Deve de ser da crise: não há quem não se queixe, até o nono filho do alfabeto já apresenta sintomas de depressão e anuncia publicamente que vai mudar de vida. Divirtam-se!
quarta-feira, 18 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Um bairro daqui...
São ruas do sul, ruas de gentes morenas, ruas com gatos e buracos e pequeninas lojas de linhas e botões. E muito sol. São ruas com peixe assado e tiras de entrecosto. São ruas com roupa estendida à janela, em prédios de três andares e águas-furtadas. São ruas com carris de carros eléctricos, uns que ainda passam, outros que já não… São ruas que não entendem estrangeiro, não acolhem executivos fardados de cinza, nem percebem o porquê da crise financeira. Estas ruas não são de agora mas sim de um qualquer filme neo-realista italiano, sem a atitude padronizada dos dias de hoje, mas com o sentimento de sempre.
Passo por elas e vem-me à memória o fado de Mariza:
Oh gente da minha terra
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Outras leituras para este Leitor...
Este é o cenário inicial de O Leitor (The Reader), um filme que, segundo quase todos, nos transporta para os dramas do Holocausto e de uma Alemanha envergonhada e traumatizada pela sua História recente. Verdade mas redutor, a meu ver, já que este filme diz muito mais do que isto. Senão vejamos:
Um adolescente de 15 anos (Michael Berg) conhece por acaso uma mulher, com cerca de 35 (Hanna Schmitz). Apaixona-se por ela e vivem uma relação, naturalmente clandestina. Até aqui nada de novo, não fosse o caso de ela gostar que lhe lessem livros e vivesse essas histórias de forma tão intensa como se assistisse a uma peça de teatro que muito lhe dissesse. A relação entre ambos prossegue, a um ritmo comandado por ela e estimulado pela leitura dos clássicos que ele lhe faz chegar. Um belo dia, ela desaparece sem deixar rasto e, oito anos mais tarde, ele descobre-a como ré num julgamento de um caso de Holocausto, onde ela se lhe revela como tendo sido guarda prisional em Auschwitz e tendo sido co-responsável pela morte de prisioneiras judias.
Esta é a história óbvia do filme, trazendo para a boca de cena uma vez mais os dramas da II Guerra Mundial, tema aliás ressuscitado ultimamente por outros filmes como Resistentes, O Rapaz do Pijama às Riscas ou ainda Valquíria. Contudo, o aspecto mais interessante e talvez mais inovador desta história reside no perfil psicológico da personagem de Hanna, uma mulher que aparenta uma origem talvez rural, analfabeta, e com um quadro mental muito próprio, em que o seu analfabetismo lhe dita as regras de conduta e lhe confere padrões éticos diferentes dos das outras pessoas. O seu ar sofrido leva-nos a pensar que se envergonha do seu passado como guarda prisional. Puro engano. Hanna apenas se limitou a cumprir a sua função o melhor que sabia e este ar sofrido advém antes de uma contenção de carácter, da sua obsessão em esconder o seu analfabetismo, limitação essa que, a seus olhos, a diferenciaria dos outros, qual alien de outro planeta.
A moral, a ética do direito (patente no respeito que a personagem Michael Berg revelou ter por ela, enquanto ré, ao não revelar o segredo de Hanna: a sua incapacidade para ler), o rígido quadro psicológico dela, que até na sua morte se revelou, uma vez mais, coerente (tem de morrer já que foi condenada a prisão perpétua...) são, quanto a mim, as pérolas deste filme que, não sendo arrebatador, promove uma reflexão muito interessante.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Small talk para dias cinzentos...
Tenho que aprender a falar, pensou. Aprender a gastar palavras pequenas, juntá-las em comboios formando frases conhecidas, daquelas que toda a gente reconhece facilmente e sem esforço, daquelas que não obrigam os outros a pensar muito, ou sequer a pensar um pouco, e para as quais toda a gente conhece antecipadamente as respostas. Confortáveis frases, sobre banalidades, queixumes recorrentes e inconsequentes, dos tais que existem apenas para preencher o vazio da falta de palavras com mais sentido, enjeitadas pelas bocas e cabeças de muitos.
Esgotou o tema tempo, estafou-o, falou dele até à exaustão que a chuva e o vento lho permitiam. Deu-lhe uma boa parte da manhã, nos encontros repetidos e rotineiros de todas as manhãs. Trocou as nuvens carregadas pelo desejo do sol ausente, e regressou à neblina do vazio de palavras sem sentido.
