Pegava numa caneta e ficava horas a fio a rabiscar palavras soltas numa página que já fora branca. Palavras soltas, sem sentido, sem ligação, apenas pelo puro gozo do exercício mecânico de pintar o papel com a tinta da caneta, de escrever, escrever... Era criança, jovenzinha, adolescente, e aquele acto entretinha-a numa espécie de brincadeira solitária, sem que tivesse qualquer pretensão de narrar histórias ou compor poemas.
Passou o tempo e interrompeu-se a brincadeira. Veio o teclado e, mais tarde, o prazer reinventou-se, de mansinho, pé ante pé, já sem a presença da tinta e do papel, mortos que estavam e a mão perdendo cada vez mais a paciência para o desenho das letras. Desta feita tentando que as palavras se dessem a conhecer umas às outras, se apresentassem e convivessem. Podia até ser que viessem a ser amigas, a crescer juntas. Quem sabe até formar família, multiplicarem-se.
Passaram então a desenvolver-se e a crescer, por impulsos sucessivos, ao sabor dos humores, do que a dona daquela mão impaciente via e lia e sentia e...
Perderam-se no emaranhado dos muitos afazeres, das poucas horas, dos vazios de inspiração, das hesitações. Os pequenos dramas dos casais de palavras, dos arrufos das cedilhas e dos acentos desavindos, num tumulto desordenado com fim à vista.
Pediu-se, então, a opinião de agentes neutros: que sim, é de continuar. Que sim, têm tudo para serem felizes. Afinal de contas, não se abandonam as palavras à primeira dificuldade, ao primeiro contratempo.
Procurou-se pois a reconciliação. Timidamente foram voltando, aos poucos, com sorrisos estreitos, combinando encontros nas páginas umas das outras, visitando-se.
Pouco a pouco, foram ganhando confiança. O sorriso tímido deu lugar ao riso e este à gargalhada. Estavam felizes, as pobres!, conviviam unidas e projectavam futuros longos.
Prometeram continuar juntas, mesmo que a dona se aborrecesse, as ignorasse e lhes fechasse a tampa do teclado.
Sábado à noite. No Lourdes Norberto sobe ao palco a última homenagem deste ano, desta vez a uns senhores que fazem 33 anos de existência e que eu, confesso a minha ignorância, julgava já moribundos para as cantorias. Falo da Brigada Victor Jara, assim baptizada em honra do chileno assassinado aquando do derrube do regime de Salvador Allende, em Setembro de 1973.
De viva voz fiquei a saber que nasceram em 1975 e que, no contexto revolucionário, incluíram-se nas campanhas de alfabetização para, a partir de Coimbra e através da música, fazer chegar junto dos iletrados a luz das raízes musicais do povo - ou seja, dos próprios. Era uma outra espécie de alfabetização, paralela à das letras e das contas de somar; esta, a dos sons reconhecidamente bons, de qualidade, autênticos.
O que este grupo faz é música da melhor. Com base numa recolha etnográfica, faz uso de uma multiplicidade de instrumentos musicais que vão desde a viola, a viola braguesa, a gaita de foles, o violino, a flauta, o acordeão, os ferrinhos, entre outros. Todos os sons são bem-vindos e a Brigada Victor Jara cozinha-os magistralmente. Ou, como talvez eles próprios o diriam, "os cozinheiros não somos nós mas o povo que gerou esta música". E é precisamente aqui que é devida a reflexão. Música popular, música pimba, música pop, música para o povo, música de recolha etnográfica. Tudo coisas diferentes, como é bom de ver. O Estado Novo foi pai de um género dito popular mas que ficou para os anais da História como género maldito, o folclore. De cariz propagandístico, servia os intentos do Estado e pintava um povão de bochechas cor-de-rosa, reduzindo-o a bilhete-postal das chamadas regiões administrativas.
Em contrapartida, surge um trabalho mais sério, de recolha, como é o caso deste grupo, entre outros que também se dedicam a perpetuar a tradição oral portuguesa. Aqui as notas são bem outras, o tratamento, a harmonização das cantigas soa de maneira totalmente diferente: mais rica, mais genuína, muito melhor.
