sexta-feira, 7 de março de 2008

Caramel

De há muito que gosto de novas cinematografias, novas linguagens, outros olhares.

Caramel, ou caramelo. Feito de açúcar, sumo de limão e água, é a técnica artesanal utilizada para servir de cera depilatória no cabeleireiro (pomposamente chamado de instituto de beleza Venus Beauty) onde tudo se passa. Um filme no feminino, sem dúvida, protagonizado por cinco mulheres e as suas estórias, os seus pequenos nadas do quotidiano em que, por vezes, ecoam dramas maiores das suas vidas; como é o caso de Rose, a costureira, que se resigna a continuar sozinha e tomar conta da velha irmã tresloucada, abdicando do seu sonho de arranjar marido. Ou, ainda, de Jamale, a mulher que disfarça a menopausa, o passar dos anos, e a frustração dos seus sonhos de glória não alcançados.

Almodôvar parece estar presente nesta composição, neste conjunto de retratos. Quase que lhe sentimos a direcção das actrizes, os tiques, os ambientes neste "tom rosa", ao mesmo tempo tão alegre e divertido, como sério e espelho da sociedade libanesa.

Esta é a primeira longa-metragem de Nadine Labaki, a realizadora libanesa de 34 anos, que interpreta também a personagem de Layale, a bela proprietária do cabeleireiro. Em entrevista dada sobre o seu filme, ela resume-o desta forma: É a história de cinco mulheres libanesas, cinco amigas de idades diferentes, que trabalham e se cruzam num instituto de beleza em Beirute. (...) Neste universo tipicamente feminino, essas mulheres - que sofrem da hipocrisia de um sistema tradicional oriental - entreajudam-se nos problemas que encontram com os homens, o amor, o casamento, o sexo...

Numa viagem que fiz à Turquia há uns anos, senti a proximidade que existe entre eles e nós. Supostamente tão distantes (cultura, língua, religião...) e tão espantosamente próximos. Esta breve incursão pelo Líbano apenas veio reavivar-me a memória e confirmar isso mesmo: as cenas poderiam ser transpostas para um Portugal de há vinte anos, ou mesmo para o de hoje, em certos bairros mais populares, onde a cumplicidade entre vizinhos, um certo desmazelo nos hábitos do dia-a-dia e um tradicional quase desrespeito pela autoridade, tudo isto num ritmo típico do Sul, ligeiro e descontraído, me fez sentir algumas semelhanças.
Um filme de grande sensibilidade, uma "comédia" saudável que nos deixa um sorriso nos lábios...Um doce prazer.

Excertos de críticas sobre o filme, publicadas em títulos estrangeiros:

Libération
(...) a transposição do "Venus Beauty" (instituto) em pleno Beirute faz sentido: resume como ninguém a sociedade libanesa e a sua maneira singular de fazer sala como no tempo do protectorado. [francês]

Studio Francesa

(...) saudemos a performance das intérpretes, todas actrizes não profissionais que a realizadora descobriu em encontros casuais.

Le Monde
(...) elegância sensual da encenação. Servido por uma bela luz (Yves Senhaoui), que celebra tão bem a beleza das actrizes como leva em conta a miséria que por todo o lado ameaça o esplendor de Beirute, embalada por uma música elegantemente sentimental (de Khaled Mouzanar), Caramel encontra um ritmo singular que mescla intimamente a vivacidade com a gravidade do tempo que passa.

Première
Para a sua primeira longa-metragem, Nadine Labaki (...) evoca o seu país, o Líbano, por via de um microcosmos feminino a contas com os seus impulsos sensuais e a realidade contrastada do seu tempo. Os (longos) anos de guerra nunca são evocados, mas por trás da despreocupação voluntarista, o kitsch e a ligeireza aparente (o filme assume o seu perfume de comédia), o rosa bombom não é forçosamente a cor dominante. Machismo ambiente, religiosidade pouco discretamente batida nas sombras, crispações entre as comunidades, raparigas obrigadas a sacrificar os seus desejos no altar do dever: Nadine Labaki, frequentemente mais amarga que doce, dá a ver as restrições que pesam nas suas personagens.

22 comentários:

Luís Galego disse...

consta já na minha lista...pelo que vi no trailer, senti que não me ia decepcionar!!!

Mocho-Real disse...

Não vi nem costumo ir ao cinema, desde que as pipocas invadiram as salas.

Parece-me, pelo que li, que é uma pena perder este filme. Talvez me convença a ir ao cinema de novo... quem sabe!

Saudações.
Jorge G.

Luis Eme disse...

Gostei de te ler, Paula...

fiquei curioso, com essa tua proximidade, sentida na Turquia...

Digo isto porque sinto-os tão diferentes de nós. Por exemplo, as suas "colónias" de emigrantes na Alemanha, além de se fecharem, eram tão diferentes de nós, em quase todos os aspectos...

Gi disse...

Num jantar em que estive presente esta semana as referências a este filme deixaram-me curiosa. Hoje, num blogue vi o vídeo de apresentação e depois , sob indicação estive no Imeem a ouvir duas músicas que fazem parte da banda sonora, mais fiquei. Agora, chego aqui e leio-te, se tinha alguma dúvida , dissipou-se. É para ver com toda a certeza.

