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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Inconformismos

Revolutionary Road, de Sam Mendes


Estreou há dias o último filme de Sam Mendes, o homem que já tinha realizado Beleza Americana, esse filme espectacular sobre o modo de vida da classe média dos States. Tema recorrente este, já que é também sobre a classe média americana e sobre a vidinha caseira, pacata e ordeira de um casal dos anos 50 que Sam Mendes nos conduz o olhar.

Subúrbios de Connecticut, 1955. A vida do casal Wheeler não corre sobre rodas. Vida organizada, de um casal com dois filhos e um emprego estável, não chega, no entanto, para satisfazer as aspirações desta dupla que se julga de certa forma “especial”. O mote “Paris” surge nas suas conversas como um escape, uma libertação, um ideal de liberdade e uma promessa de uma vida cheia, plena de satisfação pessoal, em contraponto com aquela pacatez e monotonia americana de subúrbio ajardinado e soalheiro, em que os dias se adivinham iguais e sem estremecimentos. Ao terem mudado para Revolutionary Road (a morada da casa que alugaram quando nasceram os filhos e onde resolveram instalar-se), não poderiam imaginar, contudo, em como este nome lhes seria premonitório. Um autêntico caminho revolucionário, que rimava com a ideia de tudo abandonarem e recomeçarem a vida em Paris, onde ela trabalharia e ele teria tempo livre para descobrir o que quereria fazer da sua vida, revolucionando por completo o sistema, o American Dream, que ditava que o homem era o cabeça de casal e, por isso, que a ele cabia sustentar a família; que ditava, também, que uma família com filhos deveria pautar o seu quotidiano por um ramerrão sossegado; que ditava, ainda, que era normal aceitar-se um emprego estável, ainda que completamente desinteressante, e que a fogosidade de outros voos ficava vedada aos casados com responsabilidades familiares.

Sonho e realidade. De que maneira é que o sonho se pode tornar realidade ou, pelo contrário, será que se trata de duas situações antagónicas e inconciliáveis... No caso dos Wheeler, a “revolução” contra o conformismo que pensavam levar a cabo não viu a luz do dia e transformou-se no maior pesadelo das suas vidas.

Adaptado do romance de Richard Yates, os diálogos exprimem, assim, um sabor literário muito interessante. Com uma realização muito bem conseguida, através de planos em que a acção decorre de forma suficientemente explícita mas sem que o óbvio nos seja servido de bandeja, a empanturrar-nos com finais de diálogos desnecessários, e de uma composição de personagens perfeita, em que todas elas têm uma função bem definida, este filme revela-se como um dos melhores dos últimos tempos. De salientar o excelente desempenho de Kate Winslet, no papel da protagonista insatisfeita e sonhadora e de um Leonardo DiCaprio maturo. A personagem do vizinho louco, interpretada por Michael Shannon, faz-nos lembrar um pouco o Coro das tragédias gregas, a voz da consciência, aquele que goza da liberdade para dizer a verdade, sem se intimidar pelo discurso das conveniências sociais.

Um filme que merece as cinco estrelas. Uma reflexão absolutamente imperdível.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A América do nosso descontentamento

Obama versus Palin. Porque é disso que se trata. Umas eleições que, até há pouco tempo, pareciam estar bem encaminhadas para o lado dos democratas, revelam-se agora como que ensombradas pela “aparição” em cena desta verdadeira deusa do obscurantismo. Se, em termos oficiais e formais, as eleições americanas se disputam entre Obama e McCain, a realidade no terreno parece ser diferente. Sarah Palin ganha protagonismo e remete o candidato McCain para segundo plano na discussão pública, como se fosse ela própria a candidata à presidência.

É de Palin que se fala ou, se quisermos, McCain fala através dela, como se tivesse nela delegado plenos poderes de representação. Esta mulher, que nos entra pela casa dentro com ar alucinado, que em nada defende os direitos das mesmas; uma mulher que, completamente tonta, se manifesta a favor da pena de morte, do uso generalizado das armas (como se já houvessem poucas...); que não acredita no aquecimento global e não percebe a vantagem da utilização das energias alternativas. Uma mulher de um fundamentalismo atávico, quer religioso, quer político, quer tudo, que defende o uso da força para a resolução dos conflitos internacionais, dos quais é fácil de ver que está a anos-luz de os entender. A última ideia brilhante nesta matéria, é a de que os EUA deveriam declarar guerra à Rússia…

Posto isto, é fácil “bater” na senadora. E bate-se muito, em português, espanhol, francês, inglês, alemão, italiano, etc. Em europeu. Mas a dúvida mantém-se: será que em americano se vai bater o suficiente? A utilização de Palin como “estrela da Companhia” nesta campanha eleitoral foi um golpe de mestre por parte dos republicanos, ao puxar pelos sentimentos mais autênticos da América profunda e ultraconservadora que, como sabemos, é demasiado extensa para ser ignorada. Enquanto McCain, que responde aos anseios de um eleitorado conservador e republicano, se preocupa, no entanto, em fazer passar a mensagem de alguma mudança em relação à política vigente(!), com Palin pretende-se garantir o voto do eleitorado mais retrógrado.

Não fosse esta uma eleição do império, mesmo que em declínio anunciado, e rir-nos-íamos de tamanhos disparates. Mas sendo-o, é assustador.