Depois, surge o pimba. Género popular, sem dúvida, mas sem o mérito que se atribui à música popular tradicional, assente numa pobreza musical muitas vezes confrangedora mas que, por isso mesmo, entra muito facilmente no ouvido.
Há, portanto, várias versões de música popular. Todas elas saídas do povo e para o povo. Todas elas por ele apreciadas, se bem que em momentos e contextos diferentes. A primeira, fruto de uma ruralidade fechada em si mesma, sem grandes influências do exterior a não ser a que lhe advinha da poeira dos séculos, já que em muitos casos se nascia e morria sem visitar a aldeia vizinha; cantava a sua realidade através de instrumentos tradicionais, proporcionando uma harmonia e beleza próprias das coisas simples. A segunda, manipulada, acatitada, voz do pobrete mas alegrete, já sem o charme da primeira. Agora, o pimba, versão industrializada, consumista, que ora canta a saga do emigrante de Agosto, ora se detém nas mundanidades suburbanas do shopping.
Porém, todas elas populares, se entendermos como tal um género que nasce do povo e a ele agrada. Todas elas, a meu ver, explicadas pelas conjunturas que lhe correspondem e pela dinâmica da História. Do mundo rural, fechado, traduzido aqui em regiões com identidade própria, à globalização, à linguagem comum.
De entre as três nem pestanejo quanto à escolha. É evidente que é da primeira, da música popular tradicional, que me chegam os sons que me encantam, pela variedade e riqueza que permitem. Mas não posso deixar de me lembrar de uma frase que vi há dias pespegada na parede de um café e que, tão a propósito, falava assim: "o povo gosta de luxo; quem não gosta é intelectual". À música, e não só, assenta-lhe como uma luva...
Traz outro amigo também. E outro. E outro ainda, todos pela mão de Armando Caldas, o director do Intervalo Grupo de Teatro, que mora no Auditório Lourdes Norberto, em Linda-a-Velha.
A cada Outubro - há já 27 anos a esta parte, repete efusivamente Armando -, que esta Companhia de teatro celebra a sua existência com uma Semana Cultural (ver post de 8/11/2007), em que todos os dias se homenageia alguém das artes do espectáculo com outro alguém que percorre o seu caminho, necessariamente longo, feito de muitos e muitos anos a pisar palcos. São palavras de apreço que poderiam soar a uma banal troca de galhardetes, não fossem estes eleitos gente de reconhecido mérito e muitas provas dadas. Palavras, não discursos; conversas entre amigos, com o toque da informalidade que o momento requer. A acompanhá-las, a música, sempre. Sempre nacional e sempre variada, como variados são os aniversariantes.
O aniversariante de hoje (ou melhor, de ontem, o relógio não mente...) à noite chama-se Nicolau Breyner. Esse mesmo, o actor que dispensa apresentações; um clássico dos palcos e ecrãs nacionais, tão clássico que quase nos esquecemos dele, não está na moda; que saiu do Conservatório com um diploma em drama para, logo de seguida, mergulhar de cabeça na comédia, que lhe ficaria colada à pele para o resto da vida, não fosse uma troca de agulhas, ao regressar ao primeiro género, através de vários papéis dramáticos representados no cinema nos últimos tempos. Pela minha parte prefiro-o assim, neste registo sério, como em Os Imortais, filme de António Pedro Vasconcelos, baseado no romance de Carlos Vaz Ferraz Os lobos não usam coleira. O título do filme vai beber à tropa de elite do exército persa; um thriller centrado em quatro ex-comandos da Guerra Colonial que, marcados por perturbações que lhes guiam as vidas, mantêm todos os anos um ritual que lhes permite recordar os velhos tempos e solidificar o espírito de grupo. Neste filme, Breyner dá corpo e alma ao inspector da Judiciária, cujo faro de velho tarimbeiro, amante de fado e outros petiscos, lhe permite ver para além das aparências.
Deste e de outros Breyner falaram Carmen Dolores e Jorge Leitão Ramos, a primeira, testemunha do teatro; o segundo, elencando o seu percurso no cinema. Memórias revisitadas ao longo de duas horas de convívio. Porque de convívio se trata, assim com sabor a tertúlia, acompanhada à viola por Rui Veloso e sua banda, entre gracejos e pequenas estórias; os clássicos do Rui cantados por todos, de cor, de tão entranhados e sabidos que já fazem parte da memória musical deste País.
