terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O tédio nas suas vidas...


Estes russos devem estar loucos!!

Foi com grande espanto que li na revista Visão, nº 776 de 2008/01/17, uma notícia verdadeiramente surreal.
Segundo rezava a mesma, há uma boa parte de novos-ricos russos que, não tendo em que ocupar as suas vidinhas e mortos de tédio, resolveram matar o tempo com actividades que classificam de radicais. Não, não se trata de parapente, rafting, ou qualquer outro tipo de desporto mais ousado. O que lhes dá adrenalina é fazerem passar-se por mendigos nas ruas de Moscovo ou noutra grande cidade do antigo império dos czares (e da República de Mao), misturando-se com os verdadeiros sem-abrigo! Assim, e como falta de imaginação é coisa de que o ser humano não padece - especialmente se lhe cheirar a uma nova oportunidade de negócio -, houve logo quem criasse uma empresa do género de "A vida é bela", só que desta feita com contornos mais disparatados do que a citada, já se vê, que esta até promove distracções interessantes (apesar dos preços o serem menos...).

Entreter os cerca de 100 000 milionários é a função desta empresa, gerida por um ex-psicólogo (quem sabe, sabe...). A oferta de animação contempla múltiplas variantes, desde corridas de baratas, duelos de capa e espada, guerras de paintball de helicóptero (!), entre outras extravagâncias e bizarrias. mas a mendicidade postiça é a diversão mais apreciada, onde ganha quem mais esmolas conseguir recolher (ou não fossem eles fazedores de dinheiro!).

Um ultraje para quem é pedinte por obrigação, para quem não tem de comer, onde morar, quem o ame.

Pena que Fernando Pessa não esteja já entre nós, senão certamente o ouviríamos dizer: ""E esta, hem?!..."

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O neo-realismo no museu...

O Museu do Neo-Realismo abriu ao público a 20 de Outubro de 2007, em Vila Franca de Xira. Centro cultural (através de uma dinâmica e polivalência atribuída, cada vez mais, aos museus), alberga uma biblioteca e um auditório, entre outros espaços. Na biblioteca, especializada na temática neo-realista, destacam-se primeiras edições, publicações periódicas, e espólios de autores do movimento neo-realista ligados à literatura e às artes plásticas, bem como alguns espólios editoriais. O auditório é um espaço onde são promovidas iniciativas culturais, tais como leituras públicas, debates, colóquios ou ciclos de cinema.

A propósito de Neo-Realismo, transcrevem-se três definições retiradas de três dicionários diferentes e que são utilizadas no Museu, como introdução ao tema:

"Neo-realismo: movimento literário, surgido em Portugal no terceiro decénio do séc. XX, que, inspirado na literatura norte-americana de preocupações sociais e no romance regionalista brasileiro, procurou instaurar uma literatura comprometida com os princípios do realismo socialista, tematizando sobretudo as condições de vida dos camponeses." in: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Lisboa, Círculo de Leitores, 2003

"O neo-realismo literário pode definir-se como um movimento que se desenrolou aproximadamente entre finais dos anos 30 e finais dos anos 50 deste século [XX], num contexto particular, correspondendo a parte do tempo histórico-político do salazarismo e sob o signo ideológico e cultural do marxismo." in: Biblos, Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, Lisboa, Verbo, 1999.

"S.M. (de neo-+realismo): movimento artístico, literário e filosófico que floresceu no pós-guerra, propondo uma revalorização do realismo tradicional e que, inspirado no materialismo dialéctico, procurava representar e dar voz aos anseios das camadas proletárias." in: Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa, Editorial Verbo, 2001, Vol.2

Ainda a este propósito, remeto-vos para um post do crítico de arte Alexandre Pomar, O museu da arte-e-literatura comunista? no seu blogue, sobre o conceito de neo-realismo, a expressão desta corrente artística e literária em Portugal e o novo museu agora criado.

