sexta-feira, 25 de abril de 2008

Abril

Não vou escrever sobre o 25 de Abril;
nem contar como tudo se passou;
nem tecer considerações sobre as várias realidades que lhe sucederam;
nem sobre as tentativas de retorno;
nem sobre as vitórias ou fracassos de uma democracia no berço;
nem sobre as desilusões;
nem sobre as alegrias.

Não vou escrever sobre as portas que Abril abriu (para lembrar Ary dos Santos...), apesar de terem sido muitas.

Muito melhor do que eu alguém certamente já o fez.

Muito de tudo isto está documentado e ao dispôr de quem queira consultar, de quem tenha interesse.

Vou apenas dar os PARABÉNS!

terça-feira, 22 de abril de 2008

Cultura ou não, eis a questão...


Pergunta - Se tivesse que escolher entre um livro e um bom vinho, qual escolheria?
Resposta - A questão que me está a colocar é extremamente cruel. Por que é que quer que eu recuse uma garrafa de um bom vinho por um livro, e por que é que quer que eu recuse um livro por uma garrafa de um bom vinho? Não, eu não recuso nada: fico com os dois.


Era este o início da entrevista de Carlos Vaz Marques a Bernard Pivot. Ontem, na TSF, em Pessoal e transmissível, pouco depois das sete da tarde.

Pivot, 73 anos, conhecido jornalista cultural da televisão francesa. Tornou-se célebre por falar de livros em televisão, em vários programas literários no canal France 2, como Ouvrez les Guillemets, Apostrophes e, o mais famoso de todos, Bouillon de Culture. Nas noites de sexta-feira, cerca de 1 milhão de telespectadores assistiam ao seu programa, tendo entrevistado, em 28 anos de carreira, mais de 6 000 personalidades, de entre as quais Vladimir Nabokov, Charles Bukowski, Marguerite Duras, Alexander Soljenitsin, Marguerite Yourcenar, Lévi-Strauss, Jorge Amado, Jô Soares, Paulo Coelho, Hélder Câmara, Chico Buarque e o fotógrafo Sebastião Salgado.
A conversa transmitida ontem, centrada no tema do vinho (Bernard Pivot lançou recentemente o Dicionário Sentimental do Vinho, editado pela Casa das Letras), focava também outros domínios, como o da literatura. Ambos temas caros da cultura francesa.

O vinho é cultura. Cultura da vinha mas também cultura do espírito. É esta dimensão cultural de um produto de consumo universal que este livro tem a ambição de evocar. Nada ultrapassa o pão e o vinho na memória mítica e alimentar do homem. Os dois estão unidos no trabalho e no repouso, no esforço e no prazer, e sobre a mesa da refeição originária do milagre cristão. O vinho é uma recompensa e um interdito. (in: sinopse do livro, da responsabilidade da Casa das Letras)

Subjacente a esta convicção de que um bom vinho não é um produto menor, quando comparado com a literatura ou outro bem cultural, reside o facto de a cultura do vinho continuar a ser um dos traços mais fortes da identidade cultural francesa. Ambos emblemáticos, fruto de um país que acarinha a sua memória, esteja ela gravada a tinta sobre papel ou engarrafada e servida à mesa.

E para terminar, deixo uma reflexão: o que é para si cultura? Quais os bens mais emblemáticos da cultura portuguesa, dignos de referência?

domingo, 20 de abril de 2008

Vozes do Desassossego...

É oficial: ando em maré de filmes estranhos.

Filme psicadélico, de uma estética contemporânea e arrojada, I'm not there é, sem dúvida, uma abordagem muito própria de uma biografia diferente e fragmentada do grande ícone do rock americano, utilizando técnicas não-convencionais e "colando-se", assim, ao estilo de compor de Dylan.

Cate Blanchett, Richard Gere, Heath Ledger, Christian Bale, Ben Whishaw e Marcus Carl Franklin são os seis rostos de Bob Dylan, seis rostos diferentes, espaços, tempos e registos diferenciados que encarnam as várias "vidas" do compositor-cantor, vozes do inconformismo, fazendo eco das convulsões sociais desse país. Dois tempos distintos e igualmente marcantes na história americana: os anos 60-70, anos de Dylan, anos da revolução das mentalidades, e os anos da conquista americana do Oeste e dos pioneiros, do caminho de ferro, de Billy the Kid. Cada uma destas personagens revela uma das facetas de Dylan, pública ou privada, fazendo também uma viagem pelas várias "Américas" - a conservadora e rural, a dos anos 50, do racismo e dos blues, a América dos hippies e do rock. Das "canções de apontar o dedo" até outras notas, todas elas expressivas dos seus sentimentos de alma; todas elas com um pendor de crítica social e política, independentemente do tom, mais tradicional ou mais ousado, dos seus acordes - nem sempre bem aceite pelos seus fãns.

