quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Divagações da memória...

Por um estranho labor dos fusíveis do pensamento, como que num flashe, veio-me à memória uma peça que vi no Teatro Aberto, em 2006, Os sete dias de Simão Labrosse. Uma peça que adorei, pelas interpretações e pelo texto e que me marcou definitivamente, quer pelos bons motivos já invocados, quer pelos maus, como uma errada reacção de algum do público presente, que parecia não compreender a profundidade dos diálogos que lhes entrava pelos ouvidos e que vagueava com muita dificuldade até ao cérebro. E como os actores se superavam em impossíveis, ao não saltar para a triste realidade desta plateia que os observava no vazio das gargalhadas estridentes e ocas, e a abanar, numa tentativa, por certo inglória, de a acordar do torpor da suposta comédia que teimava em assistir...

Esta peça falava-nos de um homem, Simão Labrosse, que, numa luta para sobreviver e para preencher o vazio da sua existência, inventava um novo emprego a cada dia da semana, dias esses que, metaforicamente, simbolizavam a sua vida. Assim, Labrosse candidatava-se às tarefas mais abstractas e inverosímeis, como: duplo emocional, acabador de frases, adulador do ego, aliviador de consciência e apaixonado à distância. Uma espécie de dama de companhia da solidão de cada um, numa busca desesperada para ser feliz e ser útil aos outros, assim entendi eu.

Devo confessar que de vez em quando os meus fusíveis faíscam neste sentido, lembrando imagens ou curtos diálogos da peça. Marcantes, sem dúvida, pela beleza da alegoria. Como, por exemplo, uma estranha personagem que a minha memória já dificilmente encaixa na narrativa, mas que deixou de herança o facto de, pouco menos que muda e assustada, nunca dizer nada pela positiva, iniciando os seus parcos diálogos com um Não ou um Nada ou um Nunca.

Apagado o clarão da memória, desligado o interruptor, tudo volta à normalidade do presente. Foram-se embora as imagens de Labrosse e da sua luta para ser feliz. Até ao próximo levantar do véu...

8 comentários:

once disse...

Nunca .. e sempre .. duas palavras que uso "quase sempre" "raramente" ;)

Beijinho Paula *

Paula Crespo disse...

Once,
Demasiado absolutas para serem verdade.
Bjs

Flip disse...

Paula
os fusíveis funcionam numa busca desesperada para ser feliz e ser útil aos outros...Continue na busca, não pare nunca, até encontrar!
bj
:-)

Paula Crespo disse...

Flip,
Ahhhhh! :) E não será esse um dever de todos nós? ;)
Obrigada pelo estímulo :)
Bjs

LB disse...

Ai esses inquietos fusíveis...
Bem-hajam!

Bjo

Paula Crespo disse...

LB,
Inquietos, sim... esperemos que tenham seguro contra curto-circuitos...;)
Bjo

mariam disse...

Paula,
que partilha boa... estas suas divagações! obrigada.

partilho então consigo uma coisinha boa que me aconteceu Sábado, após Sintra, disparar vezes sem conta a minha arcaica máquina fotográfica sobre "ela" e seus derradeiros Outonos... segui p'la Marginal (e mais uns clics!) rumo ao CCB onde enchi a "alma" com um "artista" que pouco ou nada conhecia, «Yukio Mishima» o filme " Mishima: A Life in four Chapters" e a peça na garagem do CCB - espantoso! :) "Senhora de Sade"........ ficar-me-ão na memória!

um abraço
e bom fim-de-semana
um sorriso :)

mariam

Paula Crespo disse...

Mariam,
Essa do Mishima deixei escapar, lamentavelmente. Ainda pensei nisso mas já estava fora de programação :(
Bjs