Anteontem houve outro e, no dia anterior, outro ainda. Amanhã haverá mais. Até domingo. Armando Caldas traz até nós este ano Luís Miguel Cintra, João Mota, o grupo coral Cramol, Nicolau Breyner, Carlos Avilez e a Brigada Victor Jara. Com eles e para eles a música de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Rui Veloso, João Afonso, Xaile, entre outros.
Neste espaço pequeno, neste cantinho acolhedor, a rebentar pelas costuras, de tanta gente, sentada no chão que já não há cadeiras que cheguem. Vêm bancos de pau em socorro das pernas dos que aguardam em pé... É sempre assim, ano após ano. Vão os habitués e os novos, uns e outros à espera do reconforto de um serão em família, que interrompe a rotina e faz a semana merecer-se. Livremente, que por cá não se cobram entradas.
Lamento muito desiludi-lo, senhor António, mas, por mais que me esforce, ainda não foi desta que consegui dizer mal de si. Gostaria de lhe fazer a vontade, de o surpreender, elevando-me assim da massa anónima de admiradores seus, dizendo que as suas crónicas são um enfado, são mais do mesmo - e que dizer do estilo! -, aquela mania de fazer apartes em parágrafos soltos, suspiros, falar com os seus botões…
Confesso a minha incapacidade para cumprir tal propósito. Prometo continuar a esforçar-me mas, ou a minha falta de jeito ou a sua inesgotável arte de bem pintar pequenos nadas, fazem antever um caminho difícil. A ver vamos: enquanto há vida há esperança…
Ver crónica de António Lobo Antunes, Eu, em Agosto, "Visão", 26/09/2008
É este o título curioso e bem arquitectado, num trocadilho feliz, da nova exposição do Museu Berardo, no CCB, que pretende renovar anualmente a sua exposição permanente, de acordo com o que tenho lido a este respeito.
Apresentada como um percurso da figuração na pintura dos últimos cinquenta anos, esta exposição contempla obras de diversos autores. Mas foram as telas de Paula Rego, Noronha da Costa e Julião Sarmento as que mais me cativaram, por uma empatia estética. A pintura figurativa, influenciada pela fotografia, o cinema ou o multimédia, pretende reter imagens do real, sendo que os "transforma", interpretando-o, numa óptica mais próxima do sentimento do que da visão nua e crua. Assim, e voltando ao meu sentir sobre Paula Rego, por exemplo, as criaturas que figuram nas suas telas falam-nos de lendas e contos mas, pela força da sua própria realidade, ganham vida própria, impõem-se-nos, e não se limitam tão somente a ilustrar a narrativa que lhes serviu de berço. Numa imagem que vem a propósito, este pequeno excerto de Henry Miller (in Trópico de Capricórnio, 1939) que, e em sintonia com o Comissário da Exposição Eric Corne, retirei do folheto de divulgação da mesma:
Já não olho nos olhos da mulher que tenho nos meus braços, mas atravesso-os a nado, cabeça, braço e perna inteira, e vejo que por detrás das órbitas do seus olhos se estende um mundo inexplorado, mundo de coisas futuras.
De salientar a presença de pintores de paragens mais distantes, como é o caso do filipino Manuel Ocampo ou do sul-africano William Kentridge, a que, normalmente, dificilmente temos acesso.
Apesar de toda a polémica gerada em torno de Berardo (muitas vezes mais pela provocação da sua própria figura, tão mal-aceite nos meios intelectuais), e sem querer tomar partido pois, para isso, é necessário estar por dentro da política cultural e dos meandros do negócio, reconheço-lhe que trouxe uma vantagem para o público em geral: o livre acesso contribui para alguma democratização da arte, bem como uma rotatividade francamente apreciável das obras expostas. Faz-nos falta um museu de grande projecção, que não temos, como um Guggenheim, um Prado ou um Moma. Bem sei que a dimensão é diferente da dos países onde esses estão instalados, mas seria uma âncora que atrairia visitantes, turistas e consumidores de produtos culturais e que, consequentemente, imprimiria à cidade - ou ao País - uma dinâmica mais cosmopolita.