De registar a participação ainda de Julianne Moore e Charlotte Gainsbourg. E, last but not least, de uma banda sonora fabulosa!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Efabulações sobre o Tempo...


Uma Segunda Juventude(Youth Without Youth)

Dominic Matei é um professor de linguística com 70 anos. Fulminado por um relâmpago, sobrevive miraculosamente. No hospital, enquanto recupera, os médicos assistem com incredibilidade ao rejuvenescimento físico do professor. O rejuvenescimento físico é acompanhado por um desenvolvimento intelectual inexplicável que chama a atenção de cientistas nazis, obrigando o professor a exilar-se. Em fuga, Dominic reencontra Laura, o amor da sua vida, e luta para terminar a sua tese sobre as origens da linguagem humana. Mas quando a sua pesquisa põe em perigo Laura, Dominic é forçado a fazer uma escolha entre o trabalho de uma vida e o seu grande amor.
(Cartaz Público)

Após dez anos de interregno, Coppola regressa num registo completamente diferente do habitual. Adaptado de um romance do historiador romeno Mircea Eliade (1907-1986), que se dedicou ao estudo das religiões, Coppola explora neste filme a noção de Tempo e de dupla personalidade; o Tempo e o início das línguas, também esse início, a meu ver, explorado como marco temporal, como o princípio de tudo. Os vários espaços do filme são também espaços míticos no imaginário ocidental: a II Guerra Mundial como palco da primeira metade da história narrada; a Índia, com toda a carga evidente de misticismo e religiosidade; Malta, a ilha do Mediterrâneo (não podia cá faltar a alusão ao Mediterrâneo...), também ela carregando o peso do simbólico berço da civilização ocidental e alguma carga religiosa associada a este espaço. Por fim, o ciclo fecha-se com o retorno do protagonista à sua terra natal, a Roménia, mais concretamente à praça onde vivia, trabalhava e tertuliava. Espaço aparentemente fechado contrastando com uma viagem tão alargada quanto a navegação pela História.

Filme estranho este, esotérico, até. Na segunda parte - e porque dá a sensação de que existem dois tempos distintos neste filme -, a narrativa aligeira-se, retoma referências mais fáceis e mais comuns para o espectador, e perde os tons negros e carregados da primeira metade. É uma dissertação filosófica, tendo como suporte um homem que busca o início de tudo e uma mulher que reencarnou outras. Estranho, mas recomendável.

sábado, 12 de abril de 2008

Quem salva as Feiras do Livro?


Até há uns anos, as feiras do livro desempenhavam um papel de relevo na vida cultural das nossas cidades, divulgando novas obras publicadas e constituindo uma oportunidade para quem pretendia comprar livros a preços mais baixos. Ansiava-se pela feira e ela era um acontecimento.
Hoje em dia, contudo, a situação é bem diferente. Existem mais pontos de venda, não se confinando o sector somente às tradicionais livrarias. As grandes superfícies comem a fatia de leão das vendas, onde os best-sellers são reis e o espectro literário pouco alargado, o que pouco importa ao consumidor médio desde que possa comprar o último grito das letras, anunciado no écran lá de casa, ou mais um exemplar de um qualquer "como ser feliz sem esforço". Por outro lado, e apesar de um crescimento moderado do sector editorial, (dados do início deste ano apontam para um volume de vendas na ordem dos 500 milhões de euros em 2007 em Portugal, conforme noticiado pelo Diário de Notícias), a verdade é que o mercado do livro continua em crise, como é do conhecimento geral. Os motivos para esta situação são de ordem social, económica e cultural: o amadurecimento do mercado, o baixo índice de leitura e as crescentes alternativas ao livro como fonte de lazer e de entretenimento, como é o caso da Internet e seus "derivados", são factores determinantes para o baixo consumo deste produto.

Mas voltemos às feiras. Apesar deste cenário que lhes retira protagonismo elas sobrevivem. E ainda bem, diremos em coro. No entanto, a continuarem nos mesmos moldes, anuncia-se a sua morte. Os livros, velhos ou novos, para ali ficam como que esquecidos, quais monos do passado, em barraquinhas muitas vezes iguais às suas avós de há 40 anos, por onde entra o frio ou o calor e em que alguém, por detrás do balcão, com ar mais ou menos infeliz, aguarda, resignado, pelo final da noite. Não se compreende porque é que não se aposta mais na dinamização destes eventos, criando condições agradáveis para quem lá trabalha, os livreiros, e para quem as visita. Criando, por exemplo, mais sessões culturais, como momentos de poesia e debate. E, fundamentalmente, criando espaços lúdicos e de animação, com a actuação de músicos e outros artistas, chamando pequenos grupos de teatro, animadores, eu sei lá!, que atrairiam, inevitavelmente, mais público às feiras.

