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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Crescer de forma consciente: a desconstrução de um mito


Imagem tirada daqui


A educação sexual nas escolas é um tema que já atingiu a maioridade. É, por assim dizer, um jovem adulto que, no entanto, continua iletrado. E iletrado porque, na realidade, nunca o levaram à escola. Desse lugar apenas conhece a entrada ou, melhor dizendo, apenas sabe que a escola existe, sonha com ela até, mas continua a ser o patinho feio das disciplinas leccionadas. Filho de uma família numerosa, com muitas matérias, continua esperando, no fim da fila do fundo atrás das outras disciplinas, as tais que, essas sim, são dignas de verem a luz do dia.

A propósito da educação sexual nas escolas – ou da falta dela -, chamo a atenção para uma entrevista de Manuel Damas, sexólogo e formador na área da educação sexual, publicada em educare.pt. Devo dizer que concordo com tudo o que lá foi dito e que por isso mesmo me escuso de tentar discorrer sobre o tema, dando a palavra a quem percebe do assunto. Apesar da razoável dimensão do texto, não desistam de o ler porque vale bem a pena. Aqui fica.

sábado, 6 de junho de 2009

Educação para a felicidade

(imagem da net)


Pressinto por aí um levantar de sobrolho, desconfiado e incrédulo: o título parece pomposo, descabido e piroso. Não, não tenciono dedicar-me à escrita de folhetins, nem de guiões de novela.

Ele surge porque há dias tive conhecimento de um programa de tempos livres para crianças, organizado por uma pequena empresa que se dedica a estas artes, e que me pareceu marcar pela diferença. A sua proposta vai no sentido de chamar a atenção das crianças para os pequenos nadas do dia-a-dia, para as coisas positivas que vivem na sombra, pois estamos demasiado amestrados para valorizarmos os tons negros em vez de outros mais luminosos. Desta forma, a proposta de ocupação do tempo de férias das crianças e jovens contempla a promoção de algumas actividades, na sua maioria muito simples, mas que ajudem a reconhecer os aspectos positivos da vida, já que para os outros existem demasiados treinadores, desde os media a cada um de nós. Assim, intercalam as actividades tradicionais, as desportivas e as idas à praia, com outras, em que lhes pedem para descreverem o que vêem de bonito, ou de bem feito no seu caminho de casa para a escola, por exemplo; organizam jogos em que o objectivo seja enumerar características positivas dos colegas de grupo, de modo a que no final do jogo cada um tenha sido presenteado com uma lista de qualidades que os outros lhes atribuem.

Aprender a valorizar o que de bom nos rodeia em vez de nos focarmos eternamente nas contrariedades, é a pedra de toque para a construção da felicidade. Apetecia inseri-la nos programas curriculares: educação para a felicidade, que podia englobar também temas de educação cívica e outros. A ideia, apesar de não ser minha, perfilho-a. Fundamental e urgente.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sorrisos amarelos...

(imagem da Internet)


Aterrou no meu mail e fala por si. Seria cómico se não fosse trágico.

Texto (verídico) retirado de uma prova livre de Língua Portuguesa, realizada por um aluno do 9º ano, numa Escola Secundária das Caldas da Rainha

REDAXÃO
'O PIPOL E A ESCOLA'
Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem Direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola.

Primeiros a peçoa n se sente motivada Pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.


Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto Montanhoso? Ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? Ou cuantas estrofes tem Um cuadrado? Ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?


E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os Lesiades''s, q é um livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no Aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.


Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a Malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem Abitos de leitura e q a Malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras Foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu Assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???


O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço De otelaria e a Malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de Xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um Gravetame do camandro. Ah poizé. Tarei a inzajerar?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A rua dentro de quatro paredes

Estão dentro da sala de aula mas, na realidade, não estão. Os seus pensamentos vagueiam, a sua atenção é escassa e perde-se por outros atalhos que não os que conduzem ao professor e à matéria dada. Qualquer pormenor capta os seus olhares, produz risos, provoca conversas que muitas vezes, ou quase sempre, descambam para a insolência ou mesmo a agressão. Reagem assim porque lhes é muito difícil encontrar sentido nas palavras que ali ouvem, soando-lhes estranhas, antiquadas, inúteis para as suas necessidades e absolutamente estrangeiras para o seu mundo, mundo que é feito maioritariamente de rua, de onde conhecem as leis porque se orientam.

Os seus pais vieram dos quatro cantos do mundo, de todas as etnias que a França perfilhou dos longínquos territórios de outrora, e dos de hoje, de uma França perdida nos territórios ultramarinos. Vivem uma certa perturbação identitária, sem saberem bem para que lado pender, dividindo-se entre uma identidade europeia, branca, e as suas raízes, negras, mestiças ou outras, bem vivas tanto no rosto como na cultura doméstica. Mas também os há franceses de há muitas gerações, sendo que em comum carregam consigo o peso da bolsa vazia e das dificuldades de toda a ordem que os pais lhes deixam de herança.

Tomemos, então, um grupo de jovens professores, empenhados, esforçados em captar essa atenção dispersa. Tarefa difícil mas necessária, porque transmitir conhecimentos e definir regras são eixos fundamentais para viver em sociedade. Mas qual sociedade? Para que querem estes adolescentes gastar o seu precioso tempo, normalmente passado em pouco mais do que vadiar pela rua, divertir-se ou medir forças nos gangs, namoriscar e passar o tempo no shopping, acertando o olhar na montra da bugiganga barata e das últimas americanices em versão t’shirt? Sim, para que precisam eles de saber como conjugar o presente do conjuntivo, se o infinitivo lhes dá e sobra para o gasto?

Trata-se pois de dois mundos diferentes, antagónicos até, separados por tudo e mais alguma coisa, não só o salário ao fim do mês ou a falta dele e pelas suas consequências, mas por muito mais do que isso. Os tempos mudaram e deram origem a novas realidades sociais. Antigamente, o ensino não era para todos e muitos dos que não beneficiavam dele passaram pelo menos aos filhos a mensagem da importância de a ele ter acesso, para ascensão social, para alcançar melhores condições de vida. Era valorizado, portanto. Hoje talvez o seja menos. Talvez se pense que a vida tem outros pressupostos que não passam necessariamente pela escola; talvez haja quem pense que há outras formas de angariar dinheiro e que este tudo paga e tudo compra. Talvez hajam outros ídolos a venerar, que já não passam por ter mais conhecimento ou mais cultura. Ou será porque o dia-a-dia dos pais – e designadamente das mães – está de tal forma sobrecarregado que não lhes sobra tempo nem coragem para dar mais atenção aos filhos. Ou talvez porque os próprios pais não podem dar aquilo que não têm.

São estas questões que estão subjacentes neste filme, com o rosto de documentário. A Turma (Entre les Murs), de Laurent Cantet, é um filme sobre educação. E, por isso mesmo, é um filme muito abrangente, sobre a sociedade. Filmado numa escola pública presumo que dos subúrbios de Paris, poderia tê-lo sido em Lisboa ou em qualquer outro grande centro urbano, pois os problemas são transversais e cada vez menos conhecem fronteiras. E não se circunscrevem a questões raciais, antes radicam na pobreza e nas más condições socioeconómicas.

Não sei qual é a solução para chamar a atenção dos alunos, nem para os aproximar da escola. Mas para aqueles que advogam um maior facilitismo na abordagem escolar, ou um trazer para dentro das quatro paredes da sala de aula a rua, numa tentativa de aproximar linguagens e códigos, lembro só que não é nivelando por baixo que se obterão melhores resultados. Acho eu, que não sou nem professora, nem pedagoga... Apenas interessada.