segunda-feira, 26 de novembro de 2007

"Que farei com este livro?"




Domingo à tarde. Perante a parca oferta cinematográfica, e a pedido de T., decido-me pelo teatro. A Companhia de Teatro de Almada leva à cena Que fazer com este livro?, de José Saramago e encenação de Joaquim Benite, numa segunda versão da peça, estreada em 1980.
Tendo como mote principal Camões e a publicação de Os Lusíadas, esta peça não se esgota na homenagem esperada. Mais do que fazer jus ao poeta e ao épico, pretende mostrar o século XVI e tudo o que estava em cena, à época: a megalomania de um rei imaturo; a complexidade e a tensão do jogo político e social que se travava em Portugal; a "anunciada" perda da independência nacional.
Camões vê aqui integralmente respeitada a sua dimensão humana. "Um homem de carne e de sentidos", disse ele falando de si próprio.

Saramago, ao escrever esta peça, não a fez com carácter biográfico. Antes se debruça sobre o papel do artista na sociedade: quem dele se serve, quem favoreceu ou contrariou a publicação da sua obra e a quem esta pôde beneficiar. É, pois, uma reflexão sobre jogos de poder.
A intemporalidade é uma nota dominante nesta peça. Torna-se visível de várias formas: a caracterização das personagens - Benite, o encenador, recorre à estratégia de não vestir todas as personagens à época e de recorrer a adereços actuais. Na verdade, só o texto segue uma construção mais aproximada ao português de seiscentos, o que imprime aos diálogos um ritmo próprio, poético e simbólico, de uma sonoridade única.
Que farei com este livro? sublinha a intemporalidade do tema fulcral - a liberdade -, também através da ponte que se estabelece entre o Portugal sebastianista e o do século XX, designadamente o do Estado Novo, através da repressão e da censura da Inquisição, por um lado, e, por exemplo, a das personagens fardadas de guardas republicanos de Salazar.
Paulo Matos como protagonista, à frente de um elenco de 20 actores, com um excelente desempenho; música de Carlos Paredes e texto de Saramago, absolutamente brilhante. No Teatro Municipal de Almada, até dia 21 de Dezembro próximo.

6 comentários:

LB disse...

Eu que ando numa de teatro, depois das dentadas na Comuna, farei os possíveis por ir ver...
Excelente texto este!

Beijinho

O Profeta disse...

Não conheço a peça nem a obra mas, ficas convidada a vir aquí à ilha ver uma peça musical teatral de minha autoria...a estrear no dia 8 de dezembro...


Boa semana


Mágico beijo

Paula Crespo disse...

Lb,
Obrigada pelo elogio!
Quanto a idas ao teatro, pela parte que me toca, estou cada vez mais nessa onda!
Boa semana e bjs!

Paula Crespo disse...

Profeta,
Obrigada pelo convite. Como se vai chamar essa tua peça?
Bj

Outonodesconhecido disse...

Quero ver se não deixo escapar a peça.
Quanto ao teu comentário, temos que ensinar os mais novos a nãos e queixarem de tudo. isto é um Karma que o país tem. Com os mais velhos é praticamente impossível; am snão desisto de transmitir aos mais novos esta ideia do "copo meio cheio" em vez de "meio vazio".
bjocas e bao semana
Agor atenho emnso tempo para vos visitar e blogar mas espero colmatar a falha a partir de Janeiro.

Luís Galego disse...

Que Farei com Este Livro?

A pergunta é formulada por Camões, no final da obra e o livro não poderia ser outro se não "Os Lusíadas". Que farei com este livro? foi uma peça que vi ainda andava no Secundário e foi ali mesmo no Teatro em Almada. Gostei o suficiente para querer saber quem era Saramago...