É aos saltos que um mar de gente termina cada noite da Festa do «Avante!», ao som da Carvalhesa. Uma visão contagiante, sem dúvida, de uma multidão ululante, aos pulinhos, entre risadas, copos e uma espécie de ensaio mal-amanhado de dança de roda.
A Carvalhesa é uma música de dança de roda transmontana. Recolhida na aldeia de Tuiselo, perto de Vinhais (Bragança), em 1932, por Kurt Schindler, um maestro e compositor alemão radicado nos Estados Unidos, ficou registada no livro editado pela Columbia University, em 1941, Folk Music and Poetry of Spain and Portugal. Mais tarde, em 1970, um etnólogo corso, Michel Giacometti, responsável por uma missão internacional de estudo do folclore das ilhas mediterrânicas, resolve seguir as pistas deixadas por Schindler e descobre uma outra versão da Carvalhesa nesta região de Trás-os-Montes, pressupondo-se que, tratando-se de uma música de baile, terão havido outras versões, apagadas pelo tempo.
Em 1985, o PCP adopta esta música como hino para as suas actividades, designadamente para a abertura e encerramento da Festa.
Numa festa em que a música constitui o principal atractivo para a grande maioria dos participantes, que a vêem como mais um festival onde podem assistir, por bom preço, a um conjunto diversificado de bandas e estilos para muitos gostos, a Festa do «Avante!», continua ainda a ser um acontecimento a reter, apesar da feroz concorrência de todos os outros festivais que enchem o calendário. Uma verdadeira feira, onde a música se mistura entre tendas de artesanato e quinquilharia, em que o velhinho lenço palestiniano sobrevive, malgré tout, e se “actualiza” em várias cores; em que as tendas de comida regional e internacional, de um universo comunista cada vez mais escasso, divulgam sabores esperados; em que ranchos folclóricos satisfazem os mais velhos adeptos do Partido, saudosistas de um tempo que já lá vai e que, mesmo assim, muitos deles não chegaram a viver; palcos de propaganda ideológica, naturalmente inerente ao espírito da Festa, já que, apesar da confusão existente em muitas mentes, não se trata de mais um qualquer festival. É assim, neste reino do brique-à-braque, que a Festa do «Avante!» sobrevive e se afirma, ainda e remando contra a maré. Com o esforço dedicado de muitos militantes do PCP, verdadeiros elos nesta corrente, que erguem a Festa.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", já cantava Camões no século XVI. E é bem verdade. Sinal dos tempos e da inevitável alteração das conjunturas históricas, ditadas pelo desenvolvimento económico e pelas alterações vividas pelas sociedades modernas, a ideologia comunista e os seus partidos nacionais têm vindo a perder terreno (não obstante se lhes reconhecer a estes um papel louvável, ainda agora, como porta-voz das populações, podendo funcionar como elemento de equilíbrio e ponderação na tomada de decisão política, como "travão" do status quo). A propósito, lembro aqui o excelente documentário que a RTP passou esta semana, Comunismo – História de uma ilusão, e que tão bem ilustra o seu nascimento, apogeu e declínio. Naturalmente, como tantas outras correntes, apontando aspectos fortes e fraquezas que o caracterizaram em quase 100 anos de domínio da cena internacional. Imperdível, para melhor se perceber a História.
Resta, pois, a Festa. “São as águas de Março fechando o Verão”, cantava Elis Regina, a propósito do seu país tropical. Aqui, a Festa, com os seus contornos de rentrée. Sempre no início de Setembro. Sempre a fechar o Verão.
