quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A morte saiu à rua...


T. irrompe pela sala: "Já sabes que mataram Benazir Bhutto?..."

Não sabia. Foi há pouco, hoje mesmo. Fiquei chocada, até - e digo "até", porque já deveria estar mais habituada ao rol de desgraças e consequentes rios de sangue que daquela parte do globo nos reportam, diariamente. Mas nunca nos habituamos realmente, não é assim? Principalmente quando se trata de actores importantes, com papéis-chave na cena política, ou outra. Actores nos quais alguém - muitos, mesmo - depositam esperança num amanhã melhor, mais claro, mais transparente.

Benazir pertencia a uma família de elite, abastada, culta e esclarecida. Interveniente, portanto. Tanto, que é amaldiçoada por um país - e citando Cara Ferreira Alves na sua Pluma Capichosa, em Atenção ao Paquistão (Expresso, 21.08.2007) "(...) [país] onde a única lealdade é para com Deus ou o clã". O Paquistão nunca teve uma identidade nacional e colectiva". O seu pai, Ali Bhutto, fundador do Partido do Povo Paquistanês, (partido de base islâmica mas adepto da democracia ocidental), presidente e primeiro-ministro do Paquistão nos anos 70, foi morto pela ditadura militar que se lhe seguiu. Murtaza Bhutto, irmão de Benazir, activista catalogado com a esquerda paquistanesa (seja lá o que isso for...), foi também ele assassinado, em 1996, durante confrontos com a polícia.

Tal como na Índia - primeiro com Gandhi, em 1947, depois com Indira Gandhi, em 1984 -, ou em Israel, com Yitzchak Rabin, em 1995; todos pacifistas ou defensores de uma maior abertura para os seus países, e todos assassinados por extremistas -, também Benazir foi eliminada, afastada da corrida às próximas eleições de 8 de Janeiro - daqui a dias. Esperança, uma vez mais, adiada.

A morte saiu à rua... ou será que ainda de lá não saiu?...

Percurso de Benazir Bhutto
Nascida a 21 de Junho de 1953, filha do antigo primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto, Benazir estudou nos Estados Unidos, em Harvard, e obteve um doutoramento em Filosofia, em Oxford.

Benazir regressou ao Paquistão em 1977 quando o seu pai foi afastado do poder pelo general Zia ul-Haq, antes de ser executado pelo regime militar deste último.

Detida várias vezes ou colocada em prisão domiciliária, Benazir reorganizou o Partido do Povo Paquistanês, fundado pelo seu pai.

Exilada em Janeiro de 1984 em Londres, Bhutto fez um regresso triunfal em 1986. De novo detida dias depois de uma manifestação ilegal contra o general Zia, Bhutto escapou a um atentado em Janeiro de 1987. Em Novembro de 1988, o PPP vencia as eleições e Bhutto tornou-se chefe de governo.

Destituída em Agosto de 1990 por corrupção e nepotismo, Bhutto compareceu perante os tribunais especiais de Setembro de 1990 a Maio de 1991 por abuso de poder e desvio de fundos públicos, acusações das quais será inocentada em 1994.

Derrotada nas eleições de Outubro de 1990, passou a fazer oposição. Em Outubro de 1993 subia novamente ao poder com a vitória do PPP, antes de ser afastada pelos mesmos motivos no final de 1996.

Benazir Bhutto casou em 1987 com Asif Ali Zardari e tinha três filhos.

(in Publico, 27.12.2007)

10 comentários:

Capitão-Mor disse...

Eis o resultado de uma má gestão pós-colonial no antigo Império Britânico, associado às trapalhadas diplomáticas dos EUA...

Paula Crespo disse...

Capitão-Mor,
Exactamente. Desde a divisão forçada da Índia em duas - o que veio a criar o Paquistão, separando hindus e muçulmanos que sempre tinham coexistido, e conduzindo a migrações em massa e a desalojados -, até a tudo aquilo em que os EUA se metem...

Pepe Luigi disse...

Gostei imenso desta sua descrição acerca dessa corajosa estadista de quem eu era e continuo a ser simpatizante.
Desejo para si um pleno final de 2007 e um ainda melhor começo de 2008.

Paula Crespo disse...

Pepe Luigi,
Agradeço a sua visita e retribuo os votos de um bom 2008!
Quanto à corajosa Benazir: é assim que se vê a diferença entre fazer política por se acreditar num ideal, e fazer política em "lume brando", sem riscos, por carreira... Diferenças fundamentais.

Arco-íris disse...

...este terrorismo n tem fim...esperanças p um 2008 melhor...

Arco-íris disse...

...estaremos entao a celebrar o novo ano mt perto...pois la estarei tb...beijinhos e obrigada pela visita

Paula Crespo disse...

Arco-Íris,
Sim, esperanças...
Bom 2008!

Leonor disse...

A situação no Paquistão não deixa, de facto, adivinhar melhores dias, o que nos deve merecer alguma reflexão.

Não tirando o valor a Benazir por tudo o que a sua vida representou, como de resto resumes, não consigo, no entanto, deixar de pensar em alguns aspectos que me parecem importantes para compreender alguma daquela realidade:
- dificilmente alguém casado com um senhor 10% não saberia nada do assunto
- tenho alguma dificuldade em compreender que Benazir tenha "esvaziado" o seu próprio partido de outros líderes, falando-se agora de outro membro da família para perpetuar o seu legado. Aliás estas dinastias políticas onde o nome pode ser mais do que a competência, são um conceito que nos é estranho em termos de famílias e do papel que têm desempenhado em alguns países, e justamente falas-te tb nos Gandhi
- não esqueçamos que Benazir voltou ao Paquistão tendo feito um acordo com os EUA para partilha do poder com Musharraf. Longe de mim defender o Presidente Musharraf, claro, mas tenho tido, neste processo, alguma dificuldade em perceber para que eram necessárias eleições, já que os resultados estavam definidos à partida.
Naturalmente as eleições davam outra legitimidade, mas se por acaso o resultado não fosse a eleição de Benazir, iriamos dar outra magnifica lição de democracia, como fizemos na Palestina, quando dissemos que num regime democrático se fazem eleições, mas porém só são válidas quando se elege quem nós queremos?
E teria Benazir aceite o resultado?

Claro que a interferência externa no Paquistão não é de desprezar, e alguma da turbulência que ali se vive reflecte questões mais profundas relacionadas com a guerra do Afganistão, a Al-Qaeda, a política Norte Americana de combate ao terrorismo e o facto do Paquistão ser um país muçulmano com armas nucleares.

É difícil ver uma solução à vista

E agora que já te ocupei muito espaço, tem uma boa passagem de Ano, e um Bom Ano de 2008

bsj

Paula Crespo disse...

Leonor,
Disseste muito, e bem.
Como sabes, este problema é o do costume, ou seja, quando pensamos em democracia concebemo-la segundo o nosso próprio padrão, ocidental. Em países como este - e como eu referi no post -, funciona muito o sistema de clã, de família. Mais a mais, famílias poderosas e, como diz o povo, "em terra de cegos, quem tem olho é rei"... Daí que possivelmente avance outro membro da família...veremos.
Mas, e apesar de não acreditar que mesmo com Benazir o Paquistão passasse a ser uma democracia (como nós a entendemos), pois não me parece que tal encaixe bem nos padrões deles, para já, havia a esperança que se caminhasse para uma maior abertura e tolerância.

Bom fim-de-ano para ti também e melhores entradas em 2008!!
Bjs

Anti-noise disse...

forte e verdadeiro