Faz pela vida, continuou pensando. Constrói uma vidinha de pequenos nadas, enquanto esperas pelos grandes, desconhecidos, e aprende a falar do tempo, dos gatos, da vizinha da frente ou do lado ou de cima. Sobe e desce no elevador as vezes que forem precisas para ganhar coragem, ou ritmo, ou tema para estas coisas nenhumas que enchem o dia-a-dia. Aprende o interesse dos outros, para que se interessem por ti: um pequeno nada no meio de tanta coisa nenhuma, grande, imensa, sufocante, que tanto os atrai.
Inscreve-te. Faz parte. Corre, corre…
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Inconformismos
Revolutionary Road, de Sam MendesEstreou há dias o último filme de Sam Mendes, o homem que já tinha realizado Beleza Americana, esse filme espectacular sobre o modo de vida da classe média dos States. Tema recorrente este, já que é também sobre a classe média americana e sobre a vidinha caseira, pacata e ordeira de um casal dos anos 50 que Sam Mendes nos conduz o olhar.
Subúrbios de Connecticut, 1955. A vida do casal Wheeler não corre sobre rodas. Vida organizada, de um casal com dois filhos e um emprego estável, não chega, no entanto, para satisfazer as aspirações desta dupla que se julga de certa forma “especial”. O mote “Paris” surge nas suas conversas como um escape, uma libertação, um ideal de liberdade e uma promessa de uma vida cheia, plena de satisfação pessoal, em contraponto com aquela pacatez e monotonia americana de subúrbio ajardinado e soalheiro, em que os dias se adivinham iguais e sem estremecimentos. Ao terem mudado para Revolutionary Road (a morada da casa que alugaram quando nasceram os filhos e onde resolveram instalar-se), não poderiam imaginar, contudo, em como este nome lhes seria premonitório. Um autêntico caminho revolucionário, que rimava com a ideia de tudo abandonarem e recomeçarem a vida em Paris, onde ela trabalharia e ele teria tempo livre para descobrir o que quereria fazer da sua vida, revolucionando por completo o sistema, o American Dream, que ditava que o homem era o cabeça de casal e, por isso, que a ele cabia sustentar a família; que ditava, também, que uma família com filhos deveria pautar o seu quotidiano por um ramerrão sossegado; que ditava, ainda, que era normal aceitar-se um emprego estável, ainda que completamente desinteressante, e que a fogosidade de outros voos ficava vedada aos casados com responsabilidades familiares.
Sonho e realidade. De que maneira é que o sonho se pode tornar realidade ou, pelo contrário, será que se trata de duas situações antagónicas e inconciliáveis... No caso dos Wheeler, a “revolução” contra o conformismo que pensavam levar a cabo não viu a luz do dia e transformou-se no maior pesadelo das suas vidas.
Adaptado do romance de Richard Yates, os diálogos exprimem, assim, um sabor literário muito interessante. Com uma realização muito bem conseguida, através de planos em que a acção decorre de forma suficientemente explícita mas sem que o óbvio nos seja servido de bandeja, a empanturrar-nos com finais de diálogos desnecessários, e de uma composição de personagens perfeita, em que todas elas têm uma função bem definida, este filme revela-se como um dos melhores dos últimos tempos. De salientar o excelente desempenho de Kate Winslet, no papel da protagonista insatisfeita e sonhadora e de um Leonardo DiCaprio maturo. A personagem do vizinho louco, interpretada por Michael Shannon, faz-nos lembrar um pouco o Coro das tragédias gregas, a voz da consciência, aquele que goza da liberdade para dizer a verdade, sem se intimidar pelo discurso das conveniências sociais.
Um filme que merece as cinco estrelas. Uma reflexão absolutamente imperdível.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
A Coragem e o poeta fingidor...

mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Palavras sem sentido
Seriam palavras sem sentido mas ainda assim tinha-lhes afeição, vá lá saber-se porquê!, e isto de deixar palavras soltas por aí era coisa que não me agradava… Até porque a sorte dessa mulher que esperava ouvir o seu nome ditado pelo altifalante do consultório médico começava a angustiar-me; essa espera prolongada não me estava nos hábitos e deixar alguém assim entregue à sua sorte afligia-me.