domingo, 7 de setembro de 2008
“Carvalhesa”: o som da Festa
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
As fabulosas histórias dela
Nunca tinha lido nada de Beatriz Pacheco Pereira. Dela apenas sabia ser irmã do seu irmão, o próprio, e de ser uma das fundadoras do Fantasporto, o Festival Internacional de Cinema do Porto.As fabulosas histórias dela: contos do Porto imaginado é um livro publicado em 2003. Contos no feminino, histórias dela, ou melhor, de várias elas que parecem ter um denominador comum: a espera. Mulheres sozinhas ou mal acompanhadas que esperam ser felizes. Como tantas e tantos. Mulheres de um quotidiano num espaço do norte, supostamente imaginado, mas que reflecte o dia-a-dia deste nosso presente urbano, com os desencontros e as aspirações que pontuam as nossas vidas. Bem escrito, na medida certa, em que nos apercebemos dos sentimentos das personagens, sem que para tal Beatriz tenha recorrido a excessivos floreados de escrita, foi com prazer que li estes contos.
Há muito tempo que não recorria a uma biblioteca pública para requisitar um livro. O espírito consumista em que vivemos e a necessidade ou o hábito de possuirmos coisas faz com que nos esqueçamos que existem recursos disponíveis e de fácil acesso. Colhido um pouco ao acaso na biblioteca, foi graças a ela que, mais tarde e em casa, descobri que tinha nas mãos um livro com uma dedicatória da autora dirigida a Eduardo Prado Coelho…! Vantagens deste circuito por espaços públicos, cujas obras vivem e respiram entre tantas mãos e cumprem, assim, melhor a sua função de passa-palavra…
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
A partida do Mestre Caymmi
Quem não conhece músicas como Modinha para Gabriela, Marina, São Salvador, Você já foi à Bahia?, O dengo que a nega tem, Doralice, Saudade da Bahia, Rosa Morena, O que é que a baiana tem, entre muitas, muitas outras canções que fazem parte das nossas memórias e que, muitas vezes, não lhe atribuimos a autoria, pois conhecemo-las interpretadas por todas as grandes vozes brasileiras. Algumas destas músicas, as mais antigas, celebrizadas na voz de Carmem Mirada, constituindo autêntico património histórico do Brasil.
Dorival Caymmi nasceu a 30 de Abril de 1914, em São Salvador da Bahia, filho de emigrantes italianos no Brasil, e morreu há poucos dias, a 16 de Agosto de 2008, no Rio de Janeiro. Foram 94 anos de um legado musical que recheou a música brasileira das melhores canções da sua história.
Para o Mestre, uma grande salva de palmas e um imenso bem-haja!
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Chiado: memórias de uma cidade

Passados 20 anos, impõe-se recordar. Como se possível fosse esquecer…
domingo, 24 de agosto de 2008
No país das esplanadas...
Continuando nos faits divers, diria que a Croácia é também o paraíso dos fumadores. Agora que por cá é proibido fumar em lugares fechados, parece que recuei no tempo. A sensação de que fumar é prática de quase todos os cidadãos adultos foi algo que me impressionou, pela quantidade: até parecia que o Estado incentivava para que se fumasse…!!
Mas deixemo-nos de pormenores e vamos ao essencial: país europeu, dos Balcãs, tem como vizinhos a norte a Eslovénia e Hungria, a nordeste a Sérvia, a leste a Bósnia e Herzegovina e a sul o Montenegro. Com uma história de dependência e subjugação a outros Estados, partilhou o martírio da II Guerra Mundial, com a perseguição a judeus, sérvios, ciganos e outras gentes. Saída da manta de retalhos em que se transformou a antiga Jugoslávia de Tito, e após reconhecida a independência em 1992, sobreveio à guerra civil que aqui durou de 1991 a 1995, e é agora país candidato à União Europeia. Com uma economia tendencialmente assente no turismo, a Croácia cativa pelas paisagens magníficas de uma costa com mais de 1000 ilhas (fazendo lembrar a costa grega, com as suas vilas brancas), banhada pelo Adriático, de águas calmas, mornas e transparentes. Sem areia, praticamente, mas sempre com uma grande utilização destes espaços a que chamam ”praia”…
Mas não só a costa croata é digna de referência. Com oito parques nacionais, dos quais se destaca o Parque Nacional de Plitvice, património mundial classificado pela UNESCO, e outros seis sítios também “abençoados” por esta classificação, de que refiro o núcleo histórico de Split, com o Palácio de Diocleciano, e a cidade antiga de Dubrovnik, a Croácia tem muitos pontos de interesse. Para não falar da hospitalidade das pessoas, rosto de um país e um conforto para quem chega.