Aquele querido mês de Agosto escolhido para nomeação aos Óscares
O Instituto do Cinema e do Audiovisual anunciou que Aquele querido mês de Agosto, filme de Miguel Gomes, é o candidato português a uma nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro. As nomeações serão conhecidas em Janeiro de 2009 e a entrega dos prémios a 22 de Fevereiro.
Este filme (ver postA realidade é um lugar estranho..., de 08/09/2008) concorre com o italiano Gomorra, sobre a mafia napolitana e com o brasileiro Última parada 174 ou, ainda, com o francês A Turma. Vejamos se, nomeadamente mais um registo do mundo da máfia, não se sobrepõe a este olhar despretensioso sobre o interior português... Seja como for, penso que é de registar algum reconhecimento a esta "fita".
É a pronúncia do Norte, já cantava Rui Reininho, dos GNR. É a pronúncia do Norte, os costumes do Norte, o frio do Norte. É a diferença, demasiadas vezes mistificada, entre Norte e Sul, preconceitualizada. É a lenda, o desconhecimento. O cliché.
Todos os países têm esta dicotomia entre Sul e Norte e Bem-vindo ao Norte (Bienvenue chez les ch’tis) é um filme com piada. Este filme, divertidíssimo, é muito mais do que uma comédia, ao denunciar os clichés e as ideias erradas sobre um norte desconhecido dos próprios franceses, protagonizado por Nord Pas de Calais, encarada até à data como uma região atrasada, de grunhos, pobre, uma espécie de degredo para quem, por ironia do destino, lá fosse parar.
Mais do que um filme, esta comédia revelou-se uma excelente aposta enquanto produto turístico e de promoção da região. Produzido com a colaboração das respectivas autarquias, que ajudaram a financiá-lo, ele é, neste momento, o maior sucesso de bilheteira do cinema francês, pondo "na moda" o sotaque, os costumes e até alguns produtos da região.
A este propósito, transcrevo uma citação do DN (ver artigo):
Quando o Le Monde publicou um artigo acusando Bem-Vindo ao Norte de estereotipação regional, o ex-ministro da Cultura Jack Lang, deputado socialista pelo Nord-Pas-de-Calais, saiu em sua defesa, dizendo: "As pessoas ali são generosas e simpáticas. São autênticas! O filme é, sim, contra os clichés."
Já vos tenho dito que, de vez em quando, aterram no meu mail coisas engraçadas? Pois é! E aqui vai mais uma que vos deixo, em vésperas de mais um fim-de-semana: Danny Kaye e Louis Armstrong, num dueto cheio de luz!
Numa época de revivalismos, reabilitam-se os ABBA, entre muitos outros dos 70’s e dos 80’s. Já não são foleiros nem pirosos. E não são mesmo. Reis da pop, as suas canções sobreviveram todos estes anos por mérito próprio e distinguem-se de outra pop mais actual, pela qualidade musical e das letras que, dentro do género, são bem melhores do que muitas que por aí andam. Este filme, todo ele centrado na música da banda sueca, com interpretações fantásticas de todo o elenco, e com uma Meryl Streep fora do tradicional registo dramático, dando provas de ser uma actriz por inteiro, que agarra qualquer papel, é uma injecção de boa disposição. Um conto de fadas cor-de-rosa choque, é certo, mas que deixa um sorriso e transmite uma energia contagiante. Ao contrário do que se possa pensar, agrada não só aos mais velhos como também aos seus filhos. Absolutamente transversal!
E, fazendo coro…
Thank you for the music, the songs I'm singing Thanks for all the joy they're bringing… É este o espírito. Não para pensar, mas para sentir.
Obama versus Palin. Porque é disso que se trata. Umas eleições que, até há pouco tempo, pareciam estar bem encaminhadas para o lado dos democratas, revelam-se agora como que ensombradas pela “aparição” em cena desta verdadeira deusa do obscurantismo. Se, em termos oficiais e formais, as eleições americanas se disputam entre Obama e McCain, a realidade no terreno parece ser diferente. Sarah Palin ganha protagonismo e remete o candidato McCain para segundo plano na discussão pública, como se fosse ela própria a candidata à presidência.