Saltitava entre ideias, enredada em começos de outras histórias, todas elas embrulhadas em inícios estranhos e com fins duvidosos, ao mesmo tempo que uma mulher sentada numa sala de espera de um qualquer consultório permanecia no meu espírito. Preocupava-me. Já a conhecia há algum tempo e pressentia-a ansiosa, de vinco na testa, consultando o relógio a cada trinta segundos e apurando o ouvido na esperança do nome anunciado. Mas nada.
Pensei chamar alguém que viesse em meu auxílio: não um médico ou enfermeiro, que para isso lá continuaria a mulher sentada na sala de espera do consultório, que era para esse fim que tinha encaminhado os passos, mas de outro tipo de auxílio, talvez mais técnico, talvez informático, que uma mulher sozinha, perdida entre bits e bites, angustiava-me.
Cá está ela, sentada. É alta e magra, e leva a mão ao cabelo num tique repetido amiúde, compondo uma madeixa teimosa que lhe descai sobre a testa. Os olhos vagueiam por uma revista fora de prazo que segura sem convicção, voltando as páginas para a frente e para trás.
Um nome surgiu no altifalante. Era agora. Levantou-se, pegou na mala atafulhada de inutilidades diárias, na gabardine e seguiu. Seguiu em frente até virar no corredor à esquerda e desaparecer numa porta estreita com uma maçaneta quebrada.
Voltou passados vinte minutos. Da conversa dentro de portas não adivinhava o rasto, somente o seu ar preocupado deixava antever um resultado menos feliz, ou mais apreensivo. Dirigiu-se ao balcão e recebeu um carimbo num papel, outro noutro e saiu, passando a curta distância de mim que a observava. Olhava-a... Para onde iria ela, que caminho seguiria? Não sabia, mas as ideias surgiam-me calmas, primeiro cinzentas, esfumadas, depois carregando um pouco mais nos tons, ganhando forma. Certamente iria para casa, colher o aconchego de um calor familiar que lhe lamberia as feridas da alma provocadas por uma notícia mais preocupante. Ou certamente, ainda, iria trabalhar, calando a mesma notícia preocupante que procuraria disfarçar num rosto sem expressão, para deixar à porta do gabinete o que lhe martelava o cérebro e lhe dificultaria a concentração. Ou, certamente também, nem uma coisa nem outra, antes encaminharia os passos para uma qualquer rua apinhada de gente, onde se esconderia na multidão e não teria de se preocupar em escolher um rosto diferente para mascarar a preocupante notícia que acabara de ouvir. Ou, com toda a certeza ainda, apressaria o passo em direcção ao laboratório recomendado e anularia as dúvidas numa outra certeza mais desejada.
O altifalante na sala de espera continuava a debitar nomes que ganhavam corpo e se levantavam, em direcção ao corredor com portas estreitas. Já só tinha uma pessoa à minha frente para ser atendida. Deitei uma olhadela à mala, à gabardine bege que tinha pousado na cadeira a meu lado e fiz recolher esta mulher de rosto preocupado para dentro da pasta de documentos, não sem antes ter escrito um ponto final. Desliguei o computador e fechei a tampa. O altifalante debitou então um nome que identifiquei como meu.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Convívios a sépia...

Nunca teve nenhuma predilecção por esta jovem mulher, reconhece. Possivelmente porque ela lhe chegou já datada, fora da sua época… E possivelmente também porque o rótulo que lhe colaram não coubesse na galeria daquilo que tinha por certo admirar. Por isso, a estranheza desta presença agora, tão próxima, partilhando um espaço destinado ao sono e ao sonho. Talvez porque os tons sépia do ambiente em que a jovem mulher retratada, aprisionada nesta moldura, vivia, rimassem com os tons do cortinado que quase lhe sussurrava confidências, de tão próximo que estava. Sim, só pode, confirmou para si própria sem se envergonhar.
Voltou a olhar na direcção da mesma e fixou-se nos caracóis dourados, transformados num indefinido branco luminoso por conta dos tons sépia dominantes no tal ambiente em que vivia a mulher jovem. Eram de algodão, pensou, e quase se sente a macieza do toque. Voltou-se para o outro lado, entreteve-se com outros pormenores que nada tinham a ver com esta história, mas o seu olhar voltou a pousar sobre esta superfície em tons sépia e no jogo de sombras que envolviam esta mulher jovem. Agora era a voz que, por certo, lhe sairia pequena, num sopro. Voltava a olhar em direcção a tudo o que se estava a passar dentro daquela moldura e sentia como se estivesse numa sala de espectáculo, momentos antes do início de um concerto, em que todos os instrumentos falam por si, num diálogo de costas voltadas, numa afinação com um objectivo comum. Também aqui se adivinhava um objectivo comum, um som comum, apesar da algazarra de vozes que, surdas, se escutavam através de um olhar em direcção à moldura grande em tons sépia.
