segunda-feira, 2 de março de 2009

Um bairro daqui...


Este bairro tem ruas antigas, com passeios de pedrinhas, tortas, e tascas, e trolhas. Muitas tascas, atafulhadas de homens (quase só homens entram e comem nestes lugares esconsos e estreitos). São os restaurantes dos homens de prato cheio e de assador à entrada. Sempre me intrigou a atracção deles por este tipo de lugares. São ruas também povoadas por muitos trolhas, descansando entre o meio-dia e a uma da tarde, de mini na mão e beata no canto da boca. E na boca piropos foleiros, antiquados e desusados, que largam sempre que um par de saltos altos lhes passa diante do queixo. Num dia que passou há pouco houve um, contudo, que me fez sorrir, de naif que era: “Ó menina, passe por aqui mais vezes…”, saiu-lhe.

São ruas do sul, ruas de gentes morenas, ruas com gatos e buracos e pequeninas lojas de linhas e botões. E muito sol. São ruas com peixe assado e tiras de entrecosto. São ruas com roupa estendida à janela, em prédios de três andares e águas-furtadas. São ruas com carris de carros eléctricos, uns que ainda passam, outros que já não… São ruas que não entendem estrangeiro, não acolhem executivos fardados de cinza, nem percebem o porquê da crise financeira. Estas ruas não são de agora mas sim de um qualquer filme neo-realista italiano, sem a atitude padronizada dos dias de hoje, mas com o sentimento de sempre.

Passo por elas e vem-me à memória o fado de Mariza:

(...)
Oh gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi
(...)

34 comentários:

Oliver Pickwick disse...

Tenho dúvidas se há tristezas nestas ruas tão bucólicas. A propósito, acho que deveria passar lá outras vezes. ;)
Um beijo!

Paula Crespo disse...

Oliver,
:)
Bjo

LB disse...

Um belo retrato!
"Ó menina, passe por aqui mais vezes..."! :)

Paula Crespo disse...

LB,
Acha que é um belo retrato? Ok, vou confiar... :)
Por aqui passarei, espero... ;)

once disse...

e eu passeei agora na cidade que descreves Paula .. e até senti o cheiro da febra no carvão.

:)

Anagrama Orgânico disse...

Deixe o fado de centro comercial e dê 5 minutos 'a Cristina Branco.

:)

M.

Paula Crespo disse...

Once,
E isso foi à hora de almoço, presumo! :)
Bjs

Paula Crespo disse...

Anagrama,
Cristina Branco? Também.
De centro comercial? Parece-me mázinha, mas são opiniões... ;)

Agry disse...

o caldo verde, verdinho, o serôdio encontro às dez e…o piropo “ à maneira”.
Já tinha saudades de a ler
Bjs

Paula Crespo disse...

Agry,
A trilogia perfeita... ;)
Seja bem regressado! :)
Bjs

paulofski disse...

As ruas de um bairro de Lisboa, pode ser o Bairro Alto como pode ser o Bairro da Sé do Porto ou o da Ribeira. Humildes, na traça e na candura, na sabedoria e na cultura bairrista.

Belo texto.

Paula Crespo disse...

Paulofski,
Podia ser qualquer um dos que referiste, apesar de haver algumas especificidades em cada um deles, que os distinguem. Marcas próprias que conferem identidade, tendo o povo por sujeito e séculos de história e de vivências, como pano de fundo.

legivel disse...

... um retrato fiel (e porque não poético?) de um bairro lisboeta de ontem, de hoje e quem sabe? de sempre.


O fado é de Amália Rodrigues, diz-me a minha memória de alfacinha entradote.

Óptimo resto de semana!

Paula Crespo disse...

Legível,
Sim, a letra é de Amália que, apesar de tudo, permanece ainda sem sucessora...
Bom fim-de-semana!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Paulinha

Desapareceste. Nunca mais te vi pelA Minha Travessa. Emigraste para a Patagónia? Fugiste para Katmandu? Refugiaste-te em Paio Pires?