É de Palin que se fala ou, se quisermos, McCain fala através dela, como se tivesse nela delegado plenos poderes de representação. Esta mulher, que nos entra pela casa dentro com ar alucinado, que em nada defende os direitos das mesmas; uma mulher que, completamente tonta, se manifesta a favor da pena de morte, do uso generalizado das armas (como se já houvessem poucas...); que não acredita no aquecimento global e não percebe a vantagem da utilização das energias alternativas. Uma mulher de um fundamentalismo atávico, quer religioso, quer político, quer tudo, que defende o uso da força para a resolução dos conflitos internacionais, dos quais é fácil de ver que está a anos-luz de os entender. A última ideia brilhante nesta matéria, é a de que os EUA deveriam declarar guerra à Rússia…
Posto isto, é fácil “bater” na senadora. E bate-se muito, em português, espanhol, francês, inglês, alemão, italiano, etc. Em europeu. Mas a dúvida mantém-se: será que em americano se vai bater o suficiente? A utilização de Palin como “estrela da Companhia” nesta campanha eleitoral foi um golpe de mestre por parte dos republicanos, ao puxar pelos sentimentos mais autênticos da América profunda e ultraconservadora que, como sabemos, é demasiado extensa para ser ignorada. Enquanto McCain, que responde aos anseios de um eleitorado conservador e republicano, se preocupa, no entanto, em fazer passar a mensagem de alguma mudança em relação à política vigente(!), com Palin pretende-se garantir o voto do eleitorado mais retrógrado.
Não fosse esta uma eleição do império, mesmo que em declínio anunciado, e rir-nos-íamos de tamanhos disparates. Mas sendo-o, é assustador.
Prémio para Melhor Filme e Melhor Realizador nos Goya, os mais importantes galardões cinematográficos espanhóis, é a história de duas mulheres, dois destinos urbanos cruzados. Adela é uma mãe solteira que decide deixar a pequena cidade de província em que vive e ir para Madrid com o seu bebé, Miguel. Na capital espanhola, Adela faz novos amigos e aluga um quarto na casa de Carlos e Inés. Mas um ataque terrorista irá despedaçar a vida de Adela. Já Antonia, a mãe de Inés tem um pequeno supermercado e vive uma vida tranquila com o companheiro e as suas três filhas. Mas no dia em que uma das filhas lhe pede dinheiro a paz familiar termina.
Segunda longa-metragem de Jaime Rosales, o filme ganhou ainda o prémio de Melhor Actor Revelação nos Goya para o actor José Luis Torrijo e foi apresentada no Festival de Cannes, na secção Un Certain Regard. (in Cartaz Público)
Gosto de Espanha e dos espanhóis, pela diversidade do território e vivacidade do carácter. Gosto da cultura, das letras e das artes. País vizinho, com tanto em comum como de diferente com o nosso, repudio a velha ideia, transmitida de geração em geração e ainda muito entrincheirada – principalmente na zona da raia… - de que de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. Mito antigo, só “justificado” por uma História de conquistas de território e de poder, feita de avanços e recuos ao longo dos tempos.
Este filme que estreia hoje por cá, poderá não ajudar a desfazer o mito. Poderá não cativar um público mainstream, quer pelo ritmo lento da acção, quer pela “demasiada” identificação com um quotidiano baço, tristonho, que não nos fará voar nem sonhar com as estrelas. Feito de micro-histórias do dia-a-dia de gente anónima, esta longa-metragem do catalão Jaime Rosales está no extremo oposto aos filmes de Almodôvar, apreciado transversalmente pelo colorido da acção, pelo exotismo, pela excentricidade da narrativa. Aqui, em A Solidão, os dramas das personagens são talvez mais reais do que em Almodôvar, mais comuns. É uma solidão feita de muitos silêncios e vivida em vários cenários, conforme as várias personagens que compõem o filme, e que nos fala da fragilidade da vida, deixando-nos uma incómoda sensação de vazio.