Decidiu que era tarde e apagou a luz. Tentou pôr um ponto final ao cobrir de negro os tons sépia onde vivia aquela personagem que sempre lhe fora tão estranha. Apesar do negro, continuou a ouvir as vozes que saíam desta moldura e que contavam histórias. Vozes de um passado, todas em tons sépia...
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

Se eu fosse uma esferográfica, gostava de ser brilhante, como uma estrela de cinema.
Adorava escrever a palavra “Mena”.
Saber escrever todas as palavras, até mesmo as inglesas.
Gostava de escrever sempre em papéis às cores.
(Texto redigido aos 9 anos de idade, durante uma aula do 3º ano de escolaridade, no Jardim-Escola João de Deus, na Primavera de 1998).
Gostava de ter tido a capacidade de escrever este texto com a mesma idade mas não tive. Aqui fica a homenagem, através das suas próprias palavras, precoces, belas e inocentes. Precisamente à mesma hora em que nasceu. Hoje, aos vinte anos, continua com o mesmo sorriso e o olhar ainda inocente de quem muito tem ainda para viver. Porque hoje é o primeiro dia do resto da sua vida…
Parabéns, meu amor!
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
No sentido inverso ao dos ponteiros do relógio…
Life can only be understood backward...
... it must be lived forward
Num registo que faz lembrar o realismo fantástico sul-americano, esta história constrói-se como que num delírio, à primeira vista apetecível, mas que cedo se revela um verdadeiro pesadelo, pois viver ao contrário dos outros, num tempo próprio e invertido, compromete o futuro, tornando-o desacompanhado daqueles de quem gosta, vendo morrer os mais velhos, aqueles que percorrendo a vida em frente, acompanha caminhando para trás, em direcção a uma juventude e infância que ditarão o seu fim.
Não é o primeiro nem será o último filme a centrar-se na questão do Tempo. Lembro-me, por exemplo, de A Segunda Juventude, de Francis Ford Coppola, em que um homem de 70 anos mantém uma vitalidade de um de 40, e que em vez de envelhecer, rejuvenesce.
O Tempo dá pano para mangas. O Tempo, esse ditador, elemento que nos norteia a existência, nos condiciona. Um verdadeiro quebra-cabeças...
Stand by me...
Playing For Change: Song Around the World "Stand By Me"
Para começar bem a semana, aqui fica a voz de muitos, para sorriso de todos...
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Assim falou D. José...
Sinceramente, penso que era este o sentido das palavras de D. Policarpo e não outro. Sinceramente, também penso que os “indignados” também assim o entenderam. Sinceramente, parece-me que estamos perante uma tempestade num copo de água…
Ou como ironizava uma senhora que conheci em tempos: “Se se pode complicar, para quê fazer simples?!...”
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A ver navios...

Estás a ver aquele paquete? Já viajei num deles. Fantástico, adorei!, gabava-se justamente um, invocando as suas memórias de dias felizes, a bordo e na companhia dos seus. Aquilo é que é vida!, continuava. Ora, nada melhor do que partir com uma mochila às costas, dizia outra. Virei-me e, involuntariamente, franzi o sobrolho, desacreditado: justamente aquela que nada nem ninguém previa que tivesse esse tipo de memórias, de experiências. A resmungona crónica, sempre sombria, sempre a protestar por tudo e por coisa nenhuma. Quem diria!, pensei. Não era fácil imaginá-la assim, gaiata e ligeira, a carregar uma mochila às costas por um qualquer monte europeu, gozando dos prazeres da descoberta. Sendo feliz, em suma.
E a conversa continuava, livre e leve. E mais isto e mais aquilo e mais outra experiência. Conheces…? Ah sim, já lá estive… E foste…? Por acaso aí não cheguei, mas vi o…e a…
Passados poucos dias outro paquete desfilava no rio e outra conversa surgia, a propósito. As memórias de viagens abrem-nos sempre o sorriso e desenham no nosso espírito pensamentos coloridos, dos tais que pintam os dias de Inverno. Que nós por cá não nos podemos queixar muito, que nesta cidade, cheia da claridade reflectida neste rio lindo, os dias cor de cinza quase se contam pelos dedos. E quando chegam enchem-nos de birra, ficamos sem disposição para nada a não ser suspirar pelo sol e pedir contas a S. Pedro por tamanho castigo. E aí, voltamo-nos para o rio a olhar os navios ou abrimos a agenda grande para percorrer o mapa, que o “vá pelos seus dedos” é a opção mais à mão…
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Dos sonhos aos Reis…

É tempo de Festas, das tais que nos trazem bolos e tradições e memórias. Tempo de arroz doce e filhoses, bolo-rei e sonhos. Vários. Sempre gordos e com muito açúcar e canela, daqueles que nos dá prazer lambuzarmo-nos e carregarmos depois o sentimento de culpa da certeza de mais uns quilos no corpo.
