
Estão dentro da sala de aula mas, na realidade, não estão. Os seus pensamentos vagueiam, a sua atenção é escassa e perde-se por outros atalhos que não os que conduzem ao professor e à matéria dada. Qualquer pormenor capta os seus olhares, produz risos, provoca conversas que muitas vezes, ou quase sempre, descambam para a insolência ou mesmo a agressão. Reagem assim porque lhes é muito difícil encontrar sentido nas palavras que ali ouvem, soando-lhes estranhas, antiquadas, inúteis para as suas necessidades e absolutamente estrangeiras para o seu mundo, mundo que é feito maioritariamente de rua, de onde conhecem as leis porque se orientam.
Os seus pais vieram dos quatro cantos do mundo, de todas as etnias que a França perfilhou dos longínquos territórios de outrora, e dos de hoje, de uma França perdida nos territórios ultramarinos. Vivem uma certa perturbação identitária, sem saberem bem para que lado pender, dividindo-se entre uma identidade europeia, branca, e as suas raízes, negras, mestiças ou outras, bem vivas tanto no rosto como na cultura doméstica. Mas também os há franceses de há muitas gerações, sendo que em comum carregam consigo o peso da bolsa vazia e das dificuldades de toda a ordem que os pais lhes deixam de herança.
Tomemos, então, um grupo de jovens professores, empenhados, esforçados em captar essa atenção dispersa. Tarefa difícil mas necessária, porque transmitir conhecimentos e definir regras são eixos fundamentais para viver em sociedade. Mas qual sociedade? Para que querem estes adolescentes gastar o seu precioso tempo, normalmente passado em pouco mais do que vadiar pela rua, divertir-se ou medir forças nos
gangs, namoriscar e passar o tempo no
shopping, acertando o olhar na montra da bugiganga barata e das últimas americanices em versão
t’shirt? Sim, para que precisam eles de saber como conjugar o presente do conjuntivo, se o infinitivo lhes dá e sobra para o gasto?
Trata-se pois de dois mundos diferentes, antagónicos até, separados por tudo e mais alguma coisa, não só o salário ao fim do mês ou a falta dele e pelas suas consequências, mas por muito mais do que isso. Os tempos mudaram e deram origem a novas realidades sociais. Antigamente, o ensino não era para todos e muitos dos que não beneficiavam dele passaram pelo menos aos filhos a mensagem da importância de a ele ter acesso, para ascensão social, para alcançar melhores condições de vida. Era valorizado, portanto. Hoje talvez o seja menos. Talvez se pense que a vida tem outros pressupostos que não passam necessariamente pela escola; talvez haja quem pense que há outras formas de angariar dinheiro e que este tudo paga e tudo compra. Talvez hajam outros ídolos a venerar, que já não passam por ter mais conhecimento ou mais cultura. Ou será porque o dia-a-dia dos pais – e designadamente das mães – está de tal forma sobrecarregado que não lhes sobra tempo nem coragem para dar mais atenção aos filhos. Ou talvez porque os próprios pais não podem dar aquilo que não têm.
São estas questões que estão subjacentes neste filme, com o rosto de documentário.
A Turma (
Entre les Murs), de Laurent Cantet, é um filme sobre educação. E, por isso mesmo, é um filme muito abrangente, sobre a sociedade. Filmado numa escola pública presumo que dos subúrbios de Paris, poderia tê-lo sido em Lisboa ou em qualquer outro grande centro urbano, pois os problemas são transversais e cada vez menos conhecem fronteiras. E não se circunscrevem a questões raciais, antes radicam na pobreza e nas más condições socioeconómicas.
Não sei qual é a solução para chamar a atenção dos alunos, nem para os aproximar da escola. Mas para aqueles que advogam um maior facilitismo na abordagem escolar, ou um trazer para dentro das quatro paredes da sala de aula a rua, numa tentativa de aproximar linguagens e códigos, lembro só que não é nivelando por baixo que se obterão melhores resultados. Acho eu, que não sou nem professora, nem pedagoga... Apenas interessada.