Neste Museu estão patentes ao público várias exposições, das quais destaco duas:

A primeira, que ocupa o 2º e 3º pisos do Museu, Batalha pelo Conteúdo – Movimento Neo-Realista Português, estará disponível até Outubro de 2011, e pretende dar uma panorâmica sobre o movimento neo-realista português nas diversas áreas - literatura, artes plásticas, música, teatro e cinema. É com o som e as imagens das gravações de Acordai!, (Coro de Fernando Lopes-Graça, durante o 1º de Maio de 1974), do último e emblemático concerto de Zeca Afonso no Coliseu, a 29 de Janeiro de 1983 e, finalmente, do igualmente memorável concerto de Carlos Paredes em 1992, no Teatro São Luiz, que percorremos uma parte da nossa identidade e da nossa história contemporânea. Desde meados dos anos 30 do século passado, com a génese do movimento reflectindo as questões político-sociais, tanto internacionais (a crescente divisão entre fascismo e comunismo, passando pela Guerra Civil de Espanha, a II Guerra Mundial, ...) como os problemas nacionais (a campanha de Humberto Delgado em 1958, ou a crise académica de 1963, culminando, obviamente, no 25 de Abril de 1974).

A segunda exposição por mim salientada, O Desenho na obra de José Dias Coelho, ocupa o 1º piso do Museu e estará patente ao público até ao próximo dia 6 de Abril.

Alguém se lembra quando Zeca cantava: "... e o pintor morreu"?...


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Top Shelves: medalha de bronze


O jornal inglês The Guardian considerou a livraria Lello, no Porto, como a terceira mais bela livraria do mundo, numa lista de 10 magníficas, e onde figuram, em primeiro lugar a holandesa Boekhandel Selexyz, em Maastricht, e em segundo, a livraria argentina El Ateneu, em Buenos Aires.
Aqui fica o link para o artigo do The Guardian, com as respectivas fotos das outras beldades... Por mim, e sem querer ser facciosa, acho mesmo que a nossa Lello merecia o primeiro lugar, não acham?!...

A Livraria Lello e Irmão, também conhecida como livraria Chardron ou simplesmente livraria Lello situa-se na Rua das Carmelitas, 144 no Porto. A fachada neogótica é do engenheiro Xavier Esteves.
Enrique Vila-Matas, classificou-a como A mais bonita livraria do mundo.

A história da livraria remonta a 1869, ano em que é fundada na Rua dos Clérigos a Livraria Internacional de Ernesto Chardron. Após o imprevisto falecimento de Chardron, aos 45 anos de idade, a casa editora foi vendida à firma Lugan & Genelioux Sucessores.
Em 1894 Mathieux Lugan vendia a Livraria Chardron a José Pinto de Sousa Lello que possuía então uma livraria na Rua do Almada. Associado ao irmão, António Lello, mantêm a Livraria Chardron, com a razão social de José Pinto de Sousa Lello & Irmão, até 1919, ano em que o nome da sociedade muda para Lello & Irmão Lda.
O actual edifício foi inaugurado em 1906, com a presença no dia de abertura de, entre outros, Guerra Junqueiro, José Leite de Vasconcelos e Afonso Costa.
(fonte: Wikipédia)

Para quem não a conhece, espreite só:



quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Enfim, juntos...

Camille (Audrey Tautou) é uma mulher simpática que trabalha como empregada de limpeza e desenha no seu tempo livre. Franck (Guillaume Canet) é um cozinheiro viril e afectuoso, que ama incondicionalmente a avó, uma senhora frágil e engraçada, chamada Paulette. Philibert é um jovem aristocrata, tímido, emotivo e solitário, que vive num espaçoso apartamento que pertence à família. Juntos vão aprender a lidar com as suas dúvidas e mágoas. Vão descobrir novas formas de viver e a força que a união gera.
(CineCartaz Público)

Enfim, Juntos (Ensemble, C`est Tout), é um drama ligeiro, bem-humorado, ternurento, mas um pouco mais do que isso. É, também, uma reflexão sobre a velhice, de uns, e a solidão, de todos. Aparte o já esperado bom desempenho de Audrey Tautou - e do resto do elenco -, Françoise Bertin compõe uma avó octogenária muito expressiva. Um filme mignon...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Para T.
