Nesta minha viagem tive ainda oportunidade para uma incursão pela Eslovénia, até Lijubliana e, imagine-se, até à… Bósnia!... A primeira já esperada, etapa prevista no delinear deste percurso. Cidade bonita, acatitada, bem estruturada, com um centro histórico calmo e bem preservado, país já comunitário, transpira um certo bem-estar. Devo dizer que comunga também do mesmo apetite pelas esplanadas, que ao longo do rio, cujo nome desconheço, proliferam. A Bósnia, foi uma surpresa…! Pouco antes de Dubrovnik, no sul da Croácia, e enquanto procurava sítio onde dormir, eis senão quando a divisão administrativa deste país me prega uma partida e surge uma fronteira, com guardas e tudo e, quando menos esperava, estou no terceiro país do que assim se pode chamar a minha pequenina ronda pelos Balcãs…! Uma pequena localidade à beira-mar, Neum, em tudo semelhante às vizinhas, pois então! O país é interrompido, surge um pedacinho de Bósnia-Herzegovina, e é retomado uns quilómetros adiante, para terminar pouco mais à frente… assim como que uma porta estreita para que os bósnios possam ir até à praia… Enfim, peculiaridades do delimitar de fronteiras!
De regresso a casa, fica a lembrança de uns dias à descoberta de novos horizontes, de uns banhos em águas transparentes e de paisagens idílicas, daquelas que só imaginamos lá para os lados do Pacífico e que, afinal, encontramos em plena Europa…
Fotografias da Croácia
domingo, 3 de agosto de 2008
Iniciativas comunitárias por Terras do Xisto
Fiquei a conhecer um pouco melhor a região, por onde há já bastante tempo não passava. Revisitei lugares que são pequenas pérolas, como a tão conhecida aldeia do Piódão, a vila de Avô ou a Fraga da Pena, em que, apesar das águas geladas, se mergulha e se explora os recantos, descobrindo os encantos de uma cascata saída do verde. Ou ainda a pequenina aldeia de Foz d’Égua, com a sua piscina natural e uma ponte de tábuas e corda sobre as águas, pronta para a aventura, a fazer lembrar o Indiana Jones… Simpáticas alternativas ou complemento às férias do litoral e às já cansadas “vistas” das praias de Agosto.
Mas, para além das belezas naturais, que são muitas, descobri outra realidade que desconhecia. Em Portugal, país onde o espírito comunitário não tem grande tradição e onde impera um certo individualismo nas acções, descobri que existe uma realidade chamada Comissão de Melhoramentos. De iniciativa popular, estas associações são constituídas por moradores e amigos das terras, que unem esforços, se colectam e organizam e se dedicam a promover e pôr em prática pequenas acções de melhoramento da sua terra, como a limpeza periódica das piscinas fluviais, arranjos no pavimento das ruas, a dinamização das festas, entre outras iniciativas. Como no caso da Comissão de Melhoramentos do Agroal, pequenina aldeia do concelho de Arganil, cuja comissão já existe desde 1951… Agindo por si só ou pressionando as autarquias, estas associações representam a voz da população local e, pelo menos nesta região - já que nunca me apercebi que outras houvesse noutras zonas do país -, são exemplos vivos de uma democracia representativa e dinâmica.
