam e são até felizes com uma vida certinha e para elas o valor da família é sagrado, outras porém querem outras coisas da vida e não se acomodam com a rotina, daí entrarem em rota de colisão com a vida e com elas próprias.
O mundo é feito de tudo e há pessoas que têm tudo para ser felizes e não conseguem, enquanto outras são felizes com pouco, mas para elas é tudo, basta ter um bom ambiente familiar e ter amigos o resto vem por acrescimo.

Paula Crespo disse...

Sagitário,
É claro que o mundo é composto de todas estas variantes e, se assim não fosse, que graça teria, não é?!
Concordo quando refere um bom ambiente familiar. Isso diz tudo, aí estará tudo, de certeza. Resta deslindar o que se entende por isso... penso que para o ambiente ser bom tem de haver, entre outras coisas, compatibilidade (isto engloba muita coisa, de facto).
Bjs