Na Feira do Livro de Braga que amanhã termina, morre-se de frio e os poucos aquecedores lá instalados estão exclusivamente dedicados ao espaço das tertúlias (assim baptizado, pensado para receber convidados), em total desconsideração por quem lá trabalha e para com o público. Quanto a animação, é praticamente inexistente. Já nos anos anteriores Lisboa e Porto primaram também por uma fraquíssima programação de animação nas respectivas feiras.

Organizar este tipo de eventos não se resume a distribuir stands de livreiros; pressupõe também uma dinâmica maior: a promoção de um evento cultural, mais abrangente e que cative o público a visitar estes espaços.

Feiras do Livro: quem as quer ainda salvar?...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A incontinência dos céus...

Que me perdoem os crentes, devotos, beatos, mas num país de clima temperado, em que as águas vindas de cima não favorecem por aí além a moda dos guarda-chuvas, há três dias que S. Pedro, certamente de birra, decidiu presentear-nos com uma convincente amostra do dilúvio, em que nós, quais bichinhos de Noé, chapinhamos, ensopamo-nos, afogamo-nos nesta sua incontinência que parece não ter fim.

E porque nem só de assuntos sérios e pertinentes vivem as crónicas, mas também destes piquenos nadas do quotidiano, que nos orientam os passos e ditam os dias, aqui fica este meu desabafo.

P.S.: Quem passou por aqui e lamentou o tempo perdido, resta-me dar-lhe um conselho: tal como acontece com o tempo, há que acreditar que melhores dias virão... :)

domingo, 6 de abril de 2008

Em todas as ruas te encontro...


Na Feira do Livro de Braga está, entre outros, este poema de Mário Cesariny. Fez-me lembrar o quanto gosto dele e de como é um dos poemas da minha vida:

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

terça-feira, 1 de abril de 2008

De Tua a Mirandela


A linha do Tua, cuja construção teve início em 1885 e só se concluiu em 1906, corre o risco de encerrar. A linha original, de Tua a Bragança, foi mais tarde encurtada restando apenas 54 km, de Tua a Mirandela. Ao longo de duas horas, esta é uma das mais belas paisagens que se podem usufruir numa viagem de comboio por terras portuguesas. Infelizmente, a construção de uma barragem ameaça destruí-la e ameaça, também, empobrecer um pouco mais aquela região, retirando-lhe um dos seus grandes trunfos turísticos. Será que não existe alternativa para a construção da barragem?
Para mais informação ver, por exemplo, aqui, aqui e aqui


terça-feira, 25 de março de 2008

Interioridades

O enfraquecimento da agricultura e o crescente desenvolvimento do sector terciário da economia provocou o boom da emigração, tendo como consequência a desertificação de grande parte do interior português. Nos últimos anos verifica-se uma gradual valorização dos espaços rurais, quer para segunda habitação, quer para habitação permanente. Contudo, em pequena escala e não ainda de forma significativa.

Se é verdade que, nas últimas décadas, as autarquias têm desenvolvido esforços para criar novas infraestruturas, o que é certo é que a opção mais escolhida para rosto deste "progresso" é a criação, por exemplo, de piscinas municipais e de polidesportivos. Muito úteis, certamente. Mas criar estes equipamentos para quem? Isto pressupõe que haja habitantes nestas terras para desles desfrutar e para os dinamizar. Ora não são os pormenores que desenvolvem o interior mas sim a criação de empregos e de estímulos para repovoar o país. Criar equipamentos que quase só têm utilização no Verão, por mais agradáveis que sejam, é uma opção fácil e populista mas que não defende os reais interesses das regiões.

O turismo surge sempre como a solução mais promissora. Tomemos o exemplo da zona raiana. Tem património, tem história, tem boas acessibilidades. Mas há que criar interesses concretos que atraiam visitantes àquela região. Há alguns exemplos bem sucedidos, como é o caso de Idanha-a-Nova, com o seu festival de música anual e a criação do Centro Cultural. Mas há muito por fazer ainda neste campo. E, já agora, se as câmaras raianas se queixam (à imagem de todas as outras) que não têm dinheiro suficiente para fazer crescer os seus municípios, porque não se juntam numa acção concertada para dinamizar regiões e não só para dinamizar concelhos?