Para todos aqueles que desperdiçam os dias em lamúrias inconsequentes e que mais não fazem que apontar o dedo, aqui fica uma boa demonstração de que o progresso e o bem-estar dos povos depende mais de nós mesmos do que dos outros. Democraticamente. Com participação. Porque, como dizia José Mário Branco, quando se atribui a culpa à sociedade, ao país, tudo entidades abstractas, “a culpa é de todos, a culpa é de ninguém”…
domingo, 27 de julho de 2008
Um palácio para o Nobel
José Saramago - A Consistência dos Sonhos, exposição organizada pela Fundação César Manrique (Lanzarote), que teve uma primeira exibição nas Canárias em Novembro passado, termina hoje mesmo a sua mostra em Lisboa, no Palácio da Ajuda, fruto de uma parceria realizada entre esta fundação e o Instituto de Museus e Conservação, a Biblioteca Nacional e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.Entre os documentos apresentados estão também obras de arte, pertencentes à Colecção José Saramago, de autores como Rogério Ribeiro, David de Almeida, José Santa-Bárbara, Júlio Pomar ou Antoni Tápies.
Esta viagem revela-nos a intervenção cívica de Saramago e o seu pensamento crítico: um homem defensor do iberismo; um ateu preocupado com Deus e com a justiça entre os homens. Um escritor que subverteu a pontuação e que, de jeito corrido, faz poesia com as palavras.
Absolutamente imperdível, esta exposição sobre o criador de Blimunda Sete-Luas e Baltazar Sete-Sóis, que hoje fecha a porta e desliga a luz, terminando em beleza com um concerto de violoncelo executado pela Orquestra Metropolitana de Lisboa. Foi ela a razão de ontem, num fantástico dia de sol, ter corrido para o Palácio Nacional da Ajuda. E não me arrependo.
José Saramago: exposição "A Consistência dos Sonhos"
sexta-feira, 25 de julho de 2008
À noite no museu...
Ontem, quinta-feira, de forma inesperada e por sugestão de T., pude fazer uma pausa na semana de trabalho, e apreciar o jazz e a bossa nova na actuação dos Fab Five, alunos do Hot Clube. Duas horas de um som melodioso, protagonizado por uma voz muito promissora e por interpretação dos músicos a condizer, no ambiente acolhedor e discreto de um pátio verde e fresco, onde muitos degustavam um jantar descontraído. A oriente da cidade, redescobrindo velhas ruas que nos conduzem à Madre de Deus e ao Museu do Azulejo, certamente um dos recantos mais interessantes do burgo. E tudo isto a propósito do recente projecto 5ªs à Noite no Museu, promovido pelo IPM que, num circuito por quatro espaços (Museu de Arqueologia, Museu do Azulejo, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves e Museu Nacional de Arte Antiga) proporciona ao público visitas até às 23h, projecção de documentários, animação, concertos (ver programação). Quem pensa que os museus são espaços mortos, em que a única actividade possível é a contemplação, em silêncio, de umas quantas peças a cheirar a mofo, acorde! Naturalmente no circuito cultural, os museus são, cada vez mais, espaços em que a cultura é entendida nas suas múltiplas vertentes: estética, pedagógica, lúdica…
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Cohen: a Voz dos deuses
A banda sobe ao palco vestida de negro e chapéu na cabeça, qual gang de Nova Iorque ou Chicago, anos 30. Paisagem com rio ao lado, lua redonda de cheia e noite cálida, abrigam a visita deste Senhor. Aos primeiros acordes de Dance me to the end of love, arrepia-se a pele, subjugada pela voz grave, gravíssima, que parece vir de dentro da Terra, do fundo dos Tempos. Dance me to your beauty with a burning violin... É Cohen que, apesar dos seus 73 anos, mantém aquela voz única, inconfundível, que dá corpo às letras intimistas que conhecemos há décadas. Como há bem pouco tempo alguém me dizia, há coisas que melhoram com a idade e a voz de Cohen é, sem dúvida, uma delas.
Grave, profunda como mais nenhuma sabe ser, ela é a verdadeira atracção de qualquer espectáculo protagonizado por Cohen e a sua banda, composta por músicos excelentes e um coro feminino de primeira água.