Tinha a mesa posta desde o 24, desde a Noite, a tal, e assim permanecia até ao Dia de Reis. Quem sabe não aparece por aí alguém hoje…, voltava a pensar. E escutava o tiquetaque do relógio de parede, cadenciado nas horas, as completas e as meias, e depenicava uma noz, de quando em vez.
Ela, a outra, cresceu a ouvir o tiquetaque do relógio de parede, que fazia companhia à mesa posta com os sonhos e as filhoses e o arroz doce. Acompanhou, sem grande partilha, uma espera de bocas alegres que tudo comeriam, com gula e satisfação, por entre beijocas repenicadas e o barulho do desembrulhar dos presentes. E os laços no chão. E as fitas.
Por entre os dias, um ou outro alguém ia aparecendo para saborear o doce da época e se regalar com a iguaria servida. Entrava e saía, distribuía sorrisos e prendas, largava uma beijoca e um Até breve! recebido com carinho mas na certeza de um retorno mais largo.
No Dia de Reis é tempo de levantar a mesa e de guardar os sonhos que sobraram; os bons, que os outros já não prestam. Dobrar a toalha e sacudir o açúcar derramado. E não esquecer de acertar o relógio de parede, para que o tempo chegue a horas certas.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
No banco com Pietro
E subitamente, a sua mulher desaparece, numa morte não anunciada. Passado o choque da surpresa amarga fica o vazio, desconcertante, e uma filha de 10 anos que pede cuidados redobrados, numa atenção que visa atenuar de alguma forma a perda da mãe.
A partir do momento do acidente, Pietro, agora pai e mãe de Cláudia, descura o emprego de sucesso, alheia-se, perde-se na dor que por vezes duvida que verdadeiramente sente, e centra a sua atenção na filha. Sem plano prévio vai-se deixando ficar sentado num banco de jardim em frente à escola de Cláudia, onde passa os dias. Devagar e sem pressas, o seu mundo é totalmente transferido para estes escassos metros quadrados sob o verde, por onde passam, rotineiramente, algumas personagens que habitam aquele espaço e que com ele vão criando laços: uma mãe que traz pela mão um filho deficiente mental que se habitua a um inofensivo jogo com o carro de Pietro; uma rapariga loura e bonita que todos os dias passeia o cão no jardim; o dono do pequeno café onde Pietro passa a almoçar; a professora de Cláudia que o vai pondo ao corrente da evolução da filha na escola...
Por este banco de jardim vão desfilando todas as outras personagens da vida de Pietro, do irmão à cunhada, passando pelos colegas de trabalho que o visitam no seu novo "escritório" para desabafar, e terminando numa estranha mulher que ele salvou de morrer afogada numa praia e que cruzou uma vez mais a sua vida com a do protagonista da história.
Caos calmo, realizado por Antonello Grimaldi, baseado no romance de Sandro Veronesi. Na senda de O quarto do filho, Nanni Moretti disserta uma vez mais sobre a dor da perda e sobre as mudanças que essa perda pode acarretar. Neste caso, um caos calmo, já que aparentemente muito controlado e sem lágrimas, quase levantando a suspeita de uma ausência de sofrimento. Esta pausa que acaba por fazer no seu quotidiano permite-lhe a reflexão e um olhar sobre os pequenos nadas e sobre o seu passado. Uma caminhada na descoberta dos outros.





Espectáculo Final da Escola de Dança do Conservatório Nacional
Teatro Camões
2 Jul: 21h, 3 Jul: 16h, 21h, 4 Jul: 16h
Curtas 2010 - II Mostra de Teatro de Peças de Curta Duração
Traseiras do Mercado da Ribeira, Lisboa
Até 4 de Julho
XI Grande Noite de Ballet Flamenco
Teatro Tivoli
10 de Julho, 21h30