Em vez de se persistir na gestão individualizada, em que cada município vive de costas voltadas para o seu vizinho, porque não partilhar recursos - financeiros e logísticos?

Porque não há vontade para tal. É claro que esta acção pressupõe uma atitude mais pro-activa, que não tem tradição entre nós. Mas parece ser a única via para a sobrevivência das regiões e para um desenvolvimento sustentável. E, consequentemente, para a sobrevivência das grandes cidades, também.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Parabéns, Hot!

O Hot Club de Portugal comemorou ontem, dia 19 de Março, o seu 60º aniversário, com um concerto no S. Jorge, bem pertinho do seu retiro na Praça da Alegria. A Big Band, com 17 músicos em palco, maestro, Mário Laginha ao piano e Maria João - na voz e na presença. Uma presença sempre intensa: no meio do preto sóbrio da orquestra, ei-la que surge, a nota de cor, um verdadeiro ponto de exclamação! na sua saia hipercolorida, qual Poupas da Rua Sésamo, gaiata, enérgica. A sua música conta-nos histórias e fala-nos de gentes, africanas, coloridas. Tudo isso assim sentido, de chofre, sem respirar.


sábado, 15 de março de 2008

Um olhar comum...


A arte cinética, também conhecida como Cinetismo, é uma corrente das artes plásticas que explora efeitos visuais por meio de movimentos físicos ou ilusão de óptica ou truques de posicionamento de peças. Artistas como Marcel Duchamp (1887-1968), Alexander Calder (1898-1976), Vasarely (1908), Jesus Raphael Soto (1923), Abraham Palatinik (1928), Yaacov Agam (1928), Jean Tinguely (1925), Pol Bury (1922) são apontados como expoentes desta linguagem. (Wikipédia)

O Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado inaugurou uma exposição dedicada ao cinetismo e intitulada Revolução Cinética, que estará patente ao público até dia 15 de Junho. Esta exposição conta com a participação de obras de 30 artistas, estrangeiros e nacionais, dos quais destaco Victor Vasarely e Marcel Duchamp, dois dos principais impulsionadores desta corrente. Portugal está representado, entre outros, por Nadir Afonso, René Bertholo, António Pedro, Eduardo Nery e Artur Rosa (ver aqui e aqui).

A primeira exposição de arte cinética - Le Mouvement - teve lugar na galeria de Denise René em Paris, em 1955, tendo ficado registado o fracasso que provocou entre os visitantes. Mais tarde, em 1966, esta exposição é acolhida no MoMA e Brian de Palma realiza um documentário da inauguração, The Responsive Eye, filme este que está integrado na exposição do Museu do Chiado. Devo dizer que esta "peça" agradou-me particularmente, já que devo confessar a minha quase incapacidade para aderir a grande parte das obras aqui expostas, apesar de, creio, entender o conceito subjacente (alguns dos artistas representados têm, acho eu, obras mais apelativas). Pelo contrário, o documentário de Brian de Palma, em que são entrevistados desde especialistas (um psicólogo, um oftalmologista, o comissário da exposição, e outros) a público em geral, salienta, a meu ver, as várias linguagens existentes e a diferença entre estes dois mundos, bem patente no tipo de considerações tecidas. É interessante ver como os especialistas das diversas áreas estabeleciam ligações entre os seus domínios e a arte cinética, interpretando e tirando conclusões, enquanto que os outros mortais registavam as suas impressões de forma - essa sim - mais sensorial e simples, limitando-se a gostar ou não do que viam. Olhares comuns...

sexta-feira, 14 de março de 2008

Dos Direitos...

Apesar de tanto se glosar a Mulher e de tanto cantar o 8 de Março, de tanto se postar, publicar, de tantas rosas se oferecer, a realidade está sempre lá, bem presente, a puxar para baixo quem reflecte sobre estes assuntos e quem teima em ver em vez de somente olhar...

Vem este arrazoado a propósito da recente "notícia" (?) da presença da mulher de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na manifestação de professores do último dia 8. Logo a comunicação social foi eco (ou propulsora?) das más-línguas, que ampliaram a presença de Fernanda Tadeu nesta manifestação, qual zoom de paparazzi. De repente, esta mulher passou a ser conhecida e a sua atitude cívica ganhou contornos políticos, não por mérito próprio mas, somente, pelo facto do seu marido ser uma figura pública, membro do partido do Governo.

A incapacidade em separar as águas é notória. Subscrevo inteiramente as palavras do jornalista Nuno Ramos de Almeida, na coluna Praça Vermelha do Meia Hora, ao lembrar que a figura do chefe de família já não existe e que a liberdade de expressão e os direitos não têm género. Ao associá-la ao marido nesta questão, para além de tentar tirar dividendos políticos deste acto, constitui uma afronta à sua individualidade.