Quando voltas? Tenho soidades tuas. À Marisa posso ouvir nos mais diversos suportes... Mas a tu (olá, será ti???) não.

Qjs

Luis Eme disse...

mas a rua deixou-te a sorrir e a pensar num fado, Paula...

bjs

Luis Bento disse...

É uma espécie de mim que fica aqui... aos poucos... em cada uma das suas criações!

Paula Crespo disse...

Henrique,
:)
Dessas todas posso escolher a Patagónia?!... ;)
Voltarei sim, aos poucos, a esse blogue e a outros também... :)

Paula Crespo disse...

Luis Eme,
E, ao contrário das ideias feitas e dos clichés, o sorriso pode combinar com o fado, não achas?... :)
Bjs

Paula Crespo disse...

Luis Bento,
Ah é? Também? Que bom, ter algum eco nos outros... :)

JOSÉ NEVES disse...

São locais bem típicos e que sem dúvida darão uma bela reportagem fotográfica.
Um dia destes ainda me vou perder por esses cantos e recantos...

Beijinhos minha amiga, votos de um excelente fim de semana.

mariam disse...

Paula,

gosto tanto 'dessa' Lisboa! obrigada por este post fantástico!

Tenha um dia muito Feliz! seguido de muitos outros não menos fantásticos!

deixo um abraço, o sorriso de sempre e 'saudades'!
mariam

Luis Bento disse...

A voragem do consumo e da globalização, infelizmente, tende a fzer desaparecer essas ruas... algumas parecem com néons e fachdas modernas ostentando caixilharia de alumínio...Temos que as preservar, antes que sejam só memória..

Pedro Barata disse...

Excelente, como sempre...
Beijinhos

Paula Crespo disse...

José,
A cidade está cheia de recantos fotogénicos e que merecem um olhar atento.
Bjs e boa semana!

Paula Crespo disse...

Mariam,
Também eu...
Que o seu "8" tenha sido também muito especial... e que vá do 8 ao 80! ;);)
Bjs

Paula Crespo disse...

Luis Bento,
Pois, é a tal normalização de que eu falei no post...
Temos sim de preservar a memória e começar por preservar as fachadas e tudo o resto, ajuda!... :)
Bjs e boa semana.

Paula Crespo disse...

Pedro,
Agradecida... :):)
Bjs e boa semana.

nocas verde disse...

De tudo o que li no seu postal, a Nossa Lisboa das ruelas, a Amália sem regresso, a Mariza com o sentimento, as suas letras com o cheirinho da cor do Tejo...
A minha Lisboa também.
... e se aqui vou ganhar o meu pão, não é demais ser para ti (Lisboa) meu coração...
como dizia a Fernanda Baptista - também já sem regresso.
Obrigada :)

Paula Crespo disse...

Nocas verdes,
Sem regresso mas sempre presentes. Como a luz, a cor e o cheiro da cidade...
Bem lembradas, sem dúvida! :)

Flip disse...

Paula
parece que passáste por um bairro parado no tempo, as gentes que não mudam, o ambiente já acastanhado, os hábitos ainda do tempo da pedra ou pouco mais adiante, os edifícios gastos e velhos, Mas salva-se a alma dessa nobre gente, os seus costumes antigos, e já estou como o malandrim que te deitou aquela boca pirosa Ó menina, passe por aqui mais vezes…” para deitarmos abaixo um 'penalty'... eheheh
beijinho
:-)

Paula Crespo disse...

Flip,
É um pouco isso, sim. Mas antes assim do que a descaracterização de certos bairros.

Diatton disse...

I am crazy about that artist! I do love her! I have uloaded one video of Mariza so far in my blog, but i am about to upload more because i have live concerts of her...

I really liked your post...

Paula Crespo disse...

Diatton,
She's a great singer, indeed.