Porque o cinema espanhol é mais do que Almodôvar. A ver, sim, mas não num dia cinzento…
Aquele querido mês de Agosto, filme de Miguel Gomes que estreou recentemente, tem muito que se lhe diga. Um pouco ao sabor dos acontecimentos, e fruto de um conjunto de circunstâncias, este filme, como um rio, tomou um curso um pouco diferente do que o que estava previamente pensado na cabeça de Miguel Gomes, de acordo com as palavras do próprio realizador, transformadas em letra de artigo publicado num dos nossos semanários. Por falta de dinheiro, o que parece ser uma constante nestas lides, este filme deixou de ser uma ficção por inteiro, para passar a iniciar-se como documentário. Escolhidas algumas terras do concelho de Arganil - penso que por nenhuma razão em especial a não ser o facto de ser uma zona que o realizador conhece desde menino -, a câmara vai registando os momentos característicos, que vivem tanto lá como aqui, no celulóide: as procissões, a caça ao javali, o jogo da malha, o Agosto dos emigrantes, as festinhas e os bailaricos, protagonistas privilegiados durante estas duas horas e meia de filme. Mas há mais. Interpretado por actores amadores e gente da própria terra, fala-nos dela na primeira pessoa. As histórias de vida, os pequenos mitos de algumas “cromos” locais, figuras criticadas e, ao mesmo tempo, enaltecidas nas memórias desta terra e que conseguimos facilmente identificar como personagens-tipo, reconhecidas noutras regiões. Momentos e personagens que pontuam um Agosto do Interior.
Único filme português presente na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, que decorreu de 15 a 25 de Maio último, este filme poderia ser entendido como um retrato de uma ruralidade kitch: uma crítica a esta realidade que, vista de fora, através dos olhos da gente da cidade, nos surge estranha e que tendemos a rejeitar. A parte de ficção, com uma historieta algo embrulhada sobre um pai demasiado agarrado à sua amargura e à filha-menina-prodígio, contribui para carregar os tons desta realidade estranha… Mas subsiste, a meu ver, um retrato de autenticidade, do Portugal profundo e de gente marcada pela interioridade. No final, um diálogo, magnífico e surreal, em que o realizador parece querer dar luz sobre o filme, ao dizer-nos qualquer coisa como “só existe aquilo que eu vivo, aquilo a que eu reconheço existência”.
É aos saltos que um mar de gente termina cada noite da Festa do «Avante!», ao som da Carvalhesa. Uma visão contagiante, sem dúvida, de uma multidão ululante, aos pulinhos, entre risadas, copos e uma espécie de ensaio mal-amanhado de dança de roda.
A Carvalhesa é uma música de dança de roda transmontana. Recolhida na aldeia de Tuiselo, perto de Vinhais (Bragança), em 1932, por Kurt Schindler, um maestro e compositor alemão radicado nos Estados Unidos, ficou registada no livro editado pela Columbia University, em 1941, Folk Music and Poetry of Spain and Portugal. Mais tarde, em 1970, um etnólogo corso, Michel Giacometti, responsável por uma missão internacional de estudo do folclore das ilhas mediterrânicas, resolve seguir as pistas deixadas por Schindler e descobre uma outra versão da Carvalhesa nesta região de Trás-os-Montes, pressupondo-se que, tratando-se de uma música de baile, terão havido outras versões, apagadas pelo tempo.
Em 1985, o PCP adopta esta música como hino para as suas actividades, designadamente para a abertura e encerramento da Festa.