O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino

Não façam caso que é pequenino
Não façam caso que é pequenino

O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro
Hei-de levá-lo no meu veleiro
Hei-de levá-lo no meu veleiro

Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino
Venham, comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

Quantos sonhos ligeiros
P'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Menino avaro não tenhas medo

Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo
Menino de oiro sou teu amigo

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu p'r'amar
Venham, comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino ....

Venham altas montanhas
Ventos do mar ....

Zeca Afonso


Com estes versos te embalei, naquela manhã de inverno, ensolarada, e nas outras que lhe sucederam.
O meu menino é d'oiro...
Parabéns, Meu Amor!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Em jeito de poema...


Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam , por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou. Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu. Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma implacável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte poderia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.

José Saramago - As intermitências da Morte (excerto gentilmente partilhado pela Gi)

sábado, 19 de janeiro de 2008

Humor no Chiado


Teatro:
A Bíblia - Toda a Palavra de Deus (Sintetizada)

Porque rir faz bem, esta peça é uma boa terapia. Três horas de boas gargalhadas!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

É um blog muito bom...

"Quero agradecer à minha mãe, ao meu pai, ao meus filhos, primos, tios, vizinhos..."

Não, enganei-me, ainda não são os Óscares, mas é o meu primeiro prémio "blogosférico", gentilmente atribuído pela Ka. E como diria a Amália, Obrigada, obrigada, obrigada...
Cumprindo a tradição, passo a nomear sete eleitos para também partilharem este prémio:

Avançando
Infinito pessoal
Os bigodes do gato
Memórias de Adriano
O melhor blog sobre nada
Outono desconhecido
Um portuga em apuros nos trópicos

Vitória...

Vitória de Samotrácia. Escultura de Mármore. Época helenística; início do séc. II a.C. (Louvre, Paris)

A Vitória de Samotrácia, também conhecida como Niké de Samotracia, é uma escultura que representa a deusa Atena Niké (Atena que traz a vitória), cujos pedaços foram descobertos em 1863 nas ruínas do Santuário dos grandes deuses de Samotrácia, na ilha do mesmo nome, no Mar Egeu. Fazia parte de uma fonte, com a forma de proa de embarcação, em pedra calcária, doada ao santuário provavelmente pela cidade de Rodes. (fonte: Wikipédia)

Esta mulher alada é uma imagem que vagueia nos meus pensamentos, recorrentemente. De tão divulgada, poderia perder impacto, quando contemplada ao vivo. Contudo, é precisamente o contrário. Recordo quando a vi no Louvre, há muito; a impressão causada foi esmagadora, teatral, de um efeito dramático intenso. Tão intenso que sobrevive e se sobrepõe no meu espírito a muitas outras descobertas artísticas mais recentes.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Expiação

No dia mais quente do Verão de 1935, Briony Tallis, uma jovem de 13 anos, vê a sua irmã mais velha, Cecilia (Keira Knightley), despir as suas roupas e mergulhar na fonte do jardim da sua casa de campo. Junto a Cecilia, está o filho do caseiro, Robbie Turner (James McAvoy), um amigo de infância que, tal como com a irmã de Briony, se diplomou recentemente em Cambridge.
No final desse dia, a vida dos três personagens terá mudado para sempre. Robbie e Cecilia terão ultrapassado uma fronteira, da qual nunca antes tinham ousado sequer aproximar-se, e ter-se-ão tornado vítimas da imaginação vívida da jovem. Briony, por seu lado, terá cometido um terrível crime, que procurará expiar toda a sua vida…

Atonement (Expiação). O livro de Ian McEwan, considerado um best-seller, foi adaptado a cinema, chegando agora às salas portuguesas. Também o filme promete partilhar do mesmo destino da versão escrita, oferecendo-nos uma história muito bem narrada, em que o permanente recurso ao flash-back imprime um ritmo próprio à acção. A intensidade dramática é mantida ao longo de todo o filme através de um clima misterioso, nublado, ditado pela tragédia da história. Bem interpretado mas, sobretudo, extremamente bem realizado, candidato a sete globos de ouro, é um filme inteligente, que nos enche de prazer e que não esquecemos, transposta a porta do cinema...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Jesse James: a lenda é uma mentira...