É neste espírito que cerca de 10 000 almas se renderam aos já conhecidos encantos deste repertório, ora trauteado baixinho, ora ouvido num silêncio respeitoso, agora como há 23 anos, em 1985, quando, ainda menina, o vi e ouvi em Cascais no seu primeiro concerto em Portugal.
Do artista a sensualidade e o inegável charme, sabedoria de estrela maior que distribui repetidamente elogios aos músicos e galanteios ao público; que se curva em admiração à música portuguesa e nos presenteia com um concerto de quase três horas, com um final a lembrar o gospel, em tom de agradecimento. Embalados por So long, Marianne, Suzanne e Take this Waltz, ou deixando-nos conduzir por este guru em Hallelujah...
Saio com a sensação de despedida, como se de um último encontro se tratasse. Mas fica o doce sabor do privilégio de ter assistido à actuação do último grande senhor do charme, que declama e seduz enquanto canta.
So long, Leonard Cohen...
Leonard Cohen - If it be your will
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Diálogos a quatro mãos

A Assembleia da República tem vindo, nos últimos tempos, a promover eventos culturais, que se desdobram em exposições, peças de teatro e concertos de natureza vária, com vista à divulgação cultural nacional e integrado num programa de abertura do Parlamento ao cidadão. Desta vez, o motivo foi o encerramento dos trabalhos parlamentares, assinalado com este concerto de mestres.
Um diálogo entre dois dos mais conceituados pianistas e compositores de jazz portugueses, que connosco partilharam um repertório maioritariamente constituído por variações sobre temas de Zeca Afonso, como Vampiros, Venham mais cinco, Era um redondo vocábulo e Traz outro amigo também. Dos próprios, A menina e o piano (Laginha) e Sonho dos outros (Sassetti). A dificuldade em apontar momentos de eleição é evidente, pois todas as peças foram muito bem interpretadas, mas talvez saliente a última que, certamente por inspiração do próprio tema de Zeca, elevou os dois pianistas - a eles e a nós - numa espécie de espiral feita de imaginação, emoção e prazer.
Um final de tarde que fez o dia merecer-se...
Traz outro amigo também
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Olhares do alto do império...
Lunch atop a Skyscraper, de Charles Ebbet, 29 de Setembro de 1932. Foto publicada pelo New York Herald Tribune e tirada no 69º andar do Rockefeller Center.Esta fotografia é a primeira de um conjunto de fotos que me chegaram num daqueles mails que aterram diariamente nas nossas caixas de correio. Não resisti a partilhá-las, por serem reais, antigas e alertarem para as inexistentes condições de segurança destes trabalhadores, o que, muitas vezes e apesar da legislação em vigor, ainda se verificam.
Algumas destas fotografias são da autoria de Charles Ebbets, nos anos 30, e reportam-se a situações do quotidiano dos trabalhadores na construção dos arranha-céus de Nova Iorque, entre 1920 e 1935. Estas fotos integram o arquivo Bettmann, fundado por Otto Bettmann em 1936, que actualmente pertence à empresa Corbis, propriedade de Bill Gates.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Entrevistas no feminino: à conversa com Agry...
O Agry do Navegador Solidário tem vindo a realizar entrevistas a bloggers. Numa primeira fase, escolheu pessoas do mundo lusófono e, segundo as suas próprias palavras, comprometidos na divulgação da história, da cultura e das aspirações dos respectivos povos. Terminada essa primeira fase, decidiu-se por entrevistas no feminino. E é essa conversa, para a qual simpaticamente o Agry me convidou, que partilho aqui convosco. Bem-haja, Agry!...sexta-feira, 11 de julho de 2008
"O meu irmão é filho único", ou diferentes mas iguais...