Os pequenos nadas são notícia, ou por falta de capacidade de tratar questões maiores ou, sobretudo, pela ganância das vendas e das audiências. Quem fica a perder são sempre os mesmos, nós todos.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Caramel

De há muito que gosto de novas cinematografias, novas linguagens, outros olhares.

Caramel, ou caramelo. Feito de açúcar, sumo de limão e água, é a técnica artesanal utilizada para servir de cera depilatória no cabeleireiro (pomposamente chamado de instituto de beleza Venus Beauty) onde tudo se passa. Um filme no feminino, sem dúvida, protagonizado por cinco mulheres e as suas estórias, os seus pequenos nadas do quotidiano em que, por vezes, ecoam dramas maiores das suas vidas; como é o caso de Rose, a costureira, que se resigna a continuar sozinha e tomar conta da velha irmã tresloucada, abdicando do seu sonho de arranjar marido. Ou, ainda, de Jamale, a mulher que disfarça a menopausa, o passar dos anos, e a frustração dos seus sonhos de glória não alcançados.

Almodôvar parece estar presente nesta composição, neste conjunto de retratos. Quase que lhe sentimos a direcção das actrizes, os tiques, os ambientes neste "tom rosa", ao mesmo tempo tão alegre e divertido, como sério e espelho da sociedade libanesa.

Esta é a primeira longa-metragem de Nadine Labaki, a realizadora libanesa de 34 anos, que interpreta também a personagem de Layale, a bela proprietária do cabeleireiro. Em entrevista dada sobre o seu filme, ela resume-o desta forma: É a história de cinco mulheres libanesas, cinco amigas de idades diferentes, que trabalham e se cruzam num instituto de beleza em Beirute. (...) Neste universo tipicamente feminino, essas mulheres - que sofrem da hipocrisia de um sistema tradicional oriental - entreajudam-se nos problemas que encontram com os homens, o amor, o casamento, o sexo...

Numa viagem que fiz à Turquia há uns anos, senti a proximidade que existe entre eles e nós. Supostamente tão distantes (cultura, língua, religião...) e tão espantosamente próximos. Esta breve incursão pelo Líbano apenas veio reavivar-me a memória e confirmar isso mesmo: as cenas poderiam ser transpostas para um Portugal de há vinte anos, ou mesmo para o de hoje, em certos bairros mais populares, onde a cumplicidade entre vizinhos, um certo desmazelo nos hábitos do dia-a-dia e um tradicional quase desrespeito pela autoridade, tudo isto num ritmo típico do Sul, ligeiro e descontraído, me fez sentir algumas semelhanças.
Um filme de grande sensibilidade, uma "comédia" saudável que nos deixa um sorriso nos lábios...Um doce prazer.

Excertos de críticas sobre o filme, publicadas em títulos estrangeiros:

Libération
(...) a transposição do "Venus Beauty" (instituto) em pleno Beirute faz sentido: resume como ninguém a sociedade libanesa e a sua maneira singular de fazer sala como no tempo do protectorado. [francês]

Studio Francesa

(...) saudemos a performance das intérpretes, todas actrizes não profissionais que a realizadora descobriu em encontros casuais.

Le Monde
(...) elegância sensual da encenação. Servido por uma bela luz (Yves Senhaoui), que celebra tão bem a beleza das actrizes como leva em conta a miséria que por todo o lado ameaça o esplendor de Beirute, embalada por uma música elegantemente sentimental (de Khaled Mouzanar), Caramel encontra um ritmo singular que mescla intimamente a vivacidade com a gravidade do tempo que passa.

Première
Para a sua primeira longa-metragem, Nadine Labaki (...) evoca o seu país, o Líbano, por via de um microcosmos feminino a contas com os seus impulsos sensuais e a realidade contrastada do seu tempo. Os (longos) anos de guerra nunca são evocados, mas por trás da despreocupação voluntarista, o kitsch e a ligeireza aparente (o filme assume o seu perfume de comédia), o rosa bombom não é forçosamente a cor dominante. Machismo ambiente, religiosidade pouco discretamente batida nas sombras, crispações entre as comunidades, raparigas obrigadas a sacrificar os seus desejos no altar do dever: Nadine Labaki, frequentemente mais amarga que doce, dá a ver as restrições que pesam nas suas personagens.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Contos na rede

Ainda com o espírito de divulgação, aqui vos deixo uma porta para contos na Internet. Da responsabilidade da Ficções, intitula-se Biblioteca Online do Conto. Abram-na e lerão...