Um beijinho e resto de um bom Domingo.


PS - estive a ler-te mais para baixo , estas ausências forçadas andam a fazer com que a leitura se acumule , de tanta coisa que gosto (é o caso)

Outro beijinho

Templo do Giraldo disse...

http://templodogiraldo.blogspot.com/


Passem por aqui.

SAUDAÇÕES.

Paula Crespo disse...

Luís,
E pelo que te conheço, não te irá decepcionar!

Paula Crespo disse...

Jorge,
Pois, as pipocas são uma praga!! Mas o cinema e o gozo que dá ver um filme no grande écran, ainda supera a maldição!
Uma boa semana (e bons filmes ;-))

Paula Crespo disse...

Luis Eme,
Eu senti isso principalmente em Istambul. É claro que se trata da capital (como aqui no filme se tratava de Beirute, também capital), o que também ajuda a esta sensação de proximidade. Admito que em ambientes rurais ou, pelo menos, mais afastados das realidades urbanas, as pessoas se afastem mais do nosso estereótipo.
Quanto à tua experiência com as comunidades de turcos na Alemanha, imagino que se assemelhem um pouco com as comunidades de emigrantes em geral, das quais não serão excepção as nossas, portuguesas. Principalmente as comunidades mais antigas, oriundas do campo, menos alfabetizadas e, consequentemente, mais fechadas sobre si próprias. Até por uma questão de sobrevivência e de defesa.

Paula Crespo disse...

Gi,
Quanta coincidência, de facto! Se o vires, espero que gostes.
Eu também tenho andado muito arredada destas vidas blogosféricas, por falta de tempo. Ainda por cima, o meu computador decidiu fazer birra, o que também não ajuda;-))
Vamos a ver se consigo retomar, com mais regularidade.
Bjs!

Paula Crespo disse...

Templo,
Já passei. Uma voz do Alentejo, sem dúvida!

Oliver Pickwick disse...

Pronto! Me estimulou a assistir o filme. Pelo que escreveu, parece muito interessante e diferente. Gosto do oriente, sobretudo dos países localizados na Ásia menor. Aprecio os seus costumes e a sua cultura.
Beijos, e ótima semana!

Paula Crespo disse...

Oliver,
Há muitas características comuns nos países do Mediterrâneo e que a mim me fascinam também.
Uma boa semana!

Ka disse...

Pelo que escreveste fica já na minha lista! Nunca vi cinema libanês e tenho uma certa curiosidade.

Beijos e boa semana

ps - Não te preocupes com as ausências pois também eu andei na semana passada :)

Sr do Vale disse...

Paulinha, estou mais para filmes fora do circuito comercial, e esse me parece um tema diferente, primeiro por se passar no Líbano e segundo por tratar de sensações e desejos pessoais e não somente dos conflitos bélicos.
E aprecio o modo como você aborda o cotidiano de Portugal, esses relatos são muito interessantes, para nós aqui do Brasil, sabermos um pouco de como é o cotidiano dos nossos amigos portugueses, e de uma forma abrangente, não só superficial e turística.
Percebí através dos blogs, que a moçada de Portugal, curti muito a escrita.

Preciso arrumar um tempinho, e fazer um tour por completo em seu blog, para trocarmos idéias.

Um grande beijo, através do Atlântico.

Paula Crespo disse...

Ka,
POis, eu também nunca tinha visto nenhum filme libanês. Mas achei graça!...
Bjs e boa semana!

Paula Crespo disse...

Sr do Vale,
Fugir ao circuito comercial é uma boa opção, para arejar o pensamento e aprender coisas novas.
Quanto às descrições do país é como os filmes: é sempre melhor sair do circuito comercial ;-)
Agradeço-lhe o incentivo e volte sempre!

Capitão-Mor disse...

Desconhecia por completo. Ultimamente tenho sido seduzido pelo cinema argentino.
Boa semana para ti!

Paula Crespo disse...

Capitão,
Argentino nunca vi. Quando cá chegar é de explorar ;-))

Leonor disse...

Já fui ver. Aliás o fim de semana foi dedicado à cultura àrabe- Persépolis e Caramel, embora sejam filmes diferentes, claro.

Gostei dos dois por motivos diferentes, mas realmente porque, do pouco que já viajei para paises muçulmanos, me apercebo do quase nada que sabemos sobre o quotidiano aí vivido. E que neste Caramel dá para ver de uma maneira simpática.
é pena que não apareça por cá mais cinema deste...

Paula Crespo disse...

Leonor,
De vez em quando aparece. Lembro-me de um que gostei muito, Kandahar, passado no Afeganistão (como o nome indica...).É um filme muito plástico, muito visual e de grande beleza, e que surgiu logo após o ataque de 2001.
O Persépolis ainda não vi; quero ver se não o perco.

Mocho-Real disse...

Na aus~encia de novidades deixo um abraço enquanto contemplo esta lindíssima imagem cor/caramelo, o meu tom de cor preferido. É quente e belo.

Um abraço.
Jorge G.

Paula Crespo disse...

Jorge,
Obrigada pela visita. A falta de notícias tem, de facto, sido muita, mas a minha falta de disponibilidade também...
Bjs