Dos mesmos argumentistas de A Melhor Juventude, e apesar do enquadramento histórico ser o mesmo e de utilizar uma linguagem cinematográfica a meu ver comum, este filme não segue o mesmo trilho épico do anterior, antes se detendo em pormenores quer de perfil psicológico, quer de detalhes de época muito interessantes.É comum dizer-se acerca deste filme que se baseia na história de dois irmãos que seguem percursos diferentes, uma vez que um é comunista convicto e empenhado e o outro fascista. Não sendo mentira também não é inteiramente verdade ou, pelo menos, é uma visão muito redutora.
Manrico, o filho mais velho, lindo, sedutor, revolucionário, encarna o perfeito "Che Guevara" italiano, um líder nato que apaixona todos à sua volta. Em aparente contraponto Accio, o mais novo de três irmãos de uma família da classe baixa italiana, o protagonista desta história, é desde muito novo um ser inquieto, que questiona tudo à sua volta, irreverente e impulsivo. Desde a sua entrada forçada no seminário (solução muito em voga para quem via nisso a forma de se livrar de mais uma boca para alimentar), e onde Accio procura seguir à risca e a preceito os mandamentos da Igreja, de tal forma que acaba por sair; da sua adesão fora de época ao partido fascista, à Ideia, como refúgio numa família inventada; na defesa daquilo em que acreditava, entendido como tábua de salvação, como âncora para si próprio. De resposta pronta e punho certeiro, brigão, incompreendido pela própria família que desespera com os seus actos, Accio vai-se revelando como a personagem mais completa e de perfil psicológico mais interessante nesta trama. O rebelde, aparentemente o mau da fita, que recolhe a simpatia do espectador e que, apesar dos excessos, tem um coração grande e alma de justiceiro.
Um filme sobre 15 anos da história de Itália: os anos 60 e 70, o rescaldo ainda do pós-guerra, a vida dos pobres e o saudosismo de Mussolini para aqueles que, nada tendo, se agarram à ideia de um líder todo-poderoso e que os guie. A força do Partido Comunista e a luta operária e estudantil. As contradições de um país que se nos revela através desta família da "arraia miúda", liderada por uma mãe que nunca sorri, esgotada, e por filhos com brilho nos olhos, cheios de ideais revolucionários e bandeira da voz dos desfavorecidos. Ideais de outrora...
domingo, 6 de julho de 2008
Risos de palco...
Fica aqui uma breve amostra, com duas pérolas de Mário Henrique-Leiria, um poeta de quem eu muito gosto:
RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver o que acontecia
Chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
É o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar o que acontece.
TELEFONEMA
Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.
terça-feira, 1 de julho de 2008
O elo quebrado...
Esta notícia colhi-a num dos últimos números de Le Nouvel Observateur. Insólita pela novidade. Segundo o artigo do periódico, a "cidade dos apóstatas" [aqueles que renunciam a uma religião, que abjuram da fé] ganhou forma em Rivas Vaciamadrid, um município dos arredores da capital espanhola.
Da mesma forma que o baptismo é o rito de entrada na comunidade dos crentes católicos, dando lugar a um "certificado" de baptismo, estes católicos forçados reivindicam o direito de saída dessa comunidade através de outro rito semelhante, com certificado de "fim de história". Não se identificam com a Igreja Católica, a qual, juntamente com a Guardia Civil, responsabilizam pelos males nacionais. Gente que sente o fardo de um passado de alguma forma traumático e que reclama uma maior amplitude dos direitos e liberdades individuais.
Numa Espanha tida por católica mas em que se têm vindo a operar mudanças, esta pode ser mais uma acha para a fogueira, na senda das últimas transformações introduzidas por Zapatero: casamento homossexual, divórcio expresso, abolição do ensino religioso durante o horário escolar, debate sobre a liberalização do aborto, a reforma do financiamento da Igreja...
A apostasia poderá ser mais um contributo para a tão reclamada liberdade religiosa? Deixo a questão em aberto.