Numa festa em que a música constitui o principal atractivo para a grande maioria dos participantes, que a vêem como mais um festival onde podem assistir, por bom preço, a um conjunto diversificado de bandas e estilos para muitos gostos, a Festa do «Avante!», continua ainda a ser um acontecimento a reter, apesar da feroz concorrência de todos os outros festivais que enchem o calendário. Uma verdadeira feira, onde a música se mistura entre tendas de artesanato e quinquilharia, em que o velhinho lenço palestiniano sobrevive, malgré tout, e se “actualiza” em várias cores; em que as tendas de comida regional e internacional, de um universo comunista cada vez mais escasso, divulgam sabores esperados; em que ranchos folclóricos satisfazem os mais velhos adeptos do Partido, saudosistas de um tempo que já lá vai e que, mesmo assim, muitos deles não chegaram a viver; palcos de propaganda ideológica, naturalmente inerente ao espírito da Festa, já que, apesar da confusão existente em muitas mentes, não se trata de mais um qualquer festival. É assim, neste reino do brique-à-braque, que a Festa do «Avante!» sobrevive e se afirma, ainda e remando contra a maré. Com o esforço dedicado de muitos militantes do PCP, verdadeiros elos nesta corrente, que erguem a Festa.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", já cantava Camões no século XVI. E é bem verdade. Sinal dos tempos e da inevitável alteração das conjunturas históricas, ditadas pelo desenvolvimento económico e pelas alterações vividas pelas sociedades modernas, a ideologia comunista e os seus partidos nacionais têm vindo a perder terreno (não obstante se lhes reconhecer a estes um papel louvável, ainda agora, como porta-voz das populações, podendo funcionar como elemento de equilíbrio e ponderação na tomada de decisão política, como "travão" do status quo). A propósito, lembro aqui o excelente documentário que a RTP passou esta semana, Comunismo – História de uma ilusão, e que tão bem ilustra o seu nascimento, apogeu e declínio. Naturalmente, como tantas outras correntes, apontando aspectos fortes e fraquezas que o caracterizaram em quase 100 anos de domínio da cena internacional. Imperdível, para melhor se perceber a História.
Resta, pois, a Festa. “São as águas de Março fechando o Verão”, cantava Elis Regina, a propósito do seu país tropical. Aqui, a Festa, com os seus contornos de rentrée. Sempre no início de Setembro. Sempre a fechar o Verão.
Nunca tinha lido nada de Beatriz Pacheco Pereira. Dela apenas sabia ser irmã do seu irmão, o próprio, e de ser uma das fundadoras do Fantasporto, o Festival Internacional de Cinema do Porto.
As fabulosas histórias dela: contos do Porto imaginado é um livro publicado em 2003. Contos no feminino, histórias dela, ou melhor, de várias elas que parecem ter um denominador comum: a espera. Mulheres sozinhas ou mal acompanhadas que esperam ser felizes. Como tantas e tantos. Mulheres de um quotidiano num espaço do norte, supostamente imaginado, mas que reflecte o dia-a-dia deste nosso presente urbano, com os desencontros e as aspirações que pontuam as nossas vidas. Bem escrito, na medida certa, em que nos apercebemos dos sentimentos das personagens, sem que para tal Beatriz tenha recorrido a excessivos floreados de escrita, foi com prazer que li estes contos.
Há muito tempo que não recorria a uma biblioteca pública para requisitar um livro. O espírito consumista em que vivemos e a necessidade ou o hábito de possuirmos coisas faz com que nos esqueçamos que existem recursos disponíveis e de fácil acesso. Colhido um pouco ao acaso na biblioteca, foi graças a ela que, mais tarde e em casa, descobri que tinha nas mãos um livro com uma dedicatória da autora dirigida a Eduardo Prado Coelho…! Vantagens deste circuito por espaços públicos, cujas obras vivem e respiram entre tantas mãos e cumprem, assim, melhor a sua função de passa-palavra…
My Funny Valentine - "The Talented Mr. Ripley" (gentilmente cedido por Oliver Pickwick)
Destaques...
Espectáculo Final da Escola de Dança do Conservatório Nacional
Teatro Camões
2 Jul: 21h, 3 Jul: 16h, 21h, 4 Jul: 16h
Lula Pena
Fundação Calouste Gulbenkian
2 Jul: 21h30
Jazz às Onze
Festas de Lisboa 2010
30 Jun, 1 a 11 Jul: 11h e 23h
Curtas 2010 - II Mostra de Teatro de Peças de Curta Duração
Traseiras do Mercado da Ribeira, Lisboa
Até 4 de Julho
XI Grande Noite de Ballet Flamenco
Teatro Tivoli
10 de Julho, 21h30
Cool Jazz Fest 2010
Locais: Cascais, Parque Marechal Carmona - Parque Marechal Carmona
Gandarinha, Hipódromo Manuel Possolo - R. Visconde da Gandarinha
Mafra, Jardim do Cerco
Cascais, Parque Palmela - Av. Marginal
De 01-07-2010 a 29-07-2010
Todos os dias às 22h00 (portas abrem às 21h)
Festival ao Largo 2010
Largo de São Carlos
26 Jun a 27 Jul: 19h-22h