O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford
Título original: The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford
De: Andrew Dominik
Com: Brad Pitt, Mary-Louise Parker, Brooklynn Proulx, Casey Affleck

Um dos mais famosos bandidos americanos, muitas histórias foram escritas sobre o lendário Jesse James (Brad Pitt). Em 1881, Jesse tem 34 anos. Enquanto planeia o seu próximo assalto, o bandido continua a fazer frente aos inimigos que cobiçam não só a recompensa pela sua captura mas também a glória de o terem vencido. Mas a maior ameaça pode estar no seio do seu grupo de aliados.
Jesse pode não passar de um criminoso para aqueles que roubou e para as famílias dos que assassinou, mas ao mesmo tempo o bandido é também alvo de admiração: uma espécie de "Robin dos Bosques" que assaltava bancos e proprietários dos caminhos-de-ferro que exploravam os pobres agricultores; um soldado injustiçado que se vingava de quem lhe tinha destruído a vida, um espírito livre. Entre os seus admiradores estava Robert Ford (Casey Affleck), um jovem que sonhava com o dia em que cavalgaria ao lado do seu ídolo.
Quem terá sido realmente Jesse James? E quem foi Robert Ford, este jovem que, com apenas 19 anos, se tornou no cobarde que alvejou Jesse pelas costas, abatendo a lenda que dez estados não tinham conseguido capturar. O que terá acontecido nas horas que antecederam o tiroteio? Será que algum dia se saberá toda a verdade?
(Cartaz Público)

O tempo custa a passar, arrasta-se, pesa. Respira-se o frio do Inverno e sente-se a crueza da vida no Oeste americano, inóspita, que molda as gentes e lhes traça o destino.

A narrativa serve-nos uma história sobejamente conhecida, em que uma morte anunciada é-nos avançada aos poucos, narrativa feita de avanços e recuos que mantêm a tensão.

Segundo o próprio realizador, este filme é mais um filme de gangsters do que um western. O efeito da fama sobre os homens é, talvez, o ponto fulcral: se, por um lado, Jesse James, vítima do seu próprio mito, pressente que o seu fim está próximo e apenas aguarda (ou determina?) quem o irá matar (perpetuando, assim, o seu mito), Ford, o assassino, acaba por confidenciar que, matando-o, "esperava os aplausos"... A proclamada cobardia de Ford é uma injustiça, assim como injusta será a fama de Jesse, pois que não passa de um pistoleiro, frio e perturbado, que encurrala Ford na sua teia e o "obriga" a cumprir-lhe o destino.

Numa altura em que os westerns já estão - há muito! - fora de moda, surgem agora três estreias: O assassínio de Jesse James..., O comboio das 3 e 10 e, a estrear brevemente, Este país não é para velhos. A indústria cinematográfica aposta, cada vez mais, nos efeitos especiais e na velocidade da acção, o que não se compadece com o ritmo naturalmente lento de um verdadeiro western porque, como será fácil de imaginar, o quotidiano nos finais de dezanove, perdido algures no imenso Oeste, não seria propriamente muito agitado... É, pois, um remar contra a corrente, um desafio abraçado por realizadores que acreditam que os filmes não podem encostar-se aos clichés de que os espectadores gostam, necessitando do rigor e da audácia que uma comédia ou uma película de acção dispensam. A exigência que paira sobre o realizador também é diferente: não fazer um êxito de bilheteira, apenas um filme forte e verdadeiro (revista Visão, nº 774, 3 Jan.2008, p. 105).