Foz d'Égua
Início de férias de Verão, que se desejam variadas, como convém. A convite de amigos viajo rumo à zona Centro, onde, por entre a belíssima Serra do Açor, proliferam pequenas aldeias de xisto que pincelam a paisagem. Paisagem verde com traços de azul das ribeiras que correm por lá e que permitem um sem número de piscinas fluviais, para gozo dos sentidos. Se o olhar se delicia com a transparência das águas, o corpo agradece poder nelas mergulhar, nos dias quentes de um Verão do interior.
Fiquei a conhecer um pouco melhor a região, por onde há já bastante tempo não passava. Revisitei lugares que são pequenas pérolas, como a tão conhecida aldeia do Piódão, a vila de Avô ou a Fraga da Pena, em que, apesar das águas geladas, se mergulha e se explora os recantos, descobrindo os encantos de uma cascata saída do verde. Ou ainda a pequenina aldeia de Foz d’Égua, com a sua piscina natural e uma ponte de tábuas e corda sobre as águas, pronta para a aventura, a fazer lembrar o Indiana Jones… Simpáticas alternativas ou complemento às férias do litoral e às já cansadas “vistas” das praias de Agosto.
Mas, para além das belezas naturais, que são muitas, descobri outra realidade que desconhecia. Em Portugal, país onde o espírito comunitário não tem grande tradição e onde impera um certo individualismo nas acções, descobri que existe uma realidade chamada Comissão de Melhoramentos. De iniciativa popular, estas associações são constituídas por moradores e amigos das terras, que unem esforços, se colectam e organizam e se dedicam a promover e pôr em prática pequenas acções de melhoramento da sua terra, como a limpeza periódica das piscinas fluviais, arranjos no pavimento das ruas, a dinamização das festas, entre outras iniciativas. Como no caso da Comissão de Melhoramentos do Agroal, pequenina aldeia do concelho de Arganil, cuja comissão já existe desde 1951… Agindo por si só ou pressionando as autarquias, estas associações representam a voz da população local e, pelo menos nesta região - já que nunca me apercebi que outras houvesse noutras zonas do país -, são exemplos vivos de uma democracia representativa e dinâmica.
Para todos aqueles que desperdiçam os dias em lamúrias inconsequentes e que mais não fazem que apontar o dedo, aqui fica uma boa demonstração de que o progresso e o bem-estar dos povos depende mais de nós mesmos do que dos outros. Democraticamente. Com participação. Porque, como dizia José Mário Branco, quando se atribui a culpa à sociedade, ao país, tudo entidades abstractas, “a culpa é de todos, a culpa